Transição e segurança energética

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Nos últimos anos o assunto mais discutido no Setor Energético tem sido a chamada Transição Energética promovida pelo desejo de substituição de combustíveis fosseis por fontes sem emissões de gases de efeito estufa, a saber: hidrelétricas, nucleares, solares, eólicas, geotérmicas, biocombustíveis.

Os acontecimentos nos últimos anos trouxeram uma preocupação adicional para o suprimento de eletricidade, a Segurança Energética. Essa preocupação se materializou, inicialmente na Europa como resultado da guerra na Ucrania e a drástica redução do suprimento de gás natural para a comunidade europeia. Recentemente a preocupação tornou-se mundial com a guerra no Iran.

O mundo já tinha passado por crises energéticas severas em 1973 e 1979 semelhantes a situação atual. Essas crises resultam em grande impacto econômico e também de falta de suprimentos básicos de outros produtos derivados do petróleo além de combustível.

Em 2025/2026, o petróleo Brent era negociado a aproximadamente US$ 55 – 66 por barril e com a guerra os preços atingiram o pico de US$ 126 por barril, portanto, um aumento de aproximadamente 110%. Em 1973 o impacto de preços foi ainda maior, pois o barril aumentou de US$ 3 para US$ 12, ou seja, 300%; e em 1979, de US$ 15 para US$ 39, ou seja 160%.

Na década de 1970, alguns países implementaram inciativas de uso de outras fontes. A Franca, por exemplo, decidiu investir fortemente em Energia Nuclear, criou um programa industrial de produção própria de centrais e transformou seu setor elétrico para ter nuclear com fonte dominante. O Brasil, incentivou seu programa hidrelétrico e criou o Proálcool com uso de álcool em veículos.

A crise atual de suprimento de petróleo, pode ser um grande incentivo para a transição energética. De fato, alguns países têm investido em fontes sem emissão motivados pela Transição Energética mas também, e talvez principalmente, por segurança energética.

Apesar do intenso esforço das últimas décadas para substituição de fontes fósseis, essas ainda representam as principais fontes de energia. De acordo com os dados mais recentes da AIE, a distribuição do consumo global de energia por fonte em 2025 foi: Petróleo (30,0%), Carvão (26,5%), Gás Natural (23,5%) e Energia Nuclear somada às Renováveis ​​(20%). No entanto, no que se refere à geração de energia elétrica, as fontes renováveis ​​e a nuclear representaram 42,9%, enquanto as fontes fósseis totalizaram 57,1%.

Necessário, no entanto, não trocar um problema por outro. Antes da guerra da Ucrania, alguns países da Europa decidiram importar gás da Rússia por ser combustível de menor emissões. O gás natural chegou a ser chamado o “combustível da transição energética”. O corte do suprimento trouxe grande insegurança.

Ao trocar os combustíveis fosseis for outras fontes, do ponto de vista de segurança energética, faz-se necessário avaliar a dependência externa de cada opção. Vejamos a situação no Brasil.

HIDRELETRICAS: No caso de hidrelétricas, o Brasil encontra-se em situação privilegiada pois tem histórico de capacidade de Engenharia para estudos de inventario, viabilidade, projeto executivo, construção (tanto para usinas convencionais com reversíveis) e tem, inclusive, capacidade de fabricação de todos os equipamentos.

NUCLEAR: Para Nuclear, também, o Brasil encontra-se bem colocado. Possuímos mais de 210.000 toneladas de reserva de urânio (figurando entre os 10 maiores detentores do mundo), mas produzimos apenas 43 toneladas em 2022. Em reunião havida em março de 2026, o Brasil anunciou a joint venture chamada “Nadina Minerals,” uma parceria entre a ENBPar e a Rosatom (estatal Russa), visando expandir a exploração. O Projeto Santa Quitéria, localizado no Ceará, tem como meta produzir 2.300 toneladas de urânio anualmente, o que poderá  transformar o Brasil em um grande fornecedor global.

Além disso, o Brasil é uma das poucas nações detentoras da tecnologia de centrifugação (disponível na fábrica de Resende). No, entanto, a maior parte do urânio brasileiro ainda é enriquecida no exterior (principalmente pela Rosatom); porém, o plano estratégico de 2026 visa alcançar uma produção doméstica de ciclo completo, destinada a abastecer o complexo nuclear de Angra e, potencialmente, o submarino nuclear da Marinha do Brasil.

Já projetamos e construímos duas centrais que tem sido operadas de forma adequada. Infelizmente abandonamos o programa de fabricação local. Porém, talvez isso possa até ser aproveitado positivamente, pois poderíamos promover fabricação de plantas mais modernas inclusive as SMR (Small Modular Reactor).

