Dívida não mata empresa. Decisão tardia, sim

acessibilidade:

Trabalho como advogado e como administrador judicial em processos de Recuperação Judicial e Falência. Quando as pessoas descobrem o que faço, a reação é sempre a mesma. Um leve recuo. Como se eu fosse médico de UTI. Útil, mas você torce para nunca precisar.

Esse recuo me diz mais sobre o problema do que qualquer diagnóstico financeiro.

O produtor rural que espera até não ter mais saída não esperou por falta de informação. Esperou por vergonha. Por orgulho. Por uma relação com a terra que vai muito além do balanço patrimonial. A fazenda carrega o nome da família há gerações. Admitir dificuldade parece trair um legado.

Então ele renegocia informalmente. Vende ativo para pagar dívida de curto prazo. Coloca o patrimônio pessoal como garantia quando o negócio já não comporta mais garantia nenhuma. E quando finalmente chega até mim, o problema que poderia ter sido resolvido com 30% do esforço exige 100%. Ou não tem mais solução.

O agronegócio brasileiro enfrentou crises antes. 2012, 2015, 2020. O momento atual é diferente em natureza, não só em intensidade. Três forças acontecem ao mesmo tempo: juros elevados por tempo prolongado, com dívidas crescendo mais rápido que a receita; um nível de endividamento acumulado na última década de expansão, que agora vence num ambiente de margens comprimidas; e variabilidade climática que deixou de ser exceção para virar variável permanente de planejamento. Separadamente, cada uma dessas forças já seria um problema sério. Juntas, criam uma combinação que o setor não experimentou nessa escala antes.

Nesse contexto, a diferença entre o produtor que atravessa a crise e o que é engolido por ela raramente está no tamanho da fazenda ou na qualidade do solo. Está em três atitudes.

A primeira é clareza financeira sem autoengano. O produtor conhece o preço da saca, o custo por hectare, a produtividade por talhão. Mas muitos não sabem, com precisão, o que um ano de juros elevados faz no fluxo de caixa. Operam com otimismo onde deveriam operar com número. Quem atravessa a crise olha para os dados crus e decide com base neles.

A segunda é velocidade. Na crise, a janela de negociação fecha rápido. O produtor que espera o preço da commodity se recuperar enquanto a dívida rola perde poder de barganha a cada mês que passa. Decisão com informação incompleta ainda é melhor do que esperar o cenário perfeito que não vai chegar.\

A terceira é a mais difícil: separar patrimônio de identidade. Vender uma área para preservar o negócio principal é uma decisão inteligente. Mas o produtor que confunde o tamanho da fazenda com o tamanho do seu valor como pessoa vai resistir a essa decisão até o ponto em que ela deixa de ser uma opção. Empresa viva vale mais do que orgulho intacto.

A recuperação judicial existe exatamente para os casos em que essas três atitudes não foram tomadas a tempo. É um instrumento jurídico com prazo, plano e proteção legal, desenhado para dar ao empresário viável uma segunda chance organizada. Não é falência. Não é o fim do negócio. No primeiro dia de deferimento, as execuções são suspensas, a empresa recupera espaço para respirar e negociar com credores dentro de um processo supervisionado pelo juiz.

O problema é que a maioria chega lá tarde. Quando o passivo cresceu além da capacidade de negociação, quando os ativos disponíveis já foram consumidos tentando evitar o inevitável, quando a margem de manobra dentro do processo é muito menor do que seria se a decisão tivesse sido tomada seis meses antes.

Dívida não mata empresa. Decisão tardia mata.

O produtor rural brasileiro opera com tecnologia de ponta, em escala global, num ambiente de risco que poucos negócios conseguem comparar. Tem capacidade técnica e resiliência. O que falta, na maioria dos casos, é a disposição de olhar para a crise de frente antes que ela tome a decisão por ele.

Se o cenário financeiro está apertando, a pergunta certa não é se a situação vai melhorar sozinha. A pergunta é: quanto poder de decisão você ainda tem hoje, e o que você vai fazer com ele antes de perder.

Rafael Brasil é advogado especialista em Recuperação Judicial, e sócio no escritório Brasil e Silveira Advogados.

Reportar Erro