Uma das mortes de um país chamado Iugoslávia

acessibilidade:

Hoje temos duas guerras em curso no mundo.

Há 27 anos atrás, houve a tragédia de uma outra guerra desigual.

Falando de horrores de uma guerra entre forças assimétricas, como a “operação especial” que se trava hoje na Ucrânia. E nas ofensivas dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, lembrei que há exatos 27 anos teve início o bombardeio da OTAN contra a Iugoslávia.

Uma outra guerra, atroz como elas são. Desta vez , como em outras, sem o aval da ONU e de seu Conselho de Segurança. Protagonistas marcantes, arrogantes e quase suicidas no seu capricho. Os de hoje igualmente tenazes e arrogantes. E sempre destruidores.

Março de 1999 na Iugoslávia. O inverno acabara e a folhinha indicava que a primavera já tinha chegado. Mas naquele ano decerto a primavera não traria com ela entre os primeiros brotos verdes e o perfume das flores da estação que, em outros tempos, invadia a cidade. O que parecia pairar no ar era um persistente cheiro de pólvora. Um aterrorizante cheiro que já se tinha incorporado ao olfato dos iugoslavos e dos sérvios de Belgrado. Afinal, era apenas uma guerra tinha acabado há pouco e outra que se anunciava.

A Operação “Allied Force” da OTAN, sob a liderança dos Estados Unidos, foi iniciada às 19h. GMT (20:00 hora local na Iugoslávia).

Os bombardeios deveriam visar as defesas aéreas sérvias, comando e controle, forças VJ [Exército Iugoslavo] e MUP [Ministério do Interior], sua infraestrutura de sustentação, rotas de abastecimento e recursos, e uma linha tática de operação contra as forças sérvias destacadas no Kosovo e no sul da Sérvia.

Fosse como fosse, às vezes era a “shizela” (a esquizofrênica). Outras vezes era a “smirela” (a serena). Era assim que, no seu humor cáustico e peculiar, os sérvios chamavam a sirene que anunciava os bombardeios da OTAN. Nem todos correram para os abrigos improvisados.

Daqueles que viveram esse período tão espantoso, aprendi que, antes disso, em Belgrado, tudo parecia normal, mas nada era como parecia ser. Quando o sol se punha e o desfile noturno começava, os cafés se agitavam com luzes e música enquanto a cidade saía para se divertir. No Ocidente, a “normalidade” é praticamente uma certeza, é o estado constante, imutável. Não é percebido e, portanto, raramente mencionado.

Porém, seu significado não poderia ser mais diferente para os jovens de Belgrado – porque esta era uma geração cuja normalidade lhe havia sido roubada e substituída por incerteza, pobreza, guerra e violência.

Os jovens exerciam aquela insolência temerária, a arrogância, soberba desaforada, atrevida, obstinação injustificada em algo. Uma palavra em Sérvio define tudo isso. E muito mais. Inat. Era o supremo desafio diante do perigo iminente, mesmo sabendo que isso levaria a um resultado trágico. Conta-se que durante os bombardeios, ocorriam as festas dançantes mais loucas e frenéticas nos “splavs”, barcaças convertidas em bares e danceterias ancoradas nas margens do Rio Sava. O som dominante nessas “raves” alucinadas era o “turbo-folk”, uma mistura de batidas eletrônicas e vocais vibrantes, que explodia em cafés, clubes de dança, e até táxis,  em toda a antiga Iugoslávia. Apesar de sua onipresença na região, esse fenômeno pop dos Balcãs tem sido um ponto de controvérsia política e cultural devido a associações históricas com o regime nacionalista de Slobodan Milosevic na Sérvia na década de 1990. O gênero, que inundou as ondas do ar,  foi acusado de valorizar os valores patriarcais, o materialismo crasso, o estilo de vida de gangster e – mais seriamente – os crimes de guerra.

E todas as noites a partir desse dia até 10 de junho, durante os 78 dias da campanha da OTAN, “shizelas” e  “smirelas” anunciavam uma nova onda de ataques na Capital e arredores.

A Iugoslávia sob ataque da Otan.

Quando os feixes luminosos dos mísseis da OTAN riscavam os céus de Belgrado, moças e rapazes exibiam camisetas com dizeres desafiadores e ofensivos à OTAN. Outros, mais irreverentes, abaixavam as calças e viravam pro céu suas nádegas pintadas com um alvo. E gritavam, como se suas vozes pudessem ser ouvidas na noite escura, que só seria iluminada pelas explosões.

– “I’m a Serbian. Kill me”

Ao recusar-se a negociar uma solução pacífica no Kosovo, o ditador Slobodan Milosevic exerceu esse traço peculiar do caráter sérvio. Sabia que não tinha como evitar o poderio militar da OTAN. Naquela operação estiveram envolvidos forças militares de 13 países-membros do Tratado.

