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Novo ministro da Defesa

Jacques Wagner diz que pretende ?cicatrizar feridas?

Na Defesa, ex-governador baiano afirma que pretende emprestar seu ?patrimônio político? para aproximar o poder civil e os militares

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Cotado para ser um homem forte no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, o novo ministro da Defesa, Jacques Wagner, afirmou nesta sexta-feira, 2, que escolheu comandar a pasta por “opção” e não por convocação. Na cerimônia em que recebeu o cargo do diplomata Celso Amorim, o ex-governador baiano disse que emprestará seu “patrimônio político” no posto a fim de tentar “cicatrizar” cada vez mais as “feridas” entre o poder civil e os militares. Wagner disse que usará 99,9% do seu tempo para olhar para o futuro e ressaltou não ter assumido com “lanterna na mão” para o passado.

Em seu discurso de transmissão de cargo, após participar de uma cerimônia em que passou em revista as tropas da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, o novo ministro relatou ter dito à presidente Dilma Rousseff que tinha muito “apreço” em assumir o comando da Defesa. Ele afirmou que o pedido foi “recolhido” por Dilma, embora “muita gente continue não entendendo”. Ele lembrou ter estudado na infância em um colégio militar no Rio de Janeiro e brincou que, só não chegou a uma alta patente nas Forças Armadas porque enveredou para a carreira política.

“Meu nome viajou por todos os ministérios: ministro da Fazenda, ministro da Indústria e Comércio, ministro do Planejamento, ministro da Casa Civil”, disse. “Eu acho que patrimônio político emprestado ao ministério da Defesa com certeza é para que cada vez mais se cicatrize todas as feridas que permanecem”, completou ele, destacando estar “muito orgulhoso” de servir ao País e à presidente Dilma.

A posse do novo titular da Defesa foi concorrida. Participaram dela os novos ministros da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, do Desenvolvimento, Armando Monteiro, os mantidos no cargo, Arthur Chioro (Saúde), Ideli Salvatti (Direitos Humanos), e José Elito (Gabinete de Segurança Institucional) e os ex-ministros Miriam Belchior (Planejamento), Alexandre Padilha (Saúde) e Afonso Florence (Desenvolvimento Agrário).

Em entrevista logo após assumir o cargo, Jacques Wagner afirmou que na cabeça de nenhum militar hoje está a ideia de que a “ruptura da democracia” possa ajudar no desenvolvimento do País. “Eu acho que, assim como alguns querem bulir (mexer) nas feridas, vamos dizer assim, esquentando o debate, alguns do passado também querem esquentar o passado do lado de lá”, afirmou ele. “A verdade efetiva sairá exatamente da síntese de ideias”, avaliou.

O novo ministro citou entre as “feridas” que precisam ser “curadas” o fato de que pessoas que perderam familiares durante a ditadura militar (1964-1985) não os encontraram e querem ter o direito de dizer quem foi o culpado pelos desaparecimentos. Mas, em um discurso de consenso, ele insistiu que a conjuntura internacional de 1964 não existe mais.

Wagner destacou que as recomendações feitas pela Comissão Nacional da Verdade vão ser processadas internamente pelo ministério. Ele disse que vai se “empenhar” e que “aquele momento” já foi ultrapassado. “Estamos a 50 anos do fato e não há porque a gente ficar colocando nenhum tipo de obstáculo ao que a gente tem pela frente para o Brasil. Então elas serão processadas. Eu digo que a verdade e a transparência não machucam ninguém”, afirmou.

Questionado sobre uma eventual revisão da Lei da Anistia, uma das recomendações da comissão, Wagner não quis se comprometer. Disse apenas que está chegando agora e que vai estudar a questão. “Evidentemente essa será uma decisão de governo e não uma decisão do Ministério da Defesa”, disse. A presidente já sinalizou ser contra a iniciativa.

No seu discurso de despedida, Celso Amorim disse ter ajudado “com os melhores esforços” a Comissão da Verdade. Segundo ele, foi dado acesso às informações para que a comissão conhecesse, de forma objetiva, os fatos. “Muitos considerarão insatisfatório, por um lado. Outros considerarão injusto, por outro. Mas o trabalho feito, com a colaboração sempre leal e correta dos comandos militares, intermediada pelos meus dois chefes de gabinete principalmente, foi um trabalho que mereceu, inclusive, um elogio talvez exagerado e injusto do presidente da comissão no dia da entrega do relatório”, disse. (Ricardo Briton/AE)