Extremos do poder

Lira é acolhido no governo Lula, mas mantém disputa com Renans

Com apoio do governo petista à reeleição, Presidente da Câmara se aproxima de aliados de seus rivais em Alagoas

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Presidente da Câmara, Arthur Lira, e o presidente Lula. Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Presidente da Câmara, Arthur Lira, e o presidente Lula. Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Cinco meses separam o atual momento político do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), do início de sua malograda guerra eleitoral para barrar um ciclo de ascensão de poder do grupo político do senador Renan Calheiros (MDB-AL) em Alagoas. Tratado como um dos trunfos da também fracassada batalha de reeleição do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), Lira segue com arsenal político capaz de acreditar na garantia de apoio à sua reeleição no comando da Câmara, um refúgio dado pelo novo chefe do Palácio do Planalto, Lula (PT).

Reeleito deputado federal mais votado de Alagoas e campeão em percentual de votos no Nordeste, Lira cumpre um papel institucional crucial para o Brasil superar uma violenta crise de transição que ameaçou o resultado das eleições presidenciais, nos ataques aos Poderes da República em 8 de janeiro. Antes disso, foi decisivo para garantir ao novo governo petista a aprovação da PEC da Transição, ou do Estouro, que ampliou para Lula o teto de gastos em R$ 145 bilhões por um ano.

Bolsonaro ajudou Lira a virar a página de sua antiga aliança, ao não concluir seu mandato, após o ex-presidente não reconhecer a derrota, e não agir para conter parte de seus apoiadores mais radicais. Mas é pragmática a dupla contradição política de Lira, de obter apoio de Lula para sua reeleição como presidente da Câmara, e ter que manter, em Alagoas, canhões políticos voltados à ascensão do maior aliado do petista no estado, Renan.

Ciclos de poder e compromissos

Em campanha para reeleição à Presidência da Câmara, com lema “Compromisso com o Brasil”, Lira tem se reunido com bancadas partidárias e estaduais em busca de votos dos deputados eleitos para a eleição de 1º de fevereiro. Ontem, almoçou com parte da bancada de Alagoas, entre eles, o deputado petista Paulão, e os deputados federais Isnaldo Bulhões e Rafael Brito, eleitos para a próxima legislatura pelo MDB dominado pelos Calheiros em Alagoas.

“Temos a certeza de que unindo os esforços podemos colocar nosso Estado no topo, com investimentos em diversas áreas e um trabalho integrado. Agradeço ao presidente Arthur por também ser um grande democrata e representar diversas correntes políticas do Brasil, tornando o parlamento uma voz altiva e independente nesses 2 anos à frente da Câmara dos Deputados. Um grande orgulho para todos os alagoanos e colegas deputados que acreditam na isonomia dos Três Poderes”, elogiou Isnaldo Bulhões, aliado de Renan.

Hoje, o que também justifica a nova postura de Lira em buscar espaço político com apoio do novo governo é o fato de seu rival Renan conseguir eleger, em 2022, o segundo senador de sua família: seu filho e ex-governador emedebista Renan Filho, que acabou sendo empoderado por Lula como ministro dos Transportes.

Sem a possibilidade de afiançar poder via emendas de relator (o “orçamento secreto” agora limitado pelo Supremo Tribunal Federal), Lira está sendo levado a expor publicamente as contradições que atividade política exige em contextos adversos.

Exemplo de adversidade é que a ressaca de 2022 também trouxe para Arthur Lira dificuldades no Legislativo e Executivo de Alagoas, frutos da aliança de Renan Filho com a Assembleia Legislativa de Alagoas, para garantir que fosse sucedido no governo estadual pelo ex-deputado estadual, Paulo Dantas (MDB). A aposta de Lira ao Senado foi o deputado estadual Davi Davino Filho (PP-AL), que obteve 42,22% dos votos, derrotado com 14,7 pontos percentuais a menos que a votação de Renan Filho.

O candidato de Lira ao governo foi o senador Rodrigo Cunha (União Brasil), que não aproveitou o contexto de desgaste intenso para Paulo Dantas, que chegou a ser afastado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) do cargo de governador-tampão, acusado de liderar um esquema de corrupção que roubou R$ 54 milhões dos cofres da Assembleia Legislativa.

“Essa turma daí, a gente tem que interromper esse ciclo, né? Não existe. Os caras [Calheiros] se juntaram, agora, com o poder financeiro público da Assembleia [Legislativa], que é uma coisa impressionante no estado de Alagoas”, era o que dizia Lira, em agosto de 2022, ao explicar  ao Diário do Poder sua estratégia eleitoral contra o grupo político de Renan.

O Diário do Poder enviou a Lira perguntas sobre sua aproximação do governo Lula e, consequentemente, sobre resistências dos Renans à sua movimentação em busca da manutenção do comando da Presidência da Câmara. Não houve resposta até a última atualização desta matéria.