Marcos Azambuja e seus muitos tons de amarelo

E milhões de tons de uma vida profissional impecável

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Em dezembro de 1986,  estando eu servindo sozinho na CG Assunção, já há meses, Paulo Tarso determinou que me chamassem a serviço a Brasília para montar o primeiro pacote de remoções com base nos critérios do novo Regulamento de Pessoal, aprovado pelo Decreto no 93.325, de 1 de outubro de 1986. Ali se institucionalizou a divisão dos Postos em grupos A,B e C, com base no grau de representatividade da missão e as condições específicas de vida na sede, para fins de movimentação de pessoal entre estes e a SERE.

Deparei-me com um quebra-cabeça. Trabalho insano. O Chefe do Departamento do Pessoal era o Paulo Monteiro Lima e o  Marcos Azambuja era o SGAD. Acho que o Américo Fontenele era Chefe da DP.

Embaixador Marcos Azambuja.

Trabalho insano, repito. Deram-me uma sala. E o auxilio luxuoso do “Chicão do B”, o Francisco Chagas. Adorei tê-lo como companheiro de trabalho. Excelente humor. Ríamos muito, entre momentos de angustia e dúvidas. Foram feitas consultas aos diplomatas com oferecimento de alternativas de postos. Mandamos dezenas de consultas, acho que por telegramas particulares.

Aproveitei para ajudar amigos. Talvez tenha ganho algumas inimizades.

Trabalho avançando e o Natal chegando. Eu queria cumprir logo a espinhosa missão e voltar a Assunção e passar o Natal em família.

Um dia ficou pronto o calhamaço. Fui com Fontenele mostrar ao Paulo Lima, que elogiou o trabalho. E não fez mais que sua obrigação. Falei que, assim sendo, queria voltar pra casa. Ele disse que levasse ao Marcos na SGAD. Este, com sua habitual verve, escorregadio, conseguia sempre se me escapar. Inventava o diabo para não despachar. Não era, decerto, a praia dele.

E o Natal chegando.

Cinquenta tons de amarelo.

Um dia encurralei-o. Ele disse que sim, que íamos despachar. Mas, antes, ele queria me mostrar uma coisa.

Descemos ao térreo, naquele espaço entre o Palácio e o prédio administrativo. Ali apontou-me as lâminas pintadas de amarelo que ornavam (e ornam) a fachada. E disparou, orgulhoso:

– Você não acha que este tom de amarelo é muito mais bonito? Pois, e você deve saber, fui eu que mandei trocar. Por alguma razão me lembrou Versailles, disse.

Concordei, ato contínuo, embora nem tenha reparado no ineditismo do tom do amarelo. Nem sabia como Versailles o teria inspirado.

Seja como for, subimos de volta ao seu gabinete, alí naquele final do corredor do segundo andar. Já tinha gente querendo falar com ele, mas deu instruções rápidas à Secretária, nos sentamos naquela longa mesa de trabalho, alí, à direita de quem entra no seu gabinete. Ele pediu cafés pra nós dois. Deu umas folheadas na papelada. Me olhou com aquela expressão resignada e meio marota de Marcos Azambuja, me felicitou, disse que ia falar com Paulo Tarso. E me desejou um Feliz Natal e regresso ao posto.
Até hoje fico pensando naquele tom de amarelo das placas da fachada do bloco administrativo.

Hoje, deixando aqui embaixo uma legião de discípulos e admiradores, a começar de hoje Marcos estará cercada de anjos, esses seres espirituais, mensageiros e intermediários entre Deus e a humanidade, que desempenham papéis de proteção e auxílio. E no permanente pensamento e na alma de todos nós.

Dante Coelho de Lima é diplomata.

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