Diretor de '963 dias'

Bruno Barreto: ‘A realidade ficou tão absurda que a ficção já não consegue competir com ela’

Diretor de '963 Dias' fala sobre Michel Temer, Lava-Jato etc e explica por que seu novo documentário é uma reflexão sobre o Brasil pós-2016

acessibilidade:
O cineasta Bruno Barreto conversa com o ex-presidente Michel Temer um pouco antes da estreia de "963 dias".

Ainda havia um certo alívio no rosto de Bruno Barreto quando as luzes do cinema se acenderam.

Durante quase uma hora e quarenta minutos, convidados acompanharam pela primeira vez 963 Dias, documentário que reconstrói o período em que Michel Temer ocupou a Presidência da República e procura explicar como aqueles acontecimentos continuam influenciando o Brasil de hoje. A sessão reuniu ministros, parlamentares, empresários, jornalistas e muitos dos personagens que aparecem na tela. Para alguns, era apenas uma pré-estreia. Para outros, era o reencontro com um dos períodos mais intensos e controversos da história política recente do país.

Foi nesse contexto, poucas horas depois da exibição, que Bruno Barreto conversou comigo na BandNews TV. Ao longo da entrevista falou sobre os bastidores da produção, explicou as motivações que deram origem ao documentário e refletiu sobre democracia, imprensa, polarização e o legado político daqueles 963 dias.

Poucas horas antes da sessão, porém, o filme ainda não estava completamente pronto.

Os últimos ajustes de som haviam sido concluídos na quarta-feira à noite. Na quinta, vieram os testes de projeção. A cópia definitiva só ficou pronta na manhã da apresentação. É um cronograma que parece improvável para uma produção desse porte, mas Bruno Barreto fala disso com a tranquilidade de quem conhece bem o ofício.

“Documentário é diferente de ficção”, explica. “Você depende de material de arquivo, de licenciamento, de autorizações, de imagens que às vezes chegam em baixa resolução e precisam voltar. É um processo muito mais demorado.”

A observação parece tratar apenas de questões técnicas. Na verdade, ajuda a compreender o próprio espírito de 963 Dias. Assim como foi necessário reunir milhares de documentos, imagens e depoimentos para organizar cinematograficamente aquele período, Bruno Barreto parece convencido de que o Brasil ainda precisa reorganizar sua própria memória antes de compreender plenamente o que aconteceu entre o impeachment de Dilma Rousseff, o governo Michel Temer e o ambiente político que se consolidou nos anos seguintes.

Ao longo da conversa, fica claro que o documentário utiliza Michel Temer como eixo narrativo, mas nunca como destino final. O verdadeiro personagem do filme é o Brasil, ou, mais precisamente, a transformação da política brasileira. A polarização. A crise das instituições. O papel da imprensa. A ascensão das redes sociais. A substituição do consenso pelo conflito permanente. Michel Temer é a porta de entrada. Não o ponto de chegada.

Essa percepção começou a surgir muito antes de existir um roteiro.

Começou com uma pergunta.

A pergunta que deu origem ao filme

Todo grande documentário nasce de uma inquietação.

No caso de Bruno Barreto, ela tem data.

17 de maio de 2017.

Foi naquele dia que veio a público a gravação feita por Joesley Batista envolvendo Michel Temer.

Em poucas horas, o país mergulhou numa nova crise política.

O governo praticamente parou.

Reformas importantes deixaram de avançar.

O ambiente institucional mudou completamente.

Enquanto boa parte do país discutia as consequências imediatas da denúncia, Bruno Barreto ficou preso a outra questão.

O que realmente havia acontecido naquele momento?

“Eu sempre fiquei muito intrigado com o que havia por trás daquilo”, lembra.

Na tentativa de responder à própria pergunta, procurou um dos jornalistas que mais profundamente estudaram os bastidores do poder brasileiro.

Elio Gaspari.

