Saúde 2.0 2027

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Porque 2.0 e porque 2027?

2.0 porque a saúde no Distrito Federal precisa de um choque evolutivo, um verdadeiro eletrochoque em seus conceitos, paradigmas, política-administrativa, em quase tudo enfim.

2027 porque é impensável que um governador que teve sete anos de possibilidades gestoras e de tentativas infrutíferas de mudar o panorama de um sistema de saúde criticado pela população, profissionais e servidores da saúde, consiga fazer no ano que lhe resta, a revolução que, à vista de todos, é necessária e indispensável.

O SUS, o nosso brasileiríssimo Sistema Único de Saúde, como ficou comprovado durante a epidemia do COVID também é necessário e indispensável. Sem a cobertura nacional, integral e isonômica do SUS milhares, provavelmente milhões, de pessoas não teriam sobrevivido. E mais que isso, os riscos de uma convulsão social por conta de “desabastecimento de recursos de saúde” seriam bastante prováveis, O SUS deve ser visto, também, como importante fator de estabilidades social, política e institucional. É uma poderosa arma da democracia.

Estas estabilidades podem ser mais facilmente reconhecidas no Distrito Federal se for levada em conta que, superior à média nacional de 24,9%, no DF são 30% (mais de 1 milhão de pessoas) que possuem planos de saúde privado e justamente essas pessoas, pelas condições de poder econômico, social e político, são aquelas que poderiam exercer uma maior pressão sobre a  qualidade do sistema de saúde oferecido à população.

Um sistema de saúde é constituído por serviços de promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação, oferecidos tanto ao individuo como para a coletividade. Isso não é novidade. O Plano Geral da Rede Médico-Hospitalar de Brasília, elaborado em 1959 por Henrique Bandeira de Mello, definia saúde pública como “a ciência e a arte de prevenir a doença, prolongar a vida e melhorar a saúde e as eficiências físicas e mentais através dos esforços organizados da comunidade, visando o saneamento do meio, o controle das doenças transmissíveis, a educação do individuo em higiene pessoal, a organização de serviços médicos e de enfermagem para o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo das enfermidades, e o desenvolvimento da máquina social, no sentido de assegurar a cada indivíduo um padrão de vida adequado a conservação da saúde”([1]).

Relendo essas palavras, pode parecer que a proposta é fazer uma revolução para trás, ou seja, um retorno de 66 anos. Mas não é nada disso, trouxe apenas um lembrete que indica o quanto nos afastamos do caminho de um sistema público de saúde. Pode-se afirmar que temos um SUS, mas ele cumpre as funções precípuas de sistema público?

A primeira observação que é feita sobre o SUS diz respeito a insuficiência de recursos, sendo os financeiros os mais comumentes citados. Considerando que não são visualizadas perspectivas orçamentárias e financeiras mais alvissareiras para o Brasil, a curto e médio prazos, a alternativa é otimizar os recursos existentes, evitar-se os desperdícios com parcerias e privatizações ineficientes e temerárias e investir em inovações tecnológicas e de gestão. Do ponto de vista de recursos físicos, a rede de atenção e de apoio está bastante estruturada, ajustes são necessários em termos de equipamentos. Os recursos materiais e instrumentos, de necessidade contínua, dependem tanto dos recursos de custeio como de um sistema logístico que atue de forma oportuna e eficiente.

Logística eficiente é componente de processos de gestão e incorporação tecnológica. E essa é uma das revoluções possíveis para o SUS-DF. A revolução tecnológica. E não se trata de adquirir novos e caros equipamentos, mas de usar as capacidades em softwares para melhor administrar tempo e recursos. A antiga Fundação Hospitalar do DF desenvolveu e implantou em 1974, um Sistema de Auditoria Médica por computação, capitaneado inicialmente por Miguel Paes de Carvalho e depois por Jose Carlos Carneiro de Mendonça, hoje não tem telefone para se comunicar com várias unidades de saúde. Um aplicativo simples e utilizado por quaisquer clinicas e consultórios confirma a presença do paciente em exames e consultas e em caso de desistência preenche aquela vaga com outro paciente. É a otimização do tempo e do espaço das unidades e gestão de filas da demanda.

Uma das mais importantes, se não a maior revolução no campo da gestão, é a de recursos humanos. O atual modelo de gestão – com horários de trabalho picotados em turnos cada vez mais espremidos, com plantões que impossibilitam o acompanhamento dos pacientes, com o estrangulamento da relação médico-paciente em consultas muito rápidas e pouco efetivas, com salários aviltados e condições de trabalho insuficientes, levou a situação atual de insatisfação de quem atende, de quem recebe atendimento e do gestor responsável por tudo. Quando o modelo não agrada a nenhuma das partes está na hora de mudá-lo.

Horário integral e dedicação exclusiva, com salário digno, essa é a revolução necessária.  Para todos ou ao menos para as equipes de saúde. Não é insanidade nem excepcionalidade. A Rede Sarah já faz isso há décadas e o resultado é a excelência do trabalho e o reconhecimento profissional nacional e internacionalmente. O GDF tem condições de produzir um estudo sobre esse assunto e transformar a saúde do Distrito Federal em modelo para o restante do país.

[1] Separata da Revista do Serviço Especial de Saúde Pública, Tomo XI, n.1 – 1959.
Sylvain Levy – Médico Sanitarista, aposentado do Ministério da Saúde. Psicanalista, membro da Sociedade de Psicanálise de Brasília – SPBsb

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