Pedro Rogério Moreira

O homem que sabia rir

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O registro da passagem do centenário do político Jarbas Passarinho, feito oportunamente pela Coluna Cláudio Humberto na semana passada, levou-me à lembrança de um impiedoso esquecimento nacional: os cem anos de nascimento de quem Passarinho foi ministro: o general João Baptista de Oliveira Figueiredo. O centenário do “João sem medo” transcorreu silenciosamente a 15 de janeiro de 2018. Portanto, no dia de hoje, estaria completando 102 anos de idade o estadista que assinou o decreto de anistia aos envolvidos em crimes de subversão à extrema-esquerda e à extrema-direita após o golpe de 1964. Deixamos passar em brancas nuvens o centenário. No dia em que deveríamos fazê-lo, toda a imprensa se ocupava da epidemia de febre amarela e da controvertida nomeação de uma deputada para o Ministério do Trabalho… É a vida.  Pois ela é feita também de esquecimentos imperdoáveis. O próprio general Figueiredo, numa tarde de fingido mau-humor, no ocaso de seu governo (1979-85), instado pelos repórteres a dizer o que esperava de seus dias vindouros, pediu aos repórteres que o esquecessem. Eu era um deles. E tinha pelo presidente da República mais do que simpatia pela sua figura idiossincrática: tinha-lhe admiração, hoje transformada em amorosa recordação ao me penitenciar pelo esquecimento e dedicar-lhe este registro a destempo, mas sincero.

ACM com a Irmã Dulce e João Figueiredo – Foto: Memorial Irmã Dulce.

Figueiredo fez a declaração infeliz poucos dias antes de deixar o Palácio do Planalto pela porta dos fundos, para não cumprimentar o seu sucessor José Sarney. Foi um gesto mesquinho, e institucionalmente equivocado. Confronta com a generosidade política de quem assinou um ato de grandeza que abriu as portas do Brasil aos exilados políticos. Um infarto, e as consequências dele, como um certo desânimo político, somados a aborrecimentos de natureza doméstica e a um mandato longo demais corroeram o íntimo daquele ser genuinamente bom. No meu ofício de repórter junto à Presidência, via quase diariamente o homem turrão, de tromba, enfezado às vezes. Pura fachada. Seu humor tinha filiação britânica, em que a autogozação é essencial. Vou contar uma.

Num domingo de Fla-Flu, ele, pó-de-arroz doente, aceitou uma leviana aposta de seu ajudante-de-ordens major Dourado. Se perdesse, teria de se apresentar com a camisa rubro-negra na primeira audiência de segunda-feira. Putz! Foi dois a um para o Flamengo. Exagerado, Figueiredo levou a sério: a palavra vale mais. Vestiu a camisa do Flamengo. Na ante-sala, o major Dourado avisou enigmaticamente ao deputado João Carlos De Carli:
– Não ria nem provoque o chefe.
E abriu a porta do gabinete. Ainda bem que o deputado e o presidente eram amigos.
Dedo em riste, o tricolor esbravejou:
– Se rir de mim, te meto a mão na cara!

O leitor poderá argumentar: está bem, o presidente Figueiredo era boa praça. Mas, e o Governo, como é que fica?

Ora, isso é besteira. Para consertar o eventual estrago que tipos psicológicos como João Figueiredo podem causar ao País, nós elegeremos depois presidentes batutas como o que temos hoje.

O que vale mesmo na vida política é a dimensão humana. Só esta redime o governante das misérias que comete contra o povo. A dimensão humana vale mais que uma hidrelétrica, mais que uma rodovia. O humanismo de Juscelino foi tão vital para o Brasil quanto a sua capacidade de realizações materiais.

Figueiredo brinca com a menina que não o cumprimenta – Foto: Guinaldo Nicolaievsky.

Dizem que João Figueiredo, como JK, gostava de namorar. Os repórteres sabíamos com quem, onde e quando; mas a vida pessoal não pertence ao público, como entende agora a grande imprensa. Namorar é cousa muito recomendável aos governantes. O Barão de Itararé dizia: antes namorem muito lá em cima para não nos fornicarem aqui embaixo.

Na Presidência da República, João Figueiredo agiu com honradez, e viveu o resto dos seus anos com o soldo de militar e a pensão de ex-presidente. A família enfrentou apertos financeiras na hora da doença.