SOLAR: O Brasil não fabrica, atualmente, células solares (as lâminas de silício azuis ou pretas) em escala comercial. Os fabricantes locais importam as células de silício, principalmente da China; em seguida, interligam essas células e adicionam o vidro, as molduras de alumínio e as caixas de junção — muitos dos quais são adquiridos de fornecedores brasileiros — para atingir a meta de 30% a 50% de conteúdo local.

EÓLICO: O setor eólico no Brasil possui uma cadeia de suprimentos local mais “madura”, pois o BNDES implementou, anos atrás, um rigoroso Plano de Nacionalização Progressiva. Para se qualificarem ao financiamento FINAME do BNDES, as turbinas devem, tipicamente, atender a um requisito de conteúdo local de aproximadamente 60% em valor e peso.

Assim, a participação local corresponde a Componentes de grande porte, como torres (predominantemente de concreto ou aço), cubos, carenagens das naceles e pás do rotor, são fabricados quase 100% no Brasil. E a participação estrangeira a Componentes de alta tecnologia, como caixas de engrenagens (redutores), rolamentos especializados e certos equipamentos de eletrônica de potência, ainda são frequentemente importados — embora alguns fabricantes, como a WEG, produzam seus próprios alternadores localmente.

BATERIAS: Assim como no setor de energia solar, o Brasil ainda não possui fabricas  ​​que processem o lítio bruto para transformá-lo em células de bateria. Empresas importam as células individuais. Elas fabricam o Sistema de Gerenciamento de Bateria (BMS), os sistemas de resfriamento térmico, a carcaça metálica e o software sofisticado responsável pelo balanceamento das células. A nova fábrica da WEG em Itajaí visa avançar ainda mais na cadeia de valor; no entanto, por enquanto, o principal “valor agregado” no Brasil reside na engenharia do pacote completo de baterias e em sua integração à rede elétrica.

É importante destacar que as baterias com célula Íon-Lítio (NMC) conseguem armazenar mais energia em um espaço menor e com menos peso e portanto são mais indicadas para portáteis e automóveis, ao passo que para armazenamento de energia (BESS), as baterias com célula Fosfato de Ferro-Lítio (LFP) são as mais indicadas por terem melhor segurança e maior vida útil embora com mais peso. Também é importante distinguir entre a fabricação da célula (o componente químico interno) e a montagem do pack/sistema (BESS ou baterias veiculares). Atualmente, para ambos tipos de célula, o Brasil destaca-se principalmente na montagem de sistemas utilizando células importadas ou em parcerias tecnológicas.

Em resumo, na vasta maioria dos casos no Brasil, o que é rotulado como “fabricação” no setor de baterias de lítio e plantas solares é, na verdade, uma montagem avançada de componentes centrais importados. A indústria eólica é o único setor que se aproxima do ciclo completo de fabricação. Visto que é incrivelmente caro transportar uma pá de turbina de dezenas de metros ou uma torre pesada através do oceano, essas estruturas são construídas do zero no Brasil, utilizando, fibra de vidro, aço e/ou concreto locais — mantendo-se, contudo, a importação de rolamentos e sensores especializados.

MATERIAIS CRITICOS: Além da fabricação local, a segurança energética de painéis solares, turbinas eólicas e baterias dependem de minerais críticos.

Para fabricar turbinas eólicas existe a dependência de minerais críticos, encontrados principalmente na nacele e nos ímãs permanentes:  Terras-Raras (Neodímio, Praseodímio, Disprósio) — para ímãs permanentes potentes; Cobre — para os enrolamentos do gerador e a conexão da turbina à rede elétrica; Zinco — para as torres de aço; e Molibdênio — para as ligas da estrutura da turbina.

Os painéis solares também exigem minerais críticos, como: Silício Metálico (o material semicondutor que converte a luz solar em eletricidade); Prata (para os condutores e barramentos na superfície das células); Cobre (para as fitas que conectam as células e a fiação de todo o arranjo); Índio, Gálio e Selênio (para as tecnologias solares de “filme fino” — CIGS); e Telúrio (um componente-chave nas células solares de Telureto de Cádmio, também para filme fino).

As baterias constituem o componente que exige maior intensidade de minerais na transição energética. A migração para baterias de íons de lítio de alta densidade energética gerou um aumento massivo na demanda por elementos específicos: Lítio: o principal portador de carga em quase todas as baterias modernas de alto desempenho; Cobalto: utilizado no catodo; Níquel: empregado para substituir o cobalto, permitindo maior autonomia em veículos elétricos; Grafite: utilizado no anodo e, atualmente, o mineral com a maior exigência volumétrica em termos de peso; Manganês: utilizado em determinados catodos para melhorar a segurança e reduzir custos.

