Projeto de Poder ou Projeto de Nação?

A diferença entre disputar o comando do presente e construir o país que sobreviverá aos governantes de hoje.

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A política moderna tornou-se obcecada pelo curto prazo. Governos contam dias, partidos contam votos, analistas acompanham cada oscilação das pesquisas e cidadãos observam, quase em tempo real, as mudanças de humor do eleitorado. Nunca tivemos acesso a tantas informações sobre a próxima eleição. Talvez por isso dediquemos tão pouco tempo a discutir o próximo país.

A pergunta que domina o debate público é quase sempre a mesma: quem governará amanhã?

Muito mais rara é a pergunta que realmente define o destino de uma sociedade: que país existirá depois de amanhã?

A diferença entre essas duas perguntas corresponde, em grande medida, à diferença entre um projeto de poder e um projeto de nação.

Ao longo da história, as sociedades que deixaram marcas duradouras foram capazes de realizar obras que transcendiam a vida daqueles que as iniciavam. As grandes catedrais europeias levaram décadas, às vezes séculos, para serem concluídas. Universidades atravessaram gerações. Sistemas de irrigação transformaram regiões inteiras. Instituições sobreviveram a guerras, crises econômicas e mudanças de regime.

Nada disso foi construído por pessoas preocupadas exclusivamente com o próximo ciclo político. Todas essas realizações exigiram uma capacidade rara: pensar em horizontes maiores do que a própria existência.

Essa é, talvez, uma das características mais extraordinárias da experiência humana. Embora nossa vida seja limitada, somos capazes de agir em nome de um futuro que não nos pertence inteiramente. Somos capazes de construir algo cuja plenitude será usufruída por pessoas que jamais conheceremos.

É justamente essa relação com o tempo que distingue um projeto de nação de um projeto de poder.

Não há nada de ilegítimo na busca pelo poder. Em uma democracia, ele é o instrumento por meio do qual ideias são transformadas em decisões, políticas públicas e ações concretas. O problema surge quando o instrumento se converte em finalidade. Quando a conquista e a manutenção do poder passam a ser o objetivo principal, o horizonte político começa a encolher.

As prioridades passam a ser definidas pela urgência eleitoral. A próxima pesquisa torna-se mais importante que a próxima geração de estudantes. A inauguração que produz manchetes recebe mais atenção do que a reforma cujo resultado só aparecerá décadas depois. O debate concentra-se em quem ocupará determinadas posições, enquanto questões fundamentais sobre o futuro da sociedade permanecem sem resposta.

Pouco a pouco, o país passa a viver prisioneiro do presente.

Não porque lhe faltem desafios urgentes. Toda sociedade possui problemas que exigem respostas imediatas. O risco está em permitir que a urgência se torne o único critério de decisão. Quando isso acontece, a política perde a capacidade de pensar historicamente.

Um projeto de nação exige exatamente o contrário. Exige a disposição de olhar além dos mandatos, das pesquisas e das disputas momentâneas. Exige investimentos cujos resultados talvez não sejam visíveis durante um governo. Exige fortalecer instituições que continuarão existindo quando os atuais dirigentes tiverem deixado a vida pública. Exige compreender que educação, ciência, tecnologia, infraestrutura e cultura são construções lentas, incompatíveis com a ansiedade dos ciclos eleitorais.

Sobretudo, exige a capacidade de estabelecer alguns consensos fundamentais que sobrevivam à alternância de poder.

As democracias mais bem-sucedidas não são aquelas onde desaparecem os conflitos políticos. Divergências são inevitáveis e desejáveis em sociedades livres. O que as distingue é a existência de objetivos comuns suficientemente importantes para permanecerem de pé mesmo quando mudam os governos.

Os partidos competem. As ideologias disputam espaço. As lideranças se sucedem. Mas certos compromissos continuam orientando a trajetória nacional.

Quando esse consenso desaparece, algo curioso acontece. A política torna-se mais intensa e, ao mesmo tempo, menos capaz de produzir futuro. O debate público fica mais ruidoso. As disputas tornam-se mais agressivas. A energia coletiva é consumida por conflitos permanentes em torno do controle do Estado. Discute-se incessantemente quem exercerá o poder, mas cada vez menos para onde a sociedade pretende seguir.

Talvez essa seja uma das fragilidades mais visíveis do nosso tempo. Nunca se falou tanto sobre política e talvez nunca se tenha refletido tão pouco sobre o significado de construir uma nação.

Afinal, uma sociedade sabe distinguir um projeto de poder de um projeto de nação quando consegue responder a uma pergunta simples: o que continuará existindo depois que todos os atuais protagonistas desaparecerem?

A história raramente se lembra daqueles que venceram disputas internas de poder. Poucos são capazes de citar os nomes dos governantes, ministros ou líderes partidários que dominaram o debate público de séculos passados. Em compensação, continuamos vivendo em cidades que ajudaram a construir, estudando em universidades que financiaram, utilizando instituições que fortaleceram — ou sofrendo as consequências daquelas que enfraqueceram.

Talvez esta seja a diferença fundamental entre um projeto de poder e um projeto de nação. O primeiro busca determinar quem ocupará o palco. O segundo preocupa-se com o teatro que permanecerá de pé quando todos os atores tiverem deixado a cena.

David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha na conclusão de dois novos livros — A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e As Dimensões do Silêncio e do Tempo — com lançamento previsto para 2026. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com.