'Não é corrupção real'

CGU minimiza pior nota da história do Brasil em percepção da corrupção

Órgão de controle do governo Lula alega que ranking da Transparência Internacional teria "distorções" e não trata de ocorrências reais

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Foto: Ascom PF/Arquivo

A Controladoria-Geral da União (CGU) minimizou, nesta terça (11), o pior desempenho da história do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), alegando que o ranking da Transparência Internacional teria “distorções”, limitações metodológicas, ao ressaltar que o indicador mede apenas a percepção, não a ocorrência real de corrupção, nos países.

O órgão de controle federal subordinado ao presidente Lula (PT), que chegou a ser preso e descondenado por corrupção na Lava Jato, publicou posicionamento oficial enfatizando ter compromisso com a transparência e o combate à corrupção. Mesmo depois de o pior IPC do Brasil desde 2012 ser atribuído a fatores que vão do silêncio de Lula sobre combater corrupção, passando por desvios de emendas parlamentares, pelo crime organizado “capturando” o Estado, até descondenações determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da macrocorrupção Odebrecht na Lava Jato.

Ao estender seus panos quentes, a CGU cita que o próprio relatório do IPC recomenda cautela na interpretação dos resultados, especialmente em relação a variações (“sutis” ou “estatisticamente irrelevantes”) da pontuação. E ainda argumenta que países que combatem corrupção podem ser penalizados no IPC, porque a exposição de casos e investigações impacta negativamente a percepção sobre o problema.

“O combate à corrupção não pode ser tratado como um fator negativo para a avaliação de um país. O uso do IPC para embasar debates públicos pode levar a distorções, alimentando narrativas que minam a confiança nas instituições democráticas. O índice se baseia em pesquisas com grupos específicos, como empresários, e não representa a percepção geral da população. Além disso, vários eventos mencionados no relatório como fatores negativos para o Brasil ocorreram após o período de coleta de dados do índice, o que compromete a coerência da análise”, alega a CGU.

Agentes da PF e audidores da CGU investigam ilegalidades na aplicação de verbas federais para saúde de Roraima (Foto: Arquivo/Reprodução PF)

‘Avanços ignorados’

Com perda de dois pontos entre 2023 e 2024, passando de 36 para 34, diversos fatores negativos levaram o Brasil a cair da 104ª para a 107ª posição do Índice de Percepção da Corrupção, no universo de 180 países pesquisados. A melhor performance do Brasil ocorreu em 2012 e 2014, quando registrou 43 pontos no IPC.

Mas a CGU destaca ter batido recorde de operações contra a corrupção em 2024, totalizando 47 ações, ao reclamar que avanços concretos não são devidamente reconhecidos pelo levantamento da Transparência Internacional, como a ampliação de acesso a informações pelo Portal da Transparência, avançou na rastreabilidade de emendas parlamentares e o lançamento do Plano de Integridade e Combate à Corrupção 2025-2027, com 260 ações estratégicas. Além de incluir a COP 30 na conta do “protagonismo internacional na transparência” e elogiar a Parceria para Governo Aberto (OGP).

“Esses avanços refletem um compromisso sólido com governança democrática, algo que o IPC não mede de forma adequada. A CGU segue firme em sua missão de garantir uma gestão pública transparente e reafirma a necessidade de um debate mais técnico e fundamentado sobre os métodos de avaliação da corrupção no Brasil e no mundo”, conclui a CGU.

Armas apreendidas na Operação Dilúvio, que apurou crimes na Prefeitura de Água Preta-PE. (Foto: Arqui/oDivulgação PF)

Estado capturado pelo crime

A Transparência Internacional alertou que o desempenho negativo para o Brasil é resultado do fato de o crime organizado ter iniciado um processo de “captura” do Estado. E conclui que o Brasil voltou a falhar, em 2024, na missão de reverter a trajetória de desmonte do combate à corrupção ao longo dos últimos anos.

“Ao contrário, o que se viu foi o avanço do processo de captura do Estado pela corrupção. A principal evidência de que estamos entrando no estágio avançado desse processo vai se tornando clara: a presença cada vez maior e explícita do crime organizado nas instituições estatais, que anda de mãos dadas com a corrupção. Não surpreende, portanto, o resultado do Brasil no IPC 2024 ser o pior da sua série histórica”, concluiu a Transparência Internacional.

Veja os principais motivos para a nota do Brasil no IPC:
  • Silêncio reiterado do presidente Lula sobre a pauta anticorrupção
  • Falta de transparência e condições de controle social adequadas no Novo PAC
  • Percepção de crescente ingerência política na Petrobras
  • Reiteradas negativas do Governo a pedidos de acesso a informação sob justificativa questionável de conterem dados pessoais, incluindo casos envolvendo pessoas da alta cúpula do governo
  • Persistência de corrupção no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) envolvendo o Centrão e desvios de emendas parlamentares
  • Arquivamentos e anulações em série, determinadas pelo STF, de casos de macrocorrupção decorrentes da anulação de provas produzidas pelo acordo de leniência do Grupo Odebrecht.