Quando as Tragédias Ainda Parecem Pequenas
As maiores tragédias da humanidade quase nunca começam quando percebemos que começaram. Quando finalmente reconhecemos sua dimensão, normalmente já é tarde demais para impedi-las.
As grandes tragédias da humanidade raramente começam quando passam a ocupar os livros de História. Quando finalmente conseguimos enxergar toda a extensão do horror, elas já deixaram para trás milhões de vítimas, cidades destruídas e gerações marcadas para sempre. O verdadeiro problema é que quase nunca reconhecemos seu início enquanto ainda podem ser evitadas. A História costuma revelar onde as tragédias começaram apenas depois de sabermos onde terminaram.
O Holocausto talvez seja o exemplo mais eloquente dessa ilusão retrospectiva. Ele não começou em Auschwitz. Não começou nas câmaras de gás nem nos crematórios. Tampouco começou quando cerca de seis milhões de judeus já haviam sido assassinados ou quando a Segunda Guerra Mundial deixava aproximadamente oitenta milhões de mortos entre militares, civis e inúmeras outras vítimas da barbárie nazista. Entre elas estavam também os povos Roma e Sinti, pessoas com deficiência física e mental, homossexuais, testemunhas de Jeová, opositores políticos, prisioneiros de guerra soviéticos e incontáveis civis dos territórios ocupados.
Tudo isso aconteceu depois.
O Holocausto começou quando ainda parecia impossível imaginar que aquilo pudesse acontecer. Começou com discursos inflamados, caricaturas, teorias conspiratórias e a lenta transformação de uma minoria em bode expiatório para os problemas de uma sociedade. Vieram os boicotes a estabelecimentos judaicos, o vandalismo, as humilhações públicas, as leis que restringiam direitos, as estrelas amarelas costuradas às roupas para identificar judeus nas ruas e a crescente normalização da exclusão. Cada novo passo parecia pequeno quando observado isoladamente. Juntos, conduziram a uma das maiores tragédias da história da humanidade.
Não foi um caso isolado.
O genocídio dos armênios foi precedido por anos de perseguições e campanhas de desumanização. Em Ruanda, antes que aproximadamente oitocentas mil pessoas fossem assassinadas em apenas cem dias, emissoras de rádio já chamavam os tutsis de “baratas”. A limpeza étnica nos Bálcãs foi antecedida por anos de propaganda nacionalista e demonização de povos vizinhos. A Revolução Cultural Chinesa começou muito antes dos milhões de perseguidos, quando professores, intelectuais e supostos “inimigos do povo” passaram a ser publicamente humilhados. O mesmo padrão se repetiu nos expurgos de Stalin, no Camboja de Pol Pot e em tantas outras tragédias do século XX.
A História raramente repete os acontecimentos. O que ela repete, com inquietante frequência, são os mecanismos.
É precisamente por isso que a distinção entre crítica política e preconceito precisa permanecer absolutamente clara. Criticar governos é não apenas legítimo, mas indispensável em qualquer democracia. Criticar o governo de Benjamin Netanyahu não é antissemitismo, assim como criticar um presidente americano não significa odiar os Estados Unidos. Governos tomam decisões. Governos devem responder por elas.
Outra coisa, porém, é transformar um povo inteiro em responsável pelas ações de um Estado.
Há poucos meses vivi uma experiência que dificilmente esquecerei. Fui ao Carnegie Hall assistir a um concerto da Orquestra Filarmônica de Israel. Antes mesmo de chegar à entrada, chamou-me a atenção um grande contingente da New York City Police Department protegendo o público. Do lado de fora, centenas de manifestantes exibiam cartazes acusando a plateia de genocídio.
Ninguém perguntou quem éramos. Ninguém sabia se éramos judeus ou não. Ninguém perguntou se apoiávamos ou condenávamos Netanyahu, o governo israelense ou a guerra em Gaza. Bastava estarmos entrando para assistir ao concerto de uma orquestra israelense para sermos tratados como culpados.
Naquele momento compreendi, de maneira muito concreta, a diferença entre antissionismo e antissemitismo. O alvo já não era uma política de governo nem uma decisão militar. O alvo eram pessoas identificadas — corretamente ou não — como judias.
O mesmo acontece quando sinagogas são vandalizadas em cidades que ficam a milhares de quilômetros de Israel. Quando estudantes escondem a estrela de David sob a camisa por receio de agressões. Quando pessoas evitam usar um quipá ou roupas com inscrições em hebraico em locais públicos. Ou quando creches e jardins de infância instalados em sinagogas precisam de segurança armada para proteger crianças que sequer sabem onde fica Gaza ou quem é o primeiro-ministro de Israel.
Isso não é antissionismo.
O antissionismo dirige-se a um Estado.
O antissemitismo escolhe um povo.
O princípio que deveria orientar qualquer sociedade democrática é simples. Ninguém responsabiliza bilhões de cristãos pelos crimes cometidos ao longo da história em nome do cristianismo. Da mesma forma, seria profundamente injusto hostilizar muçulmanos comuns pelos atentados praticados por organizações terroristas que afirmam agir em nome do Islã. Também não faz sentido responsabilizar judeus que vivem em Nova York, Paris, Buenos Aires ou São Paulo pelas decisões tomadas pelo governo de Israel. A culpa coletiva nunca foi um princípio da justiça. Sempre foi um instrumento da intolerância.
Isso não significa afirmar que estamos vivendo um novo Holocausto. A História nunca se repete dessa forma. Os acontecimentos mudam. As circunstâncias mudam. Os protagonistas mudam.
O que merece nossa atenção são os mecanismos.
As grandes tragédias não começam quando o horror se torna visível. Começam quando a desumanização ainda parece aceitável. Começam quando um discurso de ódio é tratado apenas como opinião, quando um boicote parece apenas uma forma legítima de protesto, quando um ato de vandalismo é visto como um excesso isolado e quando a neutralidade se apresenta como prudência, embora muitas vezes seja apenas uma forma confortável de omissão.
Talvez a maior lição da História seja esta: nenhuma grande tragédia humanitária começou grande. Todas começaram pequenas. Pequenas o suficiente para serem ignoradas. Pequenas o suficiente para parecerem justificáveis. Pequenas o suficiente para que pessoas honestas concluíssem que ainda não era o momento de se preocupar.
A História nunca nos perguntará se fomos capazes de reconhecer Auschwitz.
Perguntará se fomos capazes de reconhecer os seus primeiros sinais, quando ainda acreditávamos que não poderiam levar a lugar algum.