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'Renanlândia' ameaçada

Renan Filho terá retaliação dura e talvez fatal de deputados apeados de seu governo

Orçamento impositivo e reeleição antecipada de Mesa da ALE vão minar projeto de poder

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Governador de Alagoas Renan Filho. Foto: Márcio Ferreira/Agência Alagoas

O retorno da secretária Melina Freitas ao comando da Secretaria da Cultura de Alagoas sinalizou para um suposto o início do fim da crise criada pelo governador Renan Filho (MDB) com a maioria de seus aliados, após sua interferência antidemocrática na eleição interna da Assembleia Legislativa (ALE). A verdade é que uma reação dura e talvez fatal já está planejada pela maioria dos deputados apeados do governo após rejeitar votar no tio do governador, Olavo Calheiros (MDB-AL). O projeto de poder dos Calheiros para o estado sofrerá um abalo com potencial de ruir os planos de tornar Alagoas uma “Renanlândia”, a partir de 2022.

A lentidão da reforma administrativa prevista pelo governador não sofrerá resistências apenas no momento de apreciação de uma eventual Lei Delegada neste início de segundo mandato. Os deputados já estão prontos para desenterrar proposta de Emenda Constitucional para o orçamento impositivo e devem realizar já no próximo mês a reeleição antecipada do deputado estadual Marcelo Victor (SD-AL), para presidir a Mesa da ALE e enterrar os planos do chefe do Executivo de manter seu tio Olavo na linha de sucessão, para assumir o governo quando Renan Filho renunciar para disputar o Senado, no último ano de seu mandato.

Quanto mais Renan Filho demora a demonstrar claramente a disposição em demonstrar mais respeito aos Legislativo que tentou tratorar, alguns deputados planejam evoluir esta reação contra o que consideram desdém do governador, até inviabilizar seu projeto de se tornar senador ao lado do pai Renan Calheiros (MDB-AL), na estratégia que pretende fechar as porteiras de Alagoas sob o domínio do clã. E tentam mobilizar o apoio de prefeitos e aliados no interior do Estado, para este propósito.

Após quatro anos com Renan Filho ignorando emendas parlamentares às leis orçamentárias anuais, a instituição do orçamento impositivo deve extinguir a relação de dependência do parlamento das migalhas oferecidas pelo governador aos seus aliados, reservando um valor estimado em R$ 3 milhões por deputados, para financiar ações do Estado indicadas pelos integrantes do Legislativo.

Tais iniciativas devem ir além das tradicionais derrubadas de vetos já colocadas em prática como estratégia de demonstração de insatisfação. E já faziam parte de acordo firmado para eleger Marcelo Victor, após a estratégia frustrada de Renan Filho de render o parlamento na base do ‘toma lá, dá cá’ de cargos no governo, com uma exoneração em massa.

A velha política instituída pelo herdeiro do senador Renan Calheiros (MDB-AL) foi exposta na véspera de outra derrota do ex-presidente do Senado, ao tentar retomar o cargo em fevereiro. E mesmo que o presidente Marcelo Victor não consiga cumprir tudo o que foi prometido por ele para conquistar a Mesa da ALE, a maioria dos parlamentares estão dispostos a ignorar qualquer tentativa de reaproximação do governo, por entender que, a essa altura, Renan Filho não tem nada a contribuir politicamente, ou através de eventuais vantagens da máquina pública.

Deputados, ao demonstrar apoio ao deputado Marcelo Victor para presidente da ALE. Foto: Divulgação

Governador minado

Antes mesmo de articular a derrubada o veto de Renan Filho à emenda parlamentar que impede o desconto previdenciário sobre os pagamentos do rateio do Fundeb aos professores alagoanos, a Assembleia Legislativa já demonstrou o clima belicoso da relação com o governador, quando Marcelo Victor nomeou o oposicionista Davi Maia (DEM-AL) para ser relator desta matéria. O veto será derrubado e o governador terá que recorrer ao Judiciário para defender os descontos já considerados ilegais por tribunais superiores.

Para quem acredita que a boa relação do presidente da ALE pode ajudar o governador, é fato que qualquer iniciativa de Marcelo Victor na direção de favorecer Renan Filho será interpretada como quebra do acordo político que lhe rendeu a unidade para ser eleito para a Mesa com votos de 26 dos 27 parlamentares.

Ao contrário da leitura feita por alguns analistas, o deputado Inácio Loiola Damasceno Freitas (PDT-AL) não se sentiu contemplado com a nomeação da sobrinha Melina Freitas na pasta da Cultura. Porque a intenção inicial de Renan Filho ao demiti-la foi de atingi-lo, após ter aparecido em foto declarando apoio ao adversário do tio do governador, nos primeiros dias de janeiro.

Inácio não fala sobre o assunto, mas integrantes de suas bases difundiram a informação de que renomear Melina não o contempla, porque a sobrinha teria se tornado secretária com base no compromisso de Renan Filho com o desembargador Washington Luiz Damasceno Freitas, pai da gestora da Cultura, não com seu tio parlamentar.

Ligações ignoradas

Uma das vítimas da guerra deflagrada por Renan Filho a favor de seu tio garantiu ao Diário do Poder que a maioria dos deputados não está muito preocupado com as ofertas do governador, a ponto de sequer atender, nem retornar telefonemas do chefe do Executivo.

Um dos exemplos do potencial irreversível da crise é a deputada Jó Pereira (MDB-AL), cujo clã político talvez não aceite o que o governador propor, depois de demitir o ex-prefeito de Junqueiro, Fernando Pereira, do cargo de secretário da Assistência Social.

“Tem deputado que recebe ligação e nem atende nem responde. Sempre achei o governo propositivo, dinâmico e de gestão eficiente, mas, começo a me preocupar com remédios e insumos que estão faltando na saúde, recursos do Programa do Leite sem ser repassados, vários município sem delegados, educação sem cumprir compromissos com os transportes escolares, cestas nutricionais suspensas, obras inacabadas por depender de recursos federais, etc. Ação política causa reação política, mas quando vira um ação varejista, pequena, de teoria no discurso e prática diferente se torna um governo enigmático”, relatou um dos integrantes do parlamento.