A política pode adiar decisões. A matemática, nunca.
Há um momento em que a política deixa de ser um debate de narrativas para se tornar um confronto com a matemática. O Brasil parece ter chegado exatamente a esse ponto.
À medida que a disputa eleitoral de 2026 se aquece, a política econômica parece cada vez mais subordinada ao calendário político. Expansão de benefícios, ampliação de subsídios, crédito direcionado e sucessivas concessões fiscais compõem uma estratégia que parece voltada a grupos de eleitores, visando aumentar as intenções de votos. O problema é que a aritmética das contas públicas não distingue projetos eleitorais de projetos de Estado.
A Dívida Bruta do Governo Geral supera 81% do PIB, um dos maiores patamares da história recente, são R$ 9 trilhões, só do Governo Federal. Mais do que um indicador contábil, esses números refletem anos de déficits recorrentes, crescimento estrutural das despesas obrigatórias e um custo cada vez maior para financiar um Estado que gasta sistematicamente mais do que arrecada.
O problema torna-se ainda mais complexo porque cerca de 92% das despesas primárias da União são obrigatórias. Previdência, Benefício de Prestação Continuada (BPC), funcionalismo, pisos constitucionais e demais vinculações, sequestraram o orçamento federal para benefício dos grupos de interesse.
A Previdência tornou-se o símbolo mais evidente desse desequilíbrio. O déficit previdenciário alcançou aproximadamente R$ 442 bilhões em 2025, e as projeções indicam algo próximo de R$ 600 bilhões em 2026. Surge, então, uma pergunta que a classe política evita enfrentar: a reforma da Previdência aprovada em 2019 nasceu insuficiente? Os números respondem que sim.
A reforma retardou o crescimento do problema, mas não eliminou suas causas estruturais. A população envelhece rapidamente, a taxa de fecundidade diminui, a expectativa de vida aumenta e a relação entre trabalhadores ativos e aposentados continua se deteriorando. Nenhum sistema previdenciário permanece equilibrado indefinidamente quando há cada vez menos contribuintes financiando um número crescente de beneficiários. Essa não é uma questão ideológica; é demografia. E a demografia costuma ignorar calendários eleitorais.
Qualquer regra fiscal passa a depender de exceções. E regras que sobrevivem por exceções deixam de ser regras. Tornam-se fantasias, como o arcabouço fiscal.
Nesse cenário, ganha relevância a advertência feita pelo ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega: “O Brasil “contratou uma crise fiscal”. A observação carrega o peso de quem enfrentou, entre 1988 e 1990, um dos períodos mais turbulentos da economia brasileira, marcado pela hiperinflação e pelo fim da Conta Movimento, mecanismo que permitia ao Banco do Brasil financiar automaticamente os déficits do governo por meio do Banco Central.
Não estamos revivendo aquele modelo, o regime de metas de inflação, a autonomia do Banco Central e o mercado de títulos públicos criaram salvaguardas inexistentes à época. A semelhança, contudo, reside na crença de que sempre haverá uma forma de financiar déficits crescentes. Antes, recorria-se à emissão de moeda; hoje, à emissão de dívida.
O consumidor encontra a realidade nas gôndolas dos supermercados diariamente. O IPCA-15 continua revelando um custo de vida pressionado pelo chamado Custo Brasil. Há um princípio clássico frequentemente esquecido: os preços são a comunicação da economia. E, neste momento, eles não falam; gritam.
Talvez por isso Adam Smith defendesse que a prosperidade nasce da liberdade econômica, da segurança jurídica e da competição. Carl Menger demonstrou que o valor não é determinado por decretos, mas pela utilidade percebida pelos indivíduos. Ludwig von Mises foi além, ao sustentar que preços livres constituem o sistema nervoso de uma economia complexa, sem eles, desaparece a capacidade racional de alocar recursos.
A história econômica mostra que países raramente quebram de forma repentina. Antes disso, acumulam déficits, convivem com uma dívida crescente e adiam reformas até que os mercados passem a questionar sua capacidade de financiamento. A experiência da Grécia permanece como um alerta às democracias contemporâneas, a crise que explodiu em 2010 foi o desfecho de décadas de deterioração fiscal, culminando em uma dívida superior a 143% do PIB, perda de acesso aos mercados e sucessivos programas de resgate e austeridade. A lição permanece atual: crises fiscais amadurecem lentamente. Quando a confiança desaparece, reformas deixam de ser uma escolha e passam a ser uma imposição.
Política e matemática são ciências distintas. A primeira administra interesses, negocia maiorias e adia decisões. A segunda não negocia, não faz concessões e tampouco reconhece calendários eleitorais. No fim, não é a política que revoga a matemática; é a matemática que estabelece os limites da política. A conta chegou.