Tiros no pé

PL acumula crises ligadas à família Bolsonaro

Rusga Michelle-Flávio é uma das mais graves desde 2021

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O ex-presidente Jair Bolsonaro com os filhos, Flavio, Carlos, Eduardo e Renan (Foto: Reprodução/ X / @BolsonaroSP)

O Partido Liberal (PL), presidido por Valdemar Costa Neto, passou por uma transformação profunda após a filiação de Jair Bolsonaro em novembro de 2021. De legenda centrista e fisiológica, o PL se tornou a principal casa do bolsonarismo, elegendo a maior bancada da Câmara em 2022.

No entanto, o partido acumula uma série de crises internas, muitas delas ligadas à família Bolsonaro, disputas regionais e choques entre ideologia radical e pragmatismo político. Relembre as principais crises (em ordem cronológica):

2021–2022: Afiliação e adaptação

Bolsonaro trocou o PSL pelo PL em busca de estrutura. A entrada gerou resistências internas, com ala moderada do partido (herdada do antigo PR) deixando a legenda. Valdemar Costa Neto, condenado no Mensalão, tornou-se figura central, o que gerou críticas de antipetismo radical.

2023–2024: Consolidação e primeiros rachas

Após a derrota de 2022 e os eventos de 8 de janeiro, o PL abrigou a oposição bolsonarista. Crises menores envolviam disputas por comandos estaduais e alinhamento com o Centrão. Michelle Bolsonaro ganhou força como presidente do PL Mulher, expandindo influência feminina e evangélica.

Fim de 2025: Crise do Ceará (estopim da atual tensão)

Após a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro (novembro/dezembro 2025), Michelle participou de evento em Fortaleza e criticou publicamente a articulação do PL-CE (deputado André Fernandes) para apoiar Ciro Gomes (PSDB) ao governo estadual. Ela chamou a aliança de “precipitada” e “com o mal”, citando críticas passadas de Ciro a Bolsonaro.

  • Resultado: Suspensão das tratativas, mas forte atrito com Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro.
  • Michelle foi acusada de autoritarismo; os filhos defenderam pragmatismo regional.
  • Jair Bolsonaro, mesmo preso, interveio para indicar Flávio como pré-candidato e pedir união familiar.

Maio 2026: Caso Daniel Vorcaro (crise de imagem de Flávio)

Vazamento de áudios mostrou Flávio negociando milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro para um filme sobre Jair (“Dark Horse”). A crise gerou desconfiança no mercado, entre aliados e no próprio PL. Michelle evitou se envolver publicamente, mas foi especulada como possível “plano B”. Flávio negou irregularidades e manteve a pré-candidatura com apoio de Jair.

Abril–Junho 2026: Outros atritos

  • Troca de farpas públicas entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, exigindo intervenção da cúpula do PL.
  • Tensões contínuas sobre vice na chapa de Flávio e alianças estaduais.
  • Michelle reduziu agenda pública, focando em PL Mulher, mas manteve críticas indiretas a acordos pragmáticos.

24 de junho de 2026: Explosão atual (Michelle x Flávio)

Michelle publicou vídeos expondo humilhação em ligação telefônica com Flávio após o caso Ceará. Acusou-o de rispidez, desrespeito e de dizer que ela “chegou ontem” na política. Os dois não se falam desde o fim de 2025. Flávio respondeu minimizando (“dia de jogo”) e visitando o pai na prisão domiciliar.

Padrões recorrentes das crises

  • Familiar vs. Partidário: Choque entre lealdade ideológica (Michelle, ala “pura”) e pragmatismo (Flávio, Valdemar, articuladores regionais).
  • Influência de Jair: Mesmo preso, o ex-presidente atua como árbitro, mas intervenções nem sempre contêm o fogo.
  • Questões regionais: Alianças locais (como Ceará) geram atritos nacionais.
  • Gênero e base: Michelle fortalece narrativa entre mulheres e evangélicos, enquanto Flávio sofre desgaste nesses nichos.
  • Impacto eleitoral: Cada crise alimenta narrativa de “desunião da direita”, beneficiando Lula/centro-esquerda em 2026.

O PL conseguiu crescer e se estruturar, mas as crises internas mostram dificuldade em transitar do personalismo bolsonarista para uma legenda institucional. A atual rusga Michelle-Flávio é considerada uma das mais graves desde 2021, pois expõe publicamente o que antes ficava nos bastidores. O desfecho depende de mediação de Jair Bolsonaro e da capacidade de Valdemar Costa Neto de conter a “sangria”.