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Se não formos nós, quem irá nos defender?

Depois de matar a esposa a facadas, o marido deixou a filha do casal, de sete anos, na casa da babá e não voltou mais. A menina tinha manchas de sangue na roupa e o corpo da mãe ainda estava dentro do carro. O crime chocou o Paraná nessa semana.

Em Olinda, o companheiro ateou fogo ao colchão em que a mulher estava e causou queimaduras gravíssimas em todo o corpo. Ela sobreviveu, mas carregará cicatrizes eternas.

Histórias que se multiplicam em todo o país. Só o Distrito Federal registrou 17 feminicídios este ano e o número de tentativas aumentou 32%. O índice deste ano é o maior desde 2015, de acordo com o balanço da SSP-DF.

Apesar de todas as campanhas de conscientização para estimular as denúncias, da ação da polícia para coibir atos de violência doméstica e da resposta mais ágil do Judiciário para punir os agressores, a triste estatística não apresenta variação negativa. Os homens não param de matar.

Um levantamento apontou que quase 4 mil mulheres são mortas por ano no Brasil. O estado com mais casos de feminicídio é São Paulo.

Mas qual a causa? Várias. Hoje quero tratar da questão cultural. A cultura do brasileiro ainda é muito permissiva diante de relações abusivas.

É a cultura de ‘não meter a colher’, de entender que todo problema familiar deve ser mantido dentro das famílias. Isso precisa ser modificado. Muitos dos casos de feminicídio foram precedidos por vizinhos que ouviram as agressões, sabiam do histórico de violência, mas nada fizeram. Nem mesmo prestaram socorro através de denúncia anônima no 180.

No Brasil, vemos uma verdadeira epidemia de violação dos direitos humanos. É inegável que ainda nos dias de hoje persiste a estrutura de dominação histórica do masculino sobre o feminino, uma visão ultrapassada que tem de ser rompida. E como podemos estancar esse mal enraizado na nossa cultura? Com políticas públicas, com educação em direitos humanos.

A questão, na realidade, é muito mais profunda. Não podemos mais tolerar as diferenças entre as médias salariais masculina e feminina, que contribui para a dependência econômica que induz mulheres a serem aprisionadas a relacionamentos violentos.

Não podemos mais aceitar o baixo número de mulheres ocupando cargos públicos. A representatividade é um fator essencial para a construção de uma agenda pública que enfrente a questão com afinco. A tão propalada união entre as mulheres nunca foi tão urgente e necessária. Nós sabemos do que precisamos e não nos falta coragem e capacidade para enfrentar esse cenário cruel. Temos todas as condições de colocar mais interlocutoras no Senado, nas assembleias e em todas as esferas de governo. É lá que podemos materializar nossa fala, nossas ideias, nossa rede de proteção em defesa das mulheres. Transformar a nossa dor e indignação em ações concretas. Temos de refletir sobre isso. Se não formos nós, então quem será? Se não agora, quando?