PF suspeita que a Câmara autorizou assessora a direcionar emendas a Cunha
Decisão do ministro Flávio Dino determinou bloqueio de R$ 6,15 milhões do ex-deputado
A Polícia Federal (PF) enviou ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), documentos que indicam que a assessora parlamentar Mariângela Fialek, apelidada de “Tuca”, contaria com o aval da presidência da Câmara dos Deputados para direcionar emendas parlamentares ao ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG).
As informações integram a Operação Transparência e embasaram a decisão de Dino, tornada pública no último domingo (12), que determinou o bloqueio de R$ 6,15 milhões em bens de Cunha por suposta ingerência ilegal na alocação de recursos.
Segundo a PF, os diálogos entre Cunha e a assessora ocorreram em 2025, durante a gestão do atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Embora os documentos não mencionem nominalmente Motta, a autoridade policial afirma que “tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas em favor de Eduardo Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”.
A investigação aponta que Cunha teria atuado como “agente privado com poderes políticos equivalentes ou superiores aos de parlamentares em exercício”, coordenando diretamente a destinação de ao menos 29 emendas da Comissão de Saúde, totalizando R$ 6,15 milhões.
Até o momento, Hugo Motta não se manifestou especificamente sobre a decisão que atinge Cunha.
No sábado (11), porém, o presidente da Câmara defendeu publicamente o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e criticou o que chamou de “intervenção judicial” indevida do STF, em referência a outra determinação de Dino que bloqueou R$ 119 milhões do dirigente partidário por suspeita de desvio de emendas.
Procurada, a defesa de Eduardo Cunha informou, por meio de nota, que tomou conhecimento da decisão pela imprensa e que o ex-deputado não foi intimado nem chamado a prestar esclarecimentos previamente.
Os advogados ressaltam que Cunha não exerce mandato e, portanto, não apresentou nem subscreveu qualquer emenda.
A defesa rejeita “a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar” e afirma que o valor bloqueado corresponde ao montante total das emendas sob investigação, sem que haja comprovação de desvio dos recursos.
Os defensores acrescentaram que buscarão acesso aos autos para garantir o contraditório e a ampla defesa.
Já a defesa de Mariângela Fialek sustenta que a assessora sempre atuou de forma “estritamente técnica, apartidária e impessoal”, negando qualquer participação em irregularidades.
O caso segue em apuração no STF, enquanto o Congresso avalia os desdobramentos da decisão e seus potenciais impactos sobre o sistema de emendas impositivas e a relação entre os Poderes.