Governo Lula pondera risco de retaliação dos EUA ao acionar Lei da Reciprocidade
Integrantes do Planalto avaliam que Donald Trump pode "subir o tom" contra o Brasil; processo técnico na Camex será aberto, mas retaliação não é imediata
Uma ala do governo do presidente Lula avalia com cautela os possíveis desdobramentos de uma resposta brasileira às tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos.
Auxiliares do mandatário manifestam preocupação de que o presidente norte-americano, Donald Trump, possa escalar as sanções contra o Brasil caso o país acione os mecanismos da Lei da Reciprocidade Econômica.
A percepção, segundo fontes da Esplanada dos Ministérios, baseia-se em sinais captados tanto no anúncio público da tarifa quanto na decisão final escrita do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR).
O documento norte-americano indica que a Casa Branca estaria disposta a endurecer as medidas caso o Brasil adote ações que aumentem o ônus ou as restrições ao comércio dos EUA, em vez de atender às preocupações americanas sobre supostas práticas desleais.
“Uma ação do Brasil que aumente o ônus ou as restrições ao comércio dos Estados Unidos, como a elevação de tarifas sobre produtos norte-americanos, em vez de atender às preocupações dos EUA com as práticas consideradas desleais identificadas na investigação, pode indicar que a medida adotada pelos EUA nesse nível não é suficiente para obter a eliminação dos atos, políticas e práticas do Brasil considerados passíveis de ação nesta investigação”, diz um trecho da decisão do USTR.
Segundo interlocutores do governo, o processo de reciprocidade envolverá dois aspectos: uma avaliação técnica sobre se as tarifas norte-americanas se enquadram nos critérios da lei e uma análise política sobre as consequências de uma eventual escalada das medidas por parte dos EUA.
Para essa ponderação, pesam tanto os sinais objetivos da administração Trump quanto a avaliação de que o presidente norte-americano tem um comportamento por vezes considerado “errático” por membros do governo brasileiro.
Em nota divulgada logo após a decisão do USTR, o Palácio do Planalto afirmou que “iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade”.
O anúncio, no entanto, não implicou em retaliação automática, mas na abertura de um processo formal.
A ideia do governo é que o Itamaraty acione formalmente a Câmara de Comércio Exterior (Camex), que abrirá um processo para verificar se as alíquotas aplicadas por Washington se enquadram nos critérios da Lei de Reciprocidade Econômica.
O procedimento não significa, necessariamente, que o Brasil adotará retaliações contra produtos ou serviços americanos, mas manterá um instrumento disponível para ser acionado caso avalie ser necessário.
O movimento repete um passo já dado no ano passado, quando a Camex iniciou procedimento semelhante após a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.
Na ocasião, o tarifaço foi derrubado pela Suprema Corte dos EUA, o que levou à extinção do processo. Agora, a intenção é reabrir o caminho, mantendo uma “carta na manga” para eventual uso, sem que haja decisão imediata sobre retaliação.