Na Embaixada do Brasil em Belgrado os sinais de guerra iminente exigiam mudanças e adaptações. Tinha ficado para trás o longo e difícil período das guerras da Croácia e da Bósnia, tempos que os funcionários lembram bem, com um Encarregado de Negócios bastante complicado.

Por outro lado, à medida em que fracassavam as negociações e crescia o temor de uma solução bélica, as Embaixadas do mundo ocidental, Estados Unidos e Europa, uma após outra, foram fechando e evacuando seu pessoal de Belgrado.

O Brasil decidiu manter sua Embaixada aberta e funcionando. O Embaixador do Brasil Adolf Libert Westaphalen fazia reuniões diárias com os funcionários do Itamaraty e com o pessoal local, organizando a Embaixada e adaptando o serviço para a nova realidade, determinando instruções e buscando tranquilizar a todos.

O Adido Militar, um Coronel do Exército, fez que não ouviu, juntou família e os apetrechos que pode levar e mudou-se com armas e bagagens para Budapeste., na Hungria.

O Núncio Apostólico (o Embaixador da Santa Sé), Monsenhor Santos Abril y Castelló, já tinha feito as malas e empacotado suas batinas e paramentos e seu estoque de hóstias, mas desistiu de deixar Belgrado atendendo aos conselhos do Embaixador Westphalen para permanecer ao lado do seu rebanho.

Rompidas relações diplomáticas, o governo britânico solicitou ao Brasil que se ocupasse dos seus interesses na Iugoslávia. O Embaixador do Brasil Adolf Libert Westphalen (sim, um baiano arretado, apesar do nome) liderou com competência e coragem esse processo. Nossa Embaixada ficou encarregada do pagamento dos salários dos poucos funcionários britânicos que permaneceram em Belgrado, e do pessoal local da Embaixada de Sua Majestade. Cuidávamos também dos imóveis da Embaixada (Chancelaria e Residência). Nossos funcionários faziam inspeções periódicas naqueles locais. Um dia correu a notícia de que a Embaixada da Inglaterra estava sendo hostilizada pela população. Nossa “tropa de choque” foi lá ver. De repente, ouviu-se o que pareceu ser um latido de cachorro lá dentro.  No dia seguinte, a diplomata, minha querida amiga Rujiza Andreyevich e o chofer veterano chofer Djura Curuvija e outros funcionários voltaram ao local e acabaram resgatando aquele que revelou-se ser Freddy, o animal de estimação de Sua Excelência, Sir Brian Donnelly, o Embaixador britânico.  Na pressa de fugir de Belgrado, os ingleses abandonaram o pobre do Freddy. Resultado Rujiza ganhou um simpático cachorro. Que a acompanhou a Budapeste, para onde foi, por recomendação do Embaixador Westphalen. E quiçá alhures.

O malote diplomático aéreo entre a Embaixada e o Itamaraty passou a ser transportado por terra para Budapest, distante 400 quilômetros de Belgrado. Era levado por servidor do quadro do Ministério, acompanhado de funcionários locais. Era a própria “salvação da lavoura” para todos da Embaixada e suas famílias, uma verdadeira benção, como qualificou uma funcionária local.

Segundo relato dos funcionários da Embaixada, o abastecimento na cidade era inexistente. Faltava de tudo. Alimentos, produtos de higiene pessoal, material de limpeza para roupa ou louça. A gasolina era vendida, nas esquinas em garrafas de Coca-Cola.

Os “doleiros” espalhados pela cidade pareciam zumbis, andando pelas ruas na tentativa de comprar moedas estrangeiras:

– “divisas, divisas, divisas” era o clamor permanentemente apregoado pelas ruas da cidade.

No período dos bombardeios, eu estava servindo em Washington, na Missão junto à OEA, e acompanhava os eventos da Iugoslávia através de um sistema de “chat” pela Internet, o ICQ, em “conversas” com a querida amiga Rujiza Andreyevich que morava em Belgrado. Houve noites, durante esses “chats”, em que o sistema e toda a energia elétrica vinha abaixo em razão de explosões de mísseis e bombas que atingiam edifícios próximos ao dela.

Os bombardeios deveriam ser de precisão “cirúrgica”, visando apenas alvos militares e de infraestrutura estratégica iugoslavos. Como em todos os ataques bélicos, mesmo os de alta tecnologia estes nem sempre eram plenamente “cirúrgicos” e acabavam atingindo outros alvos, com dolorosos e comprometedores danos colaterais. Foi o que ocorreu com a Embaixada da China em Belgrado, que foi parcialmente destruída e resultou na morte de três funcionários chineses, dano colateral.

Há guerras e guerras. Essa foi mais uma morte da Iugoslávia, essa Fênix entre as nações. Decerto não a última.

O homem sofre com todas.

Dante Coelho de Lima é diplomata. Foi embaixador do Brasil em Belgrado, Sérvia.

Reportar Erro