Tempos e modos ou Arte e Esporte para uma nova sociedade

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O homem desceu da árvore há cerca de 4 milhões de anos, mas as primeiras leis, como as consideramos e conhecemos datam de menos de 6000 anos. Foram os sumérios que codificaram as primeiras regras de vida em sociedade, visando a proteção de um homem contra o outro, do homem contra o estado e do estado contra o homem. São dessa época o Código de Hamurabi e a Lei de Talião, a do “olho por olho”.

Ate então só os instintos de vida e de morte, os impulsos de luta e fuga e a agregação inicial para proteção, conformada pelo grupo designado como familiar (e posteriormente o tribal) dominavam a conduta humana.

A civilização veio chegando aos poucos e há pouco tempo em relação ao tempo do planeta e ao tempo dos seres humanos. Segundo uma datação por carbono 14 existe evidencias do uso intencional do fogo associado à alimentação há cerca de 1 milhão e 700 mil anos e a domesticação e controle de utilização do fogo há cerca 600 mil anos AC. O uso dos utensílios de barro tem registros apenas a menos de 40 mil anos. Ou seja, o homem necessitou de mais de 1 milhão de anos para dominar o fogo e quase 4 milhões para humanizar o barro.

Desse modo fica fácil perceber que os tempos humanos devem ser muito mais relacionados aos instintos básicos de luta e fuga, de sobrevivência e preservação – individual e da espécie, do que àqueles relativos ao comportamento social propriamente dito, ainda carregando, em sua caminhada evolutiva, uma “quantidade” muito menor de condutas de respeito ao outro, de respeito à sociedade, de fraternidade e solidariedade, constituindo aquilo que pode ser chamado de verniz civilizatório.

No Brasil outro fator deve ser ponderado no encontro com a nossa civilidade. Os 133 anos da Abolição da Escravidão. A grosso modo são quatro gerações ou pouquinho mais, o que quer dizer que existe uma grande possibilidade de que os bisavôs de quem hoje tem 70 anos ou açoitou ou foi açoitado.

Portanto civilidade, civilismo e civilização são modos de vida e de relação que ainda estariam num estágio de récem-nascidos da própria história da humanidade, sendo amamentados tanto pelas evoluções das artes e das elevações dos espíritos como pelas atrocidades, chacinas e tragédias da existência.

Uma das consequências desse contexto é o aumento da violência entre os jovens e contra os jovens, notadamente os negros e daqueles de ascendência negra. Tendo por base este modelo, onde as emoções primordiais de medo, ódio e amor são tragadas pela força dos instintos e a eles se misturam em processo de fusão, fica evidente que as propostas de repressão (com promessa de efetividade imediata) e de educação (como objetivo de longo prazo) para se lidar com a violência atual não são suficientes.

É necessário perceber que a transmissão de conhecimentos na rigidez formal da educação escolar, onde se valoriza o aprendizado objetivo e cognitivo, não pelas suas deficiências, mas justamente pelas condições internas do ser humano, opera somente com os superficiais e recentes seis mil anos do verniz civilizatório, ignorando os anteriores 3 milhões novecentos e noventa e quatro mil anos, período esse que forma e conforma a estrutura psíquica do homem – instintual, emocional e racional, com muito mais força, profundidade e amplitude para as duas primeiras.

Repressão e educação atuam no domínio do racional. Como o instinto não se educa, não se adestra nem se treina de forma permanente, resta o trabalho com as emoções e sentimentos para que se possa, ainda que timidamente, tentar influenciar os milhões de anos submersos pela fina capa do verniz de civilidade. Usar apenas o racional para lidar com a violência vivenciada hoje é como tentar parar uma avalanche com uma placa de madeira.

É necessário que juntamente com a educação se forneçam instrumentos metodológicos e tecnológicos que permitam a expressão das emoções e dos sentimentos, que possibilitem o desenvolvimento da disciplina, da competitividade sadia e o estímulo à criatividade e ao trabalho em equipe. Dessa forma elementos psíquicos como: fraternidade, solidariedade, igualdade e respeito ao outro podem ser “pescados” dentro do universo de cada um e revelados como ferramentas a serem utilizadas na substituição de uma ética do medo pela ética do amor.

A arte e o esporte são os instrumentos de escolha para isso. Tão antigos como o homem, são reconhecidos pelo mundo interno dos indivíduos como produtos de uma cultura pessoal e coletiva, embora na imensa maioria das vezes não recebam dos governos a devida valorização. Pelo próprio tempo que habitam o homem, a arte e o esporte não podem ser tratados como objetos culturais meramente agregados, mas sim como amigos e conhecidos que merecem abrigo.

Do ponto de vista psíquico só uma emoção pode substituir outra. Não é possível colocar razão onde vive a emoção e vice-versa. O que pode acontecer, como diria Einstein, são eventos simultâneos, onde uma emoção ou sentimento se desenvolve mais que outra e vai ocupando maior proeminência nos nossos pensamentos e ações. Podemos imaginar que só uma cultura de não violência, de amor, poderá vir a substituir a do ódio e do medo atualmente em vigor. Gandhi é o melhor exemplo.

Um dos conceitos da psicanálise que pode ser usado como base desse argumento é o de sublimação, que afirma que energia associada a impulsos e instintos socialmente e pessoalmente constrangedores é, na impossibilidade de realização destes, canalizada para atividades socialmente meritórias e reconhecidas. A frustração de um relacionamento afetivo e sexual mal resolvido, por exemplo, pode ser sublimado na paixão pela leitura ou pela arte.

Por esse enfoque, arte e esporte merecem maior investimento como ferramentas de sublimação a serem utilizadas como apoio para uma nova concepção no processo educativo (ou civilizatório) de uma nova sociedade.

Sylvain Levy é médico e psicanalista.

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