Piloto em fúria

TAM mantém por seis horas passageiros em cárcere privado

Empresa mantém passageiros confinados por 6 horas em avião parado

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tamUma sequência de desrespeito, arbitrariedade e cárcere privado deixou dezenas de passageiros do voo JJ 3641 trancados por seis horas dentro de uma aeronave numa malsucedida viagem de Brasília-Campinas-Rio de Janeiro. Ao embarcarem às 16h30 no Aeroporto Juscelino Kubistchek, em Brasília, cem passageiros da companhia TAM não imaginavam quão trágico seria o percurso até o destino final.

A aeronave deixou o solo candango às 17h05, como previsto, na quinta-feira da semana passada (5). A servidora pública Paula Pina viajava a trabalho e esperava chegar ao Rio às 20h, para seguir ao compromisso. Mas só chegou seis horas depois. O motivo? Ficou mantida em cárcere privado pelo comandante da aeronave em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, sem água, comida e nem poder usar o banheiro.

Paula foi uma das vítimas do autoritarismo e abuso de poder do comandante da TAM. Num longo relato, a brasiliense descreveu os momentos de tensão presa dentro da aeronave. Tudo começou com o mau tempo ao sobrevoar Campinas. Sem condições de aterrissar por causa das chuvas fortes, o comandante seguiu para Ribeirão Preto, onde pediu que os passageiros aguardassem até que o clima melhorasse.

De hora em hora, o piloto recebia a atualização climática e avisava aos passageiros das condições. Ao entrar na terceira hora de espera, já cansados de aguardar, com fome, sede e impedidos de usar o banheiro, alguns passageiros sentiram-se incomodados com aquela situação. Pediram para sair da aeronave, mas o comandante negou. ?Ele dizia que ninguém estava autorizado a deixar o avião?.

Paula conta que uma das passageiras pediu água. Recebeu um meio copo, pois a quantidade estava racionada. Enquanto bebia a água, passageiros começaram a questionar a demora com o comissário. ?Eles diziam que tudo era um absurdo, um desrespeito. Eu estava com fome. Não queria jantar cinco estrelas, mas uma barra de cereais que fosse, pois havia pagado pelo voo e merecia o mínimo de conforto?.

Ao ouvir as reclamações, o comissário retrucou com as passageiras que tudo era por medidas de segurança por causa das chuvas. ?Ele disse: ?minha senhora, se o avião cair vai todo mundo morrer, para o saco preto, aos pedaços. E, se a senhora não está satisfeita, voe de Gol’?, relatou Paula. Indignada com a resposta do comissário, a mulher jogou o resto de água nele.

Após as seis horas de espera, a aeronave seguiu viagem a Campinas. Lá, o piloto deu voz de prisão à senhora que jogou água no comissário. A Polícia Federal algemou a senhora e a retirou da aeronave. Chocados, os passageiros filmavam quando o piloto ameaçou prender quem estava registrando as imagens. Especialistas ouvidos pelo Diário do Poder apontaram as arbitrariedades ocorridas no avião.

?Houve privação de liberdade de locomoção, constrangimento, abuso de poder e arbitrariedade?, disse um delegado ouvido pela reportagem. O Código de Aviação Civil estabelece que nos casos de atraso e cancelamento de voo, o passageiro tem direito a assistência material, que envolve comunicação, alimentação e acomodação, a serem oferecidos gradualmente de acordo com o tempo de espera.

Já um controlador de voo ouvido pela reportagem explica que o desembarque em esperas prolongadas é um procedimento comum. “Em locais com condições climáticas severas como nevascas, os passageiros desembarcam, recebem voucheres de alimentação e, se preciso for, são acomodados nos hotéis ou salas de repouso dos aeroportos. Quando as condições melhoram, o embarque é feito novamente”, explicou.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) alegou que está ?apurando? as denúncias e que vai tomar as providências cabíveis. Já a Secretaria de Aviação Civil não quis comentar o assunto. Já a TAM tentou, por meio de nota, amenizar a situação alegando que o voo saiu de Brasília com atraso de 40 minutos. “A aeronave aterrissou às 19h46 no aeroporto de Ribeirão Preto, onde aguardou a melhoria das condições climáticas, e decolou às 22h55 com destino a Campinas”, consta da nota.

“A aeronave pousou em Campinas às 23h25. Os passageiros permaneceram embarcados enquanto o piloto aguardava a autorização para decolar para o Rio de Janeiro. No entanto, por um ato de indisciplina de uma passageira, a Polícia Federal foi acionada e o avião precisou ficar retido até que a ocorrência fosse registrada”, dizia a nota tão gelada quanto a atitude da tripulaçãodo voo JJ 3641.