Reservas no Brasil

Mineral Reserva Estimada Ranking Mundial
Terras Raras 11,4 milhões de Toneladas Segundo no mundo
Lítio 540.000 toneladas Entre 10 maiores
Nickel 16 milhões de Toneladas Entre 5 maiores
Silício Grande Quantidade Entre 5 maiores
Cobre 12 milhões de Toneladas Significante
Zinco 2 milhões de Toneladas Moderado
Cobalto 85.000 tonelada Moderado
Prata 3.900 toneladas Início de desenvolvimento

Extração e Processamento: Embora o Brasil seja líder mundial na extração de vários desses minerais, a capacidade de processá-los para obter metais de alta pureza ou materiais avançados varia significativamente de acordo com o setor.

Terras Raras: O Brasil detém as segundas maiores reservas do mundo, ficando atrás apenas da China. O projeto Serra Verde é, atualmente, uma referência global para esse tipo de extração fora da Ásia. O Brasil está dando um salto gigantesco no processamento de elementos de terras raras (ETRs) para desafiar o domínio chinês. O projeto Serra Verde, em Goiás, iniciou sua produção em 2024 e é, atualmente, o único produtor em larga escala de terras raras pesadas fora da Ásia. Por meio de uma fusão prevista para 2026 com a empresa USA Rare Earth, o Brasil passará a integrar a primeira cadeia de suprimentos “da mina ao ímã” fora da Ásia, realizando a separação dos óxidos de terras raras nos metais específicos necessários para a fabricação de ímãs de alto desempenho.

Lítio: reservas no “Vale do Lítio”, em Minas Gerais. Embora suas reservas sejam menores do que as do “Triângulo do Lítio” (Chile/Argentina/Bolívia), o deposito em rocha dura do Brasil é, frequentemente, mais fácil e rápido de processar para a obtenção de lítio com grau de pureza para baterias. O Brasil tornou-se rapidamente um dos principais produtores globais de concentrado de lítio de alta pureza. No entanto, a conversão final em hidróxido ou carbonato de lítio (os compostos químicos metálicos utilizados em baterias) ainda é realizada, em sua maior parte, na China.

Níquel e Cobre: ​​Estes são os “pilares” da estratégia brasileira de minerais críticos. Os investimentos em projetos de cobre registraram um salto de mais de 700% recentemente, visando atender à enorme demanda pela expansão da rede elétrica e por veículos elétricos. Representam os setores mais maduros do Brasil, contando com uma significativa capacidade interna de fundição e refino, embora exporta montante significativo na forma de produtos intermediários para serem refinados no exterior.

Silício: O Brasil é um dos principais produtores mundiais de silício metálico, material essencial para painéis solares e semicondutores. Sua vantagem competitiva reside no uso de carvão vegetal (em vez de carvão mineral) no processo de redução, tornando o silício resultante mais “verde”. O Brasil é um dos principais produtores mundiais de silício metálico, um componente crítico para painéis solares e semicondutores. Ao contrário da China, que utiliza carvão mineral, os produtores brasileiros — como a Rima Industrial e a Dow — utilizam carvão vegetal proveniente de florestas sustentáveis ​​de eucalipto no processo de redução. Isso confere ao silício metálico brasileiro o status de um dos mais “verdes” do mundo, constituindo um grande diferencial comercial para compradores europeus e norte-americanos. Contudo, o Brasil ainda carece da capacidade de processamento necessária para a fabricação de células solares.

Cobalto: Embora não seja um produtor primário como a República Democrática do Congo (RDC), o Brasil é um dos poucos locais nas Américas onde o cobalto é extraído. Produzido principalmente como subproduto da mineração de níquel; portanto, sua capacidade de produção está diretamente vinculada ao volume de produção de níquel do país. Embora tendo capacidade de refino, o Brasil exporta Cobalto em produto intermediário para refino no exterior.

Zinco e Prata: O Brasil possui uma robusta capacidade de fundição de zinco, ao passo que a prata é recuperada, em sua maioria, durante o processamento de minérios de cobre e chumbo.

Conclusão: Podemos concluir que o Brasil possui grande capacidade de fontes sem emissões para a Transição Energética do setor elétrico bem como potencial para criar capacidade local para produção de equipamentos e transformação de minérios em metais críticos e assim possuir também alto nível de segurança energética. Quanto à descarbonização de outros setores, além do setor elétrico, a geração de eletricidade “limpa” associada a fontes de biocombustíveis, em especial o etanol, criam um horizonte de boas perspectivas. Resta que o país saiba implantar as políticas adequadas.

Armando Ribeiro de Araújo é Consultor Independente, Engenheiro Eletricista com Mestrado e Doutorado, foi Diretor de Procurement Policy do Banco Mundial, Secretário Nacional de Energia do Ministério de Infraestrutura, Presidente da Eletronorte, Membro do Conselho de Administração de Itaipu, Furnas, Chesf e Eletronorte, Diretor Técnico da I.E. Madeira e BMTE.