A relevância da Liga Árabe em um novo projeto de Brasil
Desde o fim da segunda guerra, os países que adquiriram proeminência econômica o fizeram mediante a expansão do comércio exterior. Assim se deu com a Alemanha, Japão, Coréia do Sul, China e Índia.
Adicione-se a este cenário a recente ascensão de países da Liga Árabe no contexto global (com destaque para os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita). Impulsionados por uma estratégia de diversificação econômica e de investimentos em logística, eles se posicionaram como pontes entre o Oriente e o Ocidente.
O Brasil tem muito tempo que não se descola da posição de economia emergente. Continua fechado para o mercado externo, burocratizado e com uma carga tributária elevada frente ao seu nível de renda. No entanto, uma luz se acende no horizonte. Num contexto marcado por tensões comerciais entre as grandes potências, o país emerge como um parceiro de neutralidade confiável, dono de um potencial invejável para prover a sustentabilidade alimentar de outras regiões e reconhecido pela extensão das suas reservas de minerais críticos.
É premente estruturar um novo projeto de país para o Brasil, tendo o comércio exterior como motor do desenvolvimento. No entanto, um projeto de nação não se viabilizará apenas vendendo mais, mas mudando a forma como nos inserimos no mundo. A metamorfose exigirá alterar a situação atual de vendedor de produtos primários, para tornar o país uma plataforma de produção integrada às cadeias globais de valor.
O primeiro pilar estratégico, para este projeto de país, envolverá ações sobre as nossas verticais de ouro: o agro e os minerais críticos. Refiro-me, neste caso, à priorização das rotas de conexão aos portos do Pacífico, à atração de fábricas de fertilizantes, ao refino de elementos de terras raras, ao tratamento de grandes volumes de informações a partir do incentivo à implantação de data centers (a espinha dorsal da economia digital) e à potencialização do capital humano.
O estímulo a joint ventures agroindustriais transformará a nossa produção de alimentos em ferramenta de geopolítica e de sofisticação tecnológica.
O segundo pilar do projeto de país advirá da construção de pontes de relacionamento, destinadas a abrir a nossa economia e a alavancar a captação de financiamento internacional. Aqui, a relação com os países da Liga Árabe merece um olhar diferenciado.
O aporte de capital externo de longo prazo (patient capital) será vital para a construção deste novo projeto de Brasil. Uma parte consistente deste capital encontra-se em fundos soberanos de países Árabes (a exemplo dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita).
A criação de um Banco de Desenvolvimento Árabe-Brasileiro, na forma de uma instituição bilateral, apoiará o financiamento dos projetos (com garantias soberanas, que servirão de anteparo às flutuações do mercado de capitais do Ocidente).
O terceiro pilar do projeto estará atrelado com o custo Brasil, em especial com a carga tributária, a burocracia e o gap de inovação. Para que o comércio internacional seja o nosso motor, o ambiente interno não poderá punir o exportador. Para tal, far-se-á necessário prover a desoneração das exportações, a digitalização aduaneira e o fomento a soluções de tecnologia, que agilizem o acesso às decisões das agências reguladoras brasileiras.
Um projeto de país, a partir do comércio exterior, elevará o Brasil da condição de exportador passivo, para um parceiro geopolítico indispensável às cadeias globais de produção. Como contrapartida, o país se tornará o fiador da segurança alimentar e do fornecimento de elementos de terras raras refinados, para os agentes financiadores dos seus projetos estruturantes.
O jogo está feito. É uma questão de colocar em marcha a construção do portal capaz de mudar o Brasil, gerando emprego, riqueza e renda para a nossa gente.