A Retórica da Promessa e a Gramática da Desculpa

Entre a campanha e o governo, muda o vocabulário: a promessa vira explicação, mas a culpa continua sempre em outro lugar.

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Há uma pequena pedagogia da decepção em certos cardápios.

A fotografia promete um pão dourado, coberto de sementes de gergelim distribuídas com a precisão de um discurso bem ensaiado. A carne aparece alta, suculenta, reluzente, como se tivesse acabado de sair não de uma chapa, mas de uma campanha publicitária sobre a felicidade. As folhas da salada exibem uma frescura quase cívica. Os tomates brilham em vermelho intenso. Os vegetais parecem ter sido escolhidos por um comitê de estética. O molho escorre com a generosidade de uma promessa feita em palanque.

Então o prato chega.

O pão perdeu o brilho. As sementes de gergelim desapareceram no caminho entre a fotografia e a mesa. A carne encolheu. A salada parece cansada. O tomate já não tem a convicção cromática da imagem. O molho, antes abundante, tornou-se uma sugestão. Nada daquilo chega a ser necessariamente uma mentira completa. É apenas a velha distância entre o que foi preparado para convencer e o que foi entregue para ser consumido.

A campanha eleitoral é a fotografia do cardápio. O governo é o prato servido.

A fotografia não mostra a cozinha. Não mostra o funcionário que faltou, o fornecedor que atrasou, o custo dos ingredientes, a pressa da hora do almoço, o forno que não aquece direito, a gordura no chão, o gerente tentando explicar o inexplicável ao cliente impaciente. A imagem vende o prato; a cozinha conhece o custo.

A política também.

Durante a campanha, candidatos falam como fotógrafos de cardápio. Tudo é luz, abundância, frescor, solução. Os problemas parecem simples. As respostas cabem em frases curtas. Os obstáculos são sempre prova da incompetência, da má-fé ou da covardia dos adversários. Basta querer. Basta ter coragem. Basta trocar o governo. Basta acabar com os privilégios, cortar desperdícios, enfrentar interesses, ouvir o povo, fazer o óbvio.

Na campanha, o futuro vem com iluminação profissional.

Algo semelhante ocorre com certos empreendimentos imobiliários. Antes da entrega, vemos salas vastas, varandas luminosas, cozinhas generosas, quartos serenos, famílias felizes circulando por ambientes onde nunca há brinquedos espalhados, contas sobre a mesa ou infiltração no teto. Os programas de computador sabem criar espaços maiores do que a vida. Depois vêm as chaves. A sala encolhe, a varanda pede modéstia, a cozinha exige coordenação motora e o quarto já não comporta todos os sonhos do folder. A realidade, ao contrário da imagem de venda, tem medidas, paredes, limites e boletos.

A política aprendeu a operar nessa mesma distância entre imagem e entrega.

O candidato não administra a realidade; ele a edita. Escolhe o ângulo, retoca as imperfeições, amplia os espaços, intensifica as cores, esconde a cozinha, remove a gordura do chão, apaga os ruídos da obra, elimina as paredes estreitas, suspende as limitações orçamentárias e entrega ao eleitor uma imagem cuidadosamente preparada daquilo que poderia ser.

O problema começa quando a fotografia precisa virar refeição. Ou quando a maquete precisa virar moradia. Ou quando a promessa precisa virar governo.

No poder, a linguagem muda. O que antes era simples torna-se complexo. O que antes dependia apenas de vontade política passa a depender de orçamento, Congresso, Judiciário, burocracia, cenário internacional, herança recebida, correlação de forças, responsabilidade fiscal, guerra distante, mercado nervoso, imprensa injusta, oposição irresponsável ou conjuntura desfavorável.

A promessa, então, aprende a falar a língua da desculpa.

Antes, o candidato acusava o outro de não fazer porque não queria. Depois, no poder, explica que queria fazer, mas não pôde. Antes, dizia que faltava coragem. Depois, descobre que faltam recursos. Antes, denunciava a lentidão como prova de incompetência. Depois, chama a lentidão de prudência institucional. Antes, tratava limites como pretexto dos fracos. Depois, transforma os mesmos limites em álibi dos fortes.

Há uma gramática própria para cada fase.

A retórica da campanha é afirmativa, moral, acusatória e redentora. Divide o mundo entre os que impedem e os que libertarão. Entre os que destruíram e os que reconstruirão. Entre os que mentem e os que finalmente dirão a verdade. É uma linguagem de urgência, indignação e promessa. O candidato precisa convencer o eleitor de que a realidade atual é intolerável e de que a realidade futura será possível se ele receber o poder.

