Produto Paraguaio

Países não competem contra suas versões passadas. Competem por investimentos, empregos e oportunidades. E, nessa disputa, o Paraguai já não é o país que muitos brasileiros imaginam.

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Durante décadas, a expressão “produto paraguaio” ocupou um lugar especial no imaginário brasileiro. Não era exatamente um elogio. Quando alguém queria sugerir que algo era falso, pirata, de qualidade duvidosa ou simplesmente não inspirava confiança, bastava recorrer à velha frase: “Isso aí é paraguaio”. Era uma daquelas piadas nacionais que sobreviveram ao tempo, repetidas tantas vezes que acabaram se transformando em verdade cultural.

O problema é que o Paraguai resolveu não colaborar com a caricatura.

Enquanto muitos brasileiros ainda associam o país vizinho às antigas excursões de compras para Ciudad del Este, empresários brasileiros atravessam a fronteira em sentido contrário. Não vão atrás de relógios, perfumes ou eletrônicos. Vão abrir fábricas. Vão investir. Vão produzir. Em alguns casos, vão transferir para lá operações que antes funcionavam em território brasileiro.

A ironia é irresistível. Talvez o verdadeiro “produto paraguaio” do século XXI seja a capacidade de atrair indústrias brasileiras.

Durante muito tempo, o Paraguai foi visto como uma economia periférica, dependente da agricultura, da pecuária, da energia hidrelétrica e do comércio de fronteira. Nada disso desapareceu. O agronegócio continua sendo um dos pilares da economia nacional. O que mudou foi a capacidade do país de construir novas vantagens competitivas. Sem grandes discursos, sem promessas grandiosas e sem ocupar diariamente as manchetes internacionais, o país começou a fazer algo que muitos tentam e poucos conseguem: tornar-se atraente para o capital produtivo.

Grande parte dessa transformação está associada ao regime de maquila, criado para atrair empresas voltadas à exportação. O mecanismo é simples. Máquinas, equipamentos e matérias-primas podem entrar no país com benefícios tributários para serem transformados em produtos destinados aos mercados internacionais. Em vez de uma complexa teia de impostos, as empresas operam sob um sistema extremamente simplificado. O resultado é que centenas de indústrias passaram a operar no país, muitas delas brasileiras, produzindo desde autopeças até vestuário, passando por plásticos, alimentos e componentes eletrônicos.

Naturalmente, empresários não mudam suas fábricas por sentimentalismo. Mudam porque fazem contas. E as contas frequentemente favorecem o país vizinho. Energia abundante e barata, carga tributária reduzida, menor burocracia, custos trabalhistas inferiores e maior previsibilidade regulatória criam uma combinação difícil de ignorar. Para muitas empresas, a diferença não é marginal. É suficientemente relevante para alterar decisões de investimento que envolvem milhões de dólares e milhares de empregos.

O contraste se torna ainda mais evidente quando observamos a questão tributária. O sistema brasileiro é tão complexo que se tornou parte do folclore econômico nacional. Existem empresas que mantêm departamentos inteiros apenas para interpretar normas tributárias. Existem especialistas cuja carreira consiste em explicar regras que outros especialistas escreveram para explicar regras anteriores. O Paraguai, por sua vez, adotou um modelo muito mais simples, frequentemente resumido na fórmula do “triplo 10”: 10% de imposto sobre valor agregado, 10% de imposto corporativo e 10% de imposto de renda pessoal.

É claro que desenvolvimento econômico não se resume a impostos. Nenhum país prospera apenas porque cobra menos tributos. Mas simplicidade tem valor. Previsibilidade tem valor. Segurança jurídica tem valor. E investidores costumam recompensar países que entendem isso.

Os números ajudam a explicar por quê. Nos últimos anos, o Paraguai apresentou crescimento econômico consistente, inflação relativamente controlada, níveis moderados de endividamento público e estabilidade macroeconômica superior à de muitos vizinhos. Recentemente, conquistou o grau de investimento concedido por importantes agências internacionais de classificação de risco, um reconhecimento que funciona como um selo de confiança para investidores globais. Não é um detalhe simbólico. É um sinal de que o país passou a ser percebido como um ambiente de negócios mais seguro e previsível.

Nada disso significa que o Paraguai tenha resolvido seus problemas. Não resolveu. Ainda enfrenta desafios relevantes em infraestrutura, educação, qualificação profissional e combate à corrupção. Mas talvez a pergunta correta não seja se o país se tornou perfeito. A pergunta correta é outra: por que um número crescente de empresários acredita que vale a pena investir lá?

A resposta nos leva inevitavelmente a uma reflexão menos confortável sobre o Brasil.

Existe entre nós uma tendência curiosa de avaliar nosso desempenho olhando apenas para o espelho retrovisor. O desemprego caiu em relação ao ano anterior. A renda aumentou em relação ao ano anterior. A inflação melhorou em relação ao ano anterior. Tudo isso pode ser verdadeiro. E tudo isso pode ser positivo.

Mas países não competem contra suas versões passadas.

Uma empresa que precisa decidir onde construir sua próxima fábrica não compara o Brasil de hoje com o Brasil de cinco anos atrás. Ela compara o Brasil com o Paraguai. Com o México. Com o Vietnã. Com a Indonésia. Com qualquer país que esteja disputando os mesmos investimentos, os mesmos empregos e as mesmas oportunidades.

É nesse momento que o debate econômico deixa de ser ideológico e passa a ser prático. O capital não se muda para outro país porque gosta mais de uma bandeira do que de outra. Ele se move porque encontra condições mais favoráveis para operar. Quando fábricas brasileiras cruzam a fronteira, não estão fazendo uma declaração política. Estão fazendo uma conta.

Talvez por isso essa história seja tão interessante. Não porque o Paraguai tenha encontrado uma fórmula mágica. Não porque tenha resolvido todos os seus problemas. Mas porque demonstra que tamanho não é destino, que recursos naturais não garantem prosperidade e que competitividade não nasce de discursos. Ela nasce de instituições, incentivos, previsibilidade e escolhas.

Durante décadas, os brasileiros olharam para o país vizinho com uma mistura de condescendência e humor. Talvez tenha chegado a hora de substituir a piada pela curiosidade.

Porque o mundo mudou.

O “produto paraguaio” já não significa aquilo que significava quando a expressão nasceu. A velha caricatura continua viva em nossas conversas, mas cada vez menos na realidade econômica. Enquanto seguimos discutindo se estamos melhores do que ontem, outros países parecem mais interessados em uma pergunta diferente: como estarão amanhã?

É uma pergunta que nossos vizinhos começaram a responder. Talvez o Brasil também devesse.

David Gertner, Ph.D. é escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University e professor universitário aposentado, escreve sobre democracia, economia, identidade, tecnologia e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David e tem dois novos livros previstos para 2026: A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e As Dimensões do Silêncio e do Tempo. Mais informações em www.davidgertner.com.

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