João Figueiredo morreu na véspera do Natal de 1999 e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier, no Rio. Minha mulher ralhou comigo por não ter deixado de lado o almoço em família e tomado um avião para prestar homenagem a quem me distinguiu durante os anos em que fiz a cobertura jornalística de seu período no Palácio do Planalto. Por que me distinguia? Não sei. O que sei, e o Brasil sabe, é que Figueiredo brigara com o meu patrão, Roberto Marinho. Foram amigos sinceros. Desconheço a gota dágua, mas vivi alguns momentos do desacordo, e o bode expiatório foi o notável dramaturgo Dias Gomes. Dona Dulce Figueiredo inculcou na cabeça quente do marido o fato discutível de que o seriado da Globo O bem amado estava caricaturando o casal presidencial. Figueiredo havia feito uma viagem ao exterior, com extensa comitiva que só coube num DC-10 da Varig. Dias Gomes aproveitou a ensancha oportunosa e fez o prefeito Odorico Paraguacu fretar um aviãozinho da Líder para ir a Miami, acho que para conhecer o cemitério de lá, uma beleza. E levou as irmãs Cajazeiras e os líderes municipais. Mas essa paródia não foi o motivo. O personagem vivido pelo impagável Paulo Gracindo convidou de contrapeso uma vistosa loura que desejava conquistar-lhe o coração. Ela foi a culpada. O penteado lembrava o de Dona Dulce, aprumado com laquê. Há semanas a primeira-dama já estava se queixando aos ouvidos do marido. Mas ele não se importava, nem mesmo tinha espírito para ver televisão. No máximo, Jornal Nacional. Na noite daquele capítulo, o João estava na sauna, distante da residência presidencial da Granja do Torto. Da porta da casa, ela gritou:

– João, ô João! Corre aqui para ver como a Globo está nos pintando!

O presidente não se abalou da sauna. Mandou seu ajudante-de-ordens major Dourado ver o que se passava na casa. Ele voltou e repetiu ao chefe o que Dona Dulce achava ter visto nas cenas: ela como a loura de laquê e o João como o Odorico. João não deu a mínima. Quando, finalmente, o marido entrou em casa, feliz com a sauna reparadora e na alegria de um churrasco, Dona Dulce insistiu com tamanha repulsa, que o estadista da anistia encarnou no enfoguetado capitão de Cavalaria que ele nunca deixou de ser. O João Sem Medo (batizou-o a revista Manchete) foi dormir desgastado, aborrecido. Muito mais com a reação da esposa, ferida em seus sentimentos, do que propriamente com o que ela assistira na tv. A reação de Dona Dulce foi humana e compreensível, mas esqueceu de sua condição de primeira-dama. Os sábios que filosofavam para os príncipes da Renascença já os alertavam que não dessem ouvidos à família nas questões de estado.

O então presidente Figueiredo e dona Dulce – Foto: Orlando Brito.

Na manhã seguinte, o presidente queixou-se ao seu chefe do Gabinete Civil, Leitão de Abreu. Disse que “aguentava tudo na Presidência, até a felonia de amigos”, mas “não aguentava mais” a turbulência na atmosfera familiar. E pediu ao ministro que desse uma palavra com Roberto Marinho, com quem o presidente já não falava. O ministro Leitão, um homem reto, ouviu a única resposta que o interlocutor, outro homem reto, um verdadeiro jornalista, poderia dar num caso igual:

– Doutor Leitão, eu não posso interferir no trabalho do Dias Gomes. Ele é um criador, e como tal tenho de assegurar-lhe a liberdade de escrever.

Talvez esta não tenha sido a resposta ipsis verbis do célebre homem da comunicação brasileira, pois, assim como está escrita, pode parecer desafiadora  à autoridade moral do ministro Leitão, contra quem ninguém jamais ofenderia a lisura, a correção, a honestidade pessoal e de propósitos. Ainda mais o doutor Roberto Marinho, sempre respeitoso seja no trato com autoridades seja no trato com o comum dos mortais. Mas foi algo como escrevi, sussurrada naquela tonalidade pausada característica de Roberto Marinho.

A cena da sauna me foi relatada pelo próprio João Figueiredo, após deixar a Presidência, num encontro na residência do empresário Georges Gazalle, no Rio; a conversa com Roberto Marinho me foi contada pelo próprio ministro Leitão de Abreu, muito tempo após ocorrida, mas ainda ele na Casa Civil.

A inimizade entre o presidente da República e o mais poderoso homem da imprensa brasileira jamais interferiu no meu trabalho como repórter responsável pela cobertura jornalística no Palácio do Planalto. A TV Globo jamais instruiu o seu repórter em qualquer direção. As atividades presidenciais foram noticiadas pelos telejornais, sempre com o destaque que elas mereciam, até o último dia do mandato de João Figueiredo. E a despeito até de atos inomináveis que áulicos do Governo intentaram contra Roberto Marinho, como lacrar os transmissores da Globo e macular a sua conduta na Alfândega do Galeão. Tudo isso ocorreu sem o consentimento do presidente da República, me diria Figueiredo anos depois.

E o general continuou a me distinguir. Num dia, em São Paulo, em que bobeei demais no almoço e perdi uma entrevista de ocasião, na porta do consultório onde Figueiredo se tratava da coluna, enviei-lhe um SOS pelo seu ajudante-de-ordens, major Marcon. Sabedor de que o repórter com o qual simpatizava se encontrava em situação de inferioridade diante dos demais colegas, o presidente saiu de seus cuidados na suíte do hotel, convocou-me ao seu andar e diante da câmera repetiu para mim o que dissera para os colegas. De outra feita, na Clínica São José, no Rio, deixou-me subir ao quarto onde se recuperava de uma cirurgia na coluna. Nem mesmo ministro de estado teve esta oportunidade. Fui o único repórter a vê-lo de pijama na cama e conversar sobre a cirurgia. Esse era o João Figueiredo verdadeiro, e não aquele que muitos pintam um homem de mal com o mundo. Mas ele gostava de mostrar sua cultura de cavalariça, em vez de mostrar as suas altas qualidades que o fizeram “tríplice coroado”, a mais importante distinção acadêmica do oficialato do Exército Brasileiro. Era assim o general Figueiredo: impiedoso com ele mesmo. Não perdia a oportunidade de se autoflagelar. Daí, talvez, a explicação para o fato de jamais ter movido uma palha para reconstituir sua verdadeira identidade nos anos pós-Presidência.