Durante um almoço que reuniu Gaspari e Michel Temer, ouviu uma observação que jamais esqueceria.

Segundo Barreto, Gaspari disse ao então presidente:

“Não houve um complô contra o senhor. Complô é quando as pessoas se sentam em volta de uma mesa e traçam uma estratégia. O que aconteceu foi algo pior. Houve uma convergência.”

A palavra permaneceu ecoando.

Convergência.

Não uma conspiração organizada.

Mas uma sucessão de movimentos que, mesmo sem coordenação explícita, produziram um mesmo resultado.

Para Bruno Barreto, compreender aquela convergência era mais importante do que discutir apenas seus personagens.

Na sua leitura, havia naquele momento um ambiente alimentado pelo que chama de “justiceirismo” associado à Operação Lava-Jato.

“Aquele governo estava fazendo tudo o que o país precisava. A inflação caiu. Os juros caíram. A economia estava melhorando. E, de repente, aquele governo foi implodido.”

Não se trata, no documentário, de transformar essa leitura em verdade absoluta.

Ao contrário.

Bruno Barreto faz questão de reunir diferentes interpretações sobre o mesmo episódio.

Mas não esconde que aquela pergunta inicial conduziu todo o processo de investigação.

Entre os entrevistados está Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados na época.

Segundo Barreto, Maia afirma no filme que a reforma da Previdência já tinha votos suficientes para ser aprovada.

“Os votos estavam contados. A gente sabia que a reforma ia passar.”

A partir daí surge uma hipótese que percorre discretamente toda a narrativa.

O que teria acontecido com o Brasil se aquela crise não tivesse interrompido o governo?

Haveria outra eleição em 2018?

O centro político permaneceria competitivo?

A economia seguiria outro caminho?

Bruno Barreto não responde.

E essa talvez seja a principal virtude do filme.

Ele prefere fazer perguntas.

Michel Temer: um personagem improvável

Há uma frase que ajuda a compreender por que Michel Temer interessou tanto ao cineasta.

“Ele é um anti-herói.”

Não é uma definição casual.

Durante décadas, o cinema acostumou o público a personagens movidos por grandes gestos, carisma ou dramaticidade.

Temer parece exatamente o oposto.

É discreto.

Contido.

Metódico.

Mais conhecido pelos bastidores do que pelos palanques.

Foi justamente isso que despertou a curiosidade de Bruno Barreto.

“Ele não tem muitos votos. É um servidor público na essência da palavra.”

Enquanto fala, o diretor parece enxergar Temer menos como um presidente e mais como um personagem cinematográfico.

Um homem formado em outra escola política.

A geração de Franco Montoro.

Dos acordos.

Da negociação.

Da construção de maiorias.

“Isso hoje é tão raro”, observa. “Ele é uma espécie em extinção.”

Ao longo da entrevista, Barreto revela um aspecto pouco conhecido da trajetória de Temer e que aparece no documentário.

Segundo ele, foi o então secretário de Segurança do governo Montoro quem criou, em São Paulo, a primeira Delegacia da Mulher do Brasil.

“Tem muita coisa que as pessoas não sabem. Ele era até um sujeito além do seu tempo.”

Essa escolha ajuda a explicar outra característica importante de 963 Dias.

O filme não transforma Michel Temer em herói.

Muito menos em vilão.

Procura reconstruir um personagem complexo.

Contraditório.

Humano.

E talvez seja justamente aí que Bruno Barreto comece a deixar claro qual é sua verdadeira preocupação.

Não simplificar pessoas.

Porque, para ele, toda simplificação produz inevitavelmente uma distorção.

É exatamente esse raciocínio que, mais adiante, levará o diretor à frase que talvez resuma todo o documentário.

Mas, antes de chegar a ela, o filme percorre outro caminho.

Um caminho que passa pela imprensa, pela Lava-Jato e pelo nascimento de um país cada vez mais dividido.