Dívida bilionária acende alerta no mercado de energia
Comercializadoras acumulam mais de R$6 bilhões em débitos após sequência de dificuldades financeiras e pressionam setor por mudanças nas regras de segurança
O mercado livre de energia atravessa uma das maiores crises de sua história recente.
Levantamento divulgado nesta segunda-feira (13) mostra que pelo menos 11 comercializadoras acumulam mais de R$6 bilhões em dívidas, cenário que levou parte dessas empresas a recorrer à recuperação judicial ou extrajudicial nos últimos meses.
Entre abril e maio, quatro companhias registraram colapso financeiro.
A 2W Ecobank entrou com pedido de recuperação judicial com um passivo de aproximadamente R$2,39 bilhões.
A Tradener, uma das pioneiras do segmento, concentra cerca de R$1,7 bilhão em dívidas.
Já a Electra solicitou recuperação judicial com débitos próximos de R$1,3 bilhão, enquanto a Gold recorreu à recuperação extrajudicial para renegociar mais de R$1 bilhão junto aos credores.
Segundo informações do setor, a deterioração financeira foi provocada por uma combinação de fatores, entre eles a forte volatilidade dos preços da energia no mercado de curto prazo, mudanças regulatórias e o aumento das exigências de garantias financeiras para realização das operações.
Empresas que haviam firmado contratos em condições anteriores acabaram enfrentando dificuldades para honrar os compromissos quando os custos aumentaram de forma significativa.
O cenário também foi influenciado pelas oscilações na oferta de energia registradas entre 2023 e 2025.
Eventos climáticos reduziram a geração hidrelétrica, tradicionalmente mais barata, enquanto limitações sobre parte da geração renovável diminuíram a disponibilidade de energia no sistema, elevando a volatilidade dos preços negociados.
No mercado livre de energia, empresas e grandes consumidores negociam diretamente a compra de eletricidade com geradoras e comercializadoras, definindo preços, volumes e prazos sem as regras tarifárias do mercado regulado.
O modelo ganhou espaço nos últimos anos por oferecer maior flexibilidade e possibilidade de redução de custos, mas também expõe seus participantes às oscilações de preços e à necessidade de manter garantias financeiras para assegurar o cumprimento dos contratos.
O Ministério de Minas e Energia informou que acompanha a evolução do quadro por meio do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico.
De acordo com a pasta, os indicadores disponíveis não apontam risco sistêmico para o fornecimento de energia.
Paralelamente, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) avaliam medidas para reforçar as exigências de garantias financeiras e reduzir o risco de novos episódios de inadimplência entre as comercializadoras.