Ele fazia o gênero, para chocar os incautos, despistar os adversários e afastar os chatos. Nisso deve ter feito o aprendizado com seu irmão escritor, o dramaturgo Guilherme Figueiredo, autor de um engraçadíssimo Tratado geral dos chatos… Mas até os manos chegaram a brigar.

A ecologia de João Figueiredo, na verdade, nunca foi a da cavalariça, como ele mesmo afirmou em outro momento infeliz. Puxou ao pai, o coronel Euclydes de Oliveira Figueiredo, que se recusou a cumprimentar, numa solenidade militar, o presidente Getúlio Vargas. E por estas e outras amargou o exílio em Buenos Aires, onde o rapazola João Baptista viveu alguns meses e aprendeu a torcer para o San Lorenzo de Almagro. Aprendeu também a verdade contida no tango Cambalache. Numa viagem àquela capital, o presidente foi rever o cenário do tempo de exilado. Estávamos no Café El Molino, em cujos altos situava-se a residência onde moraram os Figueiredo. Entre um cafezinho e um cigarro (foi antes do infarto), ele foi ler o papel que lhe passei às mãos. Era a letra do tango famoso de Discepolo. Tão logo viu do que se tratava, devolveu-me o papelucho (um recuerdo do Café Unión aos turistas) e disse:

– Mais do que qualquer outra música, Cambalache resume bem o espírito do século que vivemos – e recitou a letra por inteiro, primeiramente num castelhano perfeito (disse um argentino na roda) e em seguida fez uma tradução livre para o entendimento do ignorante repórter.

Figueiredo em carro aberto com Aureliano, Venturini e Golbery – Foto: Senado.

Presumo ter encontrado nesse dia uma pista para decifrar João Figueiredo, pois aprendi: “O mundo sempre foi e será uma porcaria, todos sabemos, mas nada iguala ao que é no século vinte, pleno de maldades e insolências; quem não chora não mama, que não afana é um otário; todos são iguais, até mesmo um burro se parece com um grande professor” etc etc. “Que falta de respeito! Que atropelo à razão!”

Durante o processo sofrido de sua sucessão, um dia entramos em seu gabinete para filmar uma audiência da interminável série em que ele consultava o seu partido, PDS, sobre o rumo a tomar (ou Andreazza ou Maluf). Ao sairmos, fez-me um sinal de espera. Disse-me ao ouvido:

– Você ainda guarda aquele papelucho do Cambalache? Pois é a trilha sonora do meu gabinete há meses. Eles entram, dizem que vão apoiar o candidato que eu indicar, e depois me dão a facada. “El que no llora non mama, y el que no afana es um gil”, compreende?

No final de seu mandato, indo ao seu gabinete para despedir-me e receber dele a foto que o Roberto Stuckart havia tirado dias antes na Barra da Tijuca, um abraço apertado, e que hoje orna a biblioteca aqui de casa, perguntei-lhe do que sentiria falta ao voltar para a planície. Não era uma entrevista, era uma conversa particular. Os repórteres de hoje são proibidos de tê-las com autoridades, segundo o manual do politicamente correto da grande imprensa brasileira. João Figueiredo me respondeu que iria sentir falta do prazer de admirar os ipês amarelos que florescem no Eixão Norte nos meses de agosto. Eles encantavam o caminho do Galaxie presidencial de segunda a sexta, da Granja do Torto para o Palácio do Planalto. Uma vez o chefe da segurança, num agosto qualquer, disse-lhe que deviam mudar a rota de vez em quando, tomando a avenida da L2 Norte. O presidente vetou. Os ipês amarelos têm preferência sobre qualquer atirador.

Sei que, para alguns ou para muitos, não adianta eu dar esta demão de tinta vivaz no espírito do general. A imprensa brasileira, tão idiossincrática quanto o general, escondeu o estadista da anistia atrás da cocheira dos cavalos que ele tanto amava.

O repórter em ação, no Palácio do Planalto.

É claro que, escrevendo hoje sobre fatos de tantos anos atrás, o ex-repórter pode transmitir uma visão edulcorada daquele tempo. Mas também – que diacho! – se você não enfeitar o mundo com um ipê amarelo, a vida fica sendo mesmo uma imensa porqueria, como propala o tango Cambalache e o João Baptista de Oliveira Figueiredo, grande figura humana, fingia acreditar… Estava rindo de todos nós.

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