O Estado Refém

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A nova captura do Estado por grupos econômicos ultrapassa o conceito clássico de corrupção e vai ao encontro a sofisticadas redes de influência, que conectam sistema financeiro, setores da burocracia estatal, inteligência institucional e poder político. O acesso ao Estado deixa de ser público e legal e passa a ser patrimonial.

Durante décadas, o imaginário nacional associou corrupção a malotes de dinheiro, às vezes na cueca, aos contratos ilícitos, subornos e cartéis. Neste ano eleitoral de 2026, acompanhamos os desdobramentos do escândalo financeiro do Banco Master, que sofisticou os mecanismos de captura institucional.

A relação entre poder político e poder econômico é de interdependência e influência mútua e sempre ocupou posição no debate público e jurídico, especialmente nas democracias constitucionais e no sistema capitalista. O problema começa quando influência – que deve ser exercida sob a luz do debate público, dentro das regras e sob fiscalização – se transforma em captura, para não dizer roubo.

E não falamos de qualquer roubo, pois esse crime contra a democracia não usa armas – ele usa acesso, roupas de grife e caríssimos uísques. O crime contra a democracia é praticado também por aqueles que dizem defendê-la. E quando agentes políticos se infectam e deslumbram com um poder econômico podre, de acesso, privilégios, cartões sem limites e festas promíscuas, a democracia começa lentamente a perder sua capacidade de autocorreção.

O risco para o Brasil é profundo.

E talvez seja justamente isso que torna operações como a Compliance Zero tão sensíveis politicamente. O próprio nome da operação, carrega um simbolismo poderoso sobre os tempos atuais e me levou a lembrar de uma expressão conhecida no ambiente corporativo como “greenwashing”, que descreve empresas que vendem uma falsa imagem de responsabilidade ambiental. A minha mente criativa trouxe essa referência para o “moneywashing”, que representaria a construção artificial de uma aparência de solidez ética e financeira, mas que segue naufragando.

Há pedidos para a criação da ‘CPI do Master’ em meio a mensagens vazadas e guerras de narrativas. Mas há também o temor daquela máxima de que “tudo acaba em pizza”, ou dessa vez já há quem considere que pode acabar em pipoca no cinema?

A linha tênue e putrificada entre um banco e as estruturas de Brasília, são separadas “apenas” por quanto negociam, quem exige a propina e quem a fornece para obter privilégios e sustentar interesses e favores, buscando direcionar órgãos de controle, setores estratégicos da máquina pública e até estruturas policiais.

O poder econômico deixa de influenciar o Estado e passa a fazê-lo de refém.

Lenny Leone é jornalista, apresentadora e bacharel em Direito.

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