Especialista alerta para crise silenciosa no agronegócio brasileiro
Segundo Filipe Denki, o crescimento das recuperações judiciais reflete um desequilíbrio entre custos, receitas e capacidade de pagamento
Apesar de manter a posição de um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, o agronegócio brasileiro enfrenta um cenário de crescente pressão financeira. Segundo o advogado especialista em Direito Empresarial, Filipe Denki, produzir mais nem sempre significa obter melhores resultados econômicos.
Ao Diário do Poder, Denki afirma que o setor vive um momento aparentemente contraditório. Enquanto a produção agrícola bate recordes e o agronegócio segue como um dos pilares da balança comercial brasileira, aumenta o número de produtores rurais e empresas da cadeia agroindustrial que recorrem à recuperação judicial ou renegociam dívidas para manter suas atividades.
“O agronegócio brasileiro vive um momento que, à primeira vista, parece contraditório. De um lado, o país segue batendo recordes de produção. De outro, cresce o número de produtores e empresas da cadeia agroindustrial que enfrentam dificuldades financeiras”, afirmou.
Segundo o especialista, a mudança do cenário econômico nos últimos anos explica boa parte dessa realidade. A elevação da taxa Selic encareceu o crédito em um setor fortemente dependente de financiamentos para custeio, investimentos e comercialização.
Paralelamente, houve aumento expressivo nos custos de fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis, máquinas e logística, enquanto a valorização das commodities perdeu força.
“O resultado foi um desequilíbrio crescente entre receita, custos e capacidade de pagamento”, destacou.
Denki observa que muitos produtores realizaram investimentos e contrataram financiamentos em um contexto econômico favorável, mas passaram a enfrentar um ambiente completamente diferente no momento da colheita, reduzindo significativamente suas margens de rentabilidade.
Para ele, o crescimento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio, aliado ao aumento do chamado crédito problemático e às dificuldades de acesso a novas linhas de financiamento, demonstra que a questão deixou de ser pontual e passou a afetar um dos principais setores da economia nacional.
Nesse contexto, o advogado afirma que o Direito Empresarial assumiu uma função estratégica.
“Hoje, a recuperação judicial, a recuperação extrajudicial e os processos estruturados de negociação de passivos passaram a integrar o conjunto de ferramentas de gestão disponíveis para empresas que continuam economicamente viáveis, mas precisam reorganizar suas obrigações para recuperar o equilíbrio financeiro”, explicou.
Na avaliação de Denki, a recuperação judicial deixou de ser vista apenas como um sinal de fracasso empresarial e passou a representar um mecanismo de preservação da atividade econômica.
“Quando uma empresa consegue reorganizar seu passivo de maneira planejada, ela preserva empregos, mantém contratos, continua gerando renda, arrecada tributos e mantém toda uma cadeia produtiva em funcionamento”, afirmou.
O especialista ressalta que essa lógica é ainda mais relevante no agronegócio, já que propriedades rurais e empresas agroindustriais movimentam cooperativas, transportadoras, instituições financeiras, fornecedores de insumos, indústrias e milhares de trabalhadores.
Apesar disso, ele alerta que muitos empresários ainda procuram assessoria especializada somente quando a situação financeira já está comprometida.
“É comum observar tentativas sucessivas de solucionar problemas estruturais por meio da contratação de novos financiamentos, renegociações pontuais ou postergação de pagamentos. Em alguns casos, essa estratégia apenas aumenta o endividamento e reduz as alternativas disponíveis”, afirmou.
Para Denki, a reestruturação empresarial produz melhores resultados quando ocorre de forma preventiva, permitindo identificar sinais de deterioração financeira, renegociar contratos e reorganizar passivos antes que a crise se agrave.
Além da atuação empresarial, o advogado defende avanços no ambiente institucional, com maior segurança jurídica, previsibilidade regulatória e aperfeiçoamento dos mecanismos de renegociação de dívidas. Ele também considera essenciais políticas públicas voltadas ao fortalecimento do seguro rural e ao acesso a linhas de crédito compatíveis com a realidade do setor.
“O futuro do agronegócio brasileiro continuará sendo construído pela capacidade de produzir com excelência. Mas sua sustentabilidade dependerá, cada vez mais, da capacidade de administrar riscos, reorganizar estruturas financeiras quando necessário e tomar decisões estratégicas antes que as dificuldades comprometam a continuidade dos negócios”, concluiu.