Que droga de comentário foi esse!

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A megaoperação para debilitar o Comando Vermelho trouxe de volta e com mais força uma polêmica e infeliz frase recente de Lula. “Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também.”, disse o presidente, para júbilo num primeiro momento da extrema direita, que contextualizou a frase como se o presidente tivesse dito que o “cidadão de bem” era o culpado e a vítima era o bandido que “destrói famílias”.

De certa forma injusta a acusação. Até porque uma parte da imprensa fez um recorte na sua fala e deixou de publicar que logo em seguida Lula ressaltou que “Você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra”, o que provavelmente traduz com mais exatidão o que o presidente tentou dizer fazendo uso de palavras mal escolhidas.

Fiz questão de ressaltar que num primeiro momento a extrema direita se apropriou do escorregão de Lula, porque agora ele está na boca da maioria absoluta dos brasileiros. A verdade é que o governo federal perdeu o controle da narrativa sobre a segurança pública no momento em que encaminhou três dias após a megaoperação do Rio o Projeto de Lei Antifacção. Quase uma confissão de que não havia dado até agora a atenção merecida para o flagelo das organizações criminosas.

Diferente do governo do presidente Michel Temer, que decretou uma corajosa intervenção, com considerável risco político, na segurança pública no Rio de Janeiro, criou o Ministério Extraordinário da Segurança Pública, o Sistema Único de Segurança Pública, a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Nacional, para ressaltar algumas das iniciativas daquele período em que uma visão sistêmica foi dada ao tema, claro, da segurança pública.

Voltando ao escorregão de Lula, é certo que o presidente não se expressou bem – ele próprio reconheceu isso –, mas, mais importante do que tratar o episódio dentro de um ambiente de polarização, é investigar as possíveis raizes do resvalar.

Quisera eu ser eu um linguista, afinado com o campo da análise do discurso, para decifrar a construção ideológica que se esconde por trás da frase de Lula. Arrisco-me a dizer, ainda assim, que o presidente pode ter sido traído por um imprinting adquirido nos primórdios de sua formação política.

Antes, é preciso resgatar para o leitor certas informações. O imprinting (ou estampagem) é um conceito fundamental da etologia – o estudo do comportamento animal – desenvolvido pelo austríaco Konrad Lorenz, em parceria com Nikolaas Tinbergen e Karl von Frisch, conceito que lhes renderam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973. Trata-se de um processo de aprendizagem rápida e duradoura que ocorre em um período sensível ou crítico logo após o nascimento ou eclosão de certos animais. Traduz uma fixação precoce e irreversível de certos padrões de comportamento. Transportado para os humanos, o imprinting é um fenômeno de fixação precoce, onde o cérebro grava certos padrões e reconhecimentos básicos. Não é algo capaz de determinar a ideologia, mas prepara o terreno emocional e cognitivo sobre o qual a ideologia será construída mais tarde.

Mas, e Lula? Durante a Guerra Fria, parte das esquerdas latino-americanas via o modelo abraçado pela elite brasileira como uma cópia daquele que vigorava nos Estados Unidos, o império que seria responsável pelo subdesenvolvimento da região. Nesse ambiente, a cocaína e outras drogas foram, em certos discursos, interpretadas como uma forma de devolver ao império seus próprios vícios e decadência moral. A ideia de que os EUA seriam corroídos por dentro através das drogas e pela sociedade de consumo que haviam imposto ao mundo.

Intelectuais e artistas de esquerda, especialmente na contracultura latino-americana dos anos 1970, muitas vezes usaram a cocaína como metáfora política. O pó branco que corrompe o centro do poder.

Poucos livros influenciaram tanto o pensamento da esquerda como “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Ali está escrito que “A América Latina é uma região de veias abertas, de onde fluem ouro e prata, café e açúcar, carne e fruta, petróleo e ferro – para alimentar as metrópoles distantes”. Mais tarde o próprio Galeano, em uma entrevista, tratou de ampliar essa sua visão da nossa dependência esclarecendo que “As veias continuam abertas, e o sangue ainda corre – agora sob a forma de dívida externa, de cocaína e de exportação de corpos”.

O expoente máximo do realismo mágico – e ícone da esquerda – Gabriel García Márquez escreveu e falou que a cocaína não nasce em Miami. Nasce na Colômbia, mas a demanda que a torna um monstro é a do Norte. Para ele, o drama colombiano é que não dá para imaginar o fim do narcotráfico enquanto houver demanda e consumo no exterior.

Por falar na Colômbia, o seu presidente de esquerda disse há poucos dias, perante a Assembleia Geral da ONU, que as vítimas da recente guerra às drogas lançada pelos Estados Unidos na costa norte sul-americana não eram traficantes, mas “jovens pobres da América Latina que não tinham outra opção”. Desarmados, segundo Gustavo Petro.

Estou convencido de que Lula não quis atribuir ao traficante a condição de vítima, nos moldes da leitura que alguns fizeram. Mas, também estou convencido de que certos conceitos que ficaram impressos em sua memória durante a sua formação política primeva contribuíram para esse deslize.

A verdade é que quando Lula, numa mesma entrevista coletiva, mistura as suas frases de improviso com a condenação explícita às recentes ações norte-americanas no Caribe e no Pacífico, parece mais evidente essa constatação de que pode ter ficado carimbada no seu cérebro a ideia simplista de que todos nós – incluindo os jovens nem sempre pobres, sem opção e desarmados a que o olhar reducionista de Petro se refere – somos de alguma forma vítimas de uma poderosa máquina opressora imperialista.

Talvez por carregar essa estampa Lula disse o que disse. E talvez seja por esse tipo de construção semântica que as nossas esquerdas vêm tratando de forma até certo ponto ingênua um tema tão importante como o da segurança pública.

Fenando Tibúrcio é advogado defensor de perseguidos políticos.