From Russia with love

Vodka Martini ou o espião que veio do frio (e derramou-se deliciosamente na minha taça)

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Já é consenso que a influência do gim no Martini começou a diminuir na década de 1960, com a vodka tomando seu lugar. O processo foi efetivamente impulsionado por campanhas publicitárias muito eficazes da Smirnoff e de outras marcas. Mas, como muitas ofensivas russas do passado, essa campanha foi, na verdade, lenta e deliberada, tendo começado muito tempo antes.
Já em 1935, com a Lei Seca ainda bem recente na memória americana, a vodka Smirnoff — em anúncios publicados em vários jornais dos EUA — recomendava aos leitores que experimentassem um Martini de vodka, feito com três partes de vodka, uma parte de vermute e “bitters” de laranja. Poucos anos depois, um folheto promocional da Smirnoff divulgava a mesma ideia.
Na década de 1940, até a rede Walgreen’s vendia o produto; seus anúncios proclamavam aos quatro ventos: “Experimente a Vodka! A sensação do momento! Sem cheiro nem gosto quando misturada. Ideal para Vodka-Martini”.
Assim como a Walgreen’s, a vodka Samovar — outra marca popular na época — sabia exatamente por que aquele elixir exótico poderia atrair os americanos. E isso não tinha nada a ver com o sabor. Na verdade, os produtores praticamente se gabavam de que sua vodka não tinha gosto de nada. “Graças ao seu sabor suave e neutro, a Vodka Samovar é perfeita para misturar em muitos dos seus drinques favoritos”, explicava um anúncio útil de 1946. A Smirnoff foi um pouco mais sutil e poética ao abordar o assunto, com seu famoso slogan da década de 1950: “Ela deixa você sem fôlego”.
Nos anos 1950, os colunistas já haviam embarcado na tendência. “A nova moda de coquetéis da alta sociedade é o martini de vodka com azeitonas pretas”, escreveu Dorothy Kilgallen, colunista de grande circulação. (A moda da azeitona preta, felizmente, não pegou.) O rival de Kilgallen, o colunista Walter Winchell, noticiou: “A Smirnoff vai promover intensamente, de costa a costa — em revistas e jornais —, o termo criado nesta coluna: o Vodkatini”. Tempos depois, ele utilizou bastante o termo “Vodkatini”, seja na tentativa de popularizar uma expressão — hábito comum de Winchell — ou para honrar algum acordo de bastidores com a Smirnoff.
Na Inglaterra, os martínis de vodca carregavam uma conotação adicional. A Associated Press noticiou que “existe em Londres uma associação dedicada a James Bond, onde jovens se reúnem para beber “vodkatinis” — martínis de vodca — imitando seu herói”.
Seja como for, nos meus quilômetros ou nas minhas milhas rodadas em balcões de baresdo mundo (como disse a colunista do Globo) acabei aprendendo a apreciar o “vodkatini” ao meu jeito, 4 x 1, duas azeitonas verdes e um twist de limão. Stirred or shaken.
Saúde!

Dante Coelho de Lima é diplomata.