A retórica da administração é defensiva, técnica, gradual e justificadora. Já não promete a transformação imediata, mas a transição responsável. Já não fala tanto em ruptura, mas em governabilidade. Já não aponta apenas culpados morais, mas condicionantes estruturais. Já não diz simplesmente “faremos”, mas “estamos trabalhando”, “estamos estudando”, “estamos construindo as condições”, “estamos enfrentando desafios herdados”.

O curioso é que, apesar da mudança de tom, há uma continuidade perfeita: a responsabilidade continua morando em outro lugar.

Na campanha, a culpa é do governo anterior, do outro partido, das elites, dos radicais, dos moderados, dos corruptos, dos incompetentes, dos inimigos do povo, dos inimigos do mercado, dos inimigos da pátria, dos inimigos da justiça — conforme o público a ser seduzido.

No governo, a culpa permanece fora da sala. Está na herança maldita, na conjuntura global, no Congresso que não colabora, no Judiciário que interfere, na oposição que sabota, na imprensa que distorce, no mercado que reage, na pandemia, na guerra, na seca, na chuva, no câmbio, no petróleo, no passado, no futuro — em qualquer lugar, desde que não esteja no centro da mesa.

A única promessa plenamente cumprida é a de que a culpa continuará sendo de alguém.

Essa talvez seja uma das grandes doenças da linguagem pública contemporânea. A política deixou de ser apenas disputa de projetos e tornou-se também uma indústria de deslocamento de responsabilidade. Cada lado se especializou em denunciar a desculpa do outro e em sofisticar a própria. A oposição trata toda justificativa do governo como mentira. O governo trata toda cobrança da oposição como sabotagem. O eleitor, no meio, aprende a desconfiar de todos, mas continua sendo convidado a acreditar na próxima fotografia.

E assim seguimos, eleição após eleição, comprando hambúrgueres políticos pela imagem do cardápio e recebendo, meses depois, o sanduíche possível, menor, frio, acompanhado de uma longa explicação sobre por que as sementes de gergelim desapareceram.

Não se trata de negar que governar seja difícil. É difícil. Talvez seja muito mais difícil do que parece no palanque. A realidade tem custos, conflitos, limites, contradições e consequências. Nenhum país cabe inteiro em um slogan. Nenhuma sociedade complexa se reorganiza pela simples força da vontade. Nenhum orçamento obedece integralmente à poesia eleitoral. Nenhum governo escapa totalmente da pressão de fatos que não controla.

Mas exatamente por isso a campanha deveria fotografar com menos truques.

O problema não é que todo governo encontre obstáculos. O problema é que tantos candidatos fingem não saber que eles existem. O problema não é que a administração precise negociar com a realidade. O problema é que a campanha costuma tratar a realidade como se fosse apenas desculpa dos adversários. O problema não é que promessas precisem ser adaptadas. O problema é que muitas nascem já sabendo que dependerão, no futuro, de uma justificativa elegante para não serem cumpridas.

Há uma diferença entre esperança e propaganda. A esperança reconhece a dificuldade e ainda assim propõe caminho. A propaganda elimina a dificuldade para vender destino. A esperança convida o cidadão a participar de uma construção. A propaganda o convida a consumir uma imagem.

Democracias maduras talvez dependam menos de candidatos que prometam banquetes e mais de líderes capazes de explicar a cozinha. Menos de folders com salas impossíveis e mais de plantas baixas honestas. Menos de fotografias retocadas e mais de compromissos que sobrevivam ao encontro com a mesa, a chave, o orçamento e o tempo.

Porque o eleitor não precisa apenas saber como será o prato na foto. Precisa saber quem comprará os ingredientes, quem acenderá o fogão, quanto custará a refeição, quem lavará a louça e o que será feito quando o forno quebrar.

Talvez a maturidade democrática comece justamente aí: quando aprendemos a desconfiar das imagens perfeitas e a exigir que quem promete o futuro também explique como pretende entregá-lo.

Até lá, continuaremos entre a retórica da promessa e a gramática da desculpa.

Na campanha, o pão sempre terá gergelim.

No governo, alguém explicará por que ele caiu.

David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e prepara dois novos livros para lançamento em 2026: A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e As Dimensões do Silêncio e do Tempo. Escreve sobre ética, identidade, tecnologia e a condição humana. Mais em www.davidgertner.com.