A Patologia da Atenção
Em uma época em que a atenção se transformou em uma das formas mais valiosas de poder, cresce o número de pessoas dispostas a sacrificar a verdade, a credibilidade e até o próprio propósito para permanecer no centro dos holofotes.
Vivemos uma época em que a atenção se transformou em uma das mercadorias mais valiosas do mundo. Empresas competem por ela, plataformas digitais foram construídas para capturá-la, carreiras são impulsionadas por ela e fortunas são criadas a partir dela. Em muitos aspectos, a atenção tornou-se uma forma contemporânea de poder.
Essa transformação ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais visível em sociedades de diferentes culturas, ideologias e sistemas políticos. Nunca houve tantos indivíduos dispostos a fazer quase qualquer coisa para permanecer no centro das atenções. O comportamento pode ser observado em líderes políticos, juízes, executivos, celebridades, influenciadores e até mesmo nas relações pessoais. O desejo de ser visto, ouvido e comentado não é novo. O que parece novo é a intensidade com que essa necessidade passou a dominar o comportamento de algumas pessoas.
A psicologia oferece pistas importantes para compreender esse fenômeno. O reconhecimento social produz recompensas emocionais profundas. Ser admirado, notado ou aprovado pelos outros ativa mecanismos associados ao prazer e à validação pessoal. Em condições normais, isso é parte saudável da vida em sociedade. O problema surge quando a atenção deixa de ser consequência de uma atividade e passa a se tornar o próprio objetivo.
Nesse momento ocorre uma inversão curiosa. O político já não busca atenção para divulgar suas ideias; passa a buscar ideias que lhe garantam atenção. O executivo já não utiliza a visibilidade para fortalecer a organização; utiliza a organização para fortalecer sua visibilidade. O juiz já não se satisfaz em fazer justiça; sente a necessidade de participar do espetáculo. A exposição pública deixa de ser um instrumento e transforma-se em um fim em si mesma.
A psicanálise talvez descrevesse esse processo de forma ainda mais profunda. O desejo de reconhecimento não se limita à busca de prestígio. Em muitos casos, relaciona-se à necessidade permanente de confirmação da própria importância. O indivíduo passa a depender cada vez mais do olhar dos outros para sustentar sua própria identidade. A atenção transforma-se em um espelho psicológico do qual se torna difícil abrir mão.
Talvez por isso algumas pessoas demonstrem tamanha dificuldade em permanecer fora dos holofotes. O silêncio passa a ser vivido como uma forma de desaparecimento. A ausência de manchetes produz inquietação. O fato de não ocupar o centro da conversa coletiva torna-se desconfortável. Aos poucos, a necessidade de visibilidade começa a adquirir características que lembram outras formas de dependência. Como ocorre em diversos comportamentos compulsivos, a satisfação inicial perde intensidade e exige doses cada vez maiores. Uma entrevista já não basta. Uma declaração já não produz o mesmo efeito. É necessário gerar novas controvérsias, novos conflitos e novas oportunidades de exposição.
É nesse ponto que a relação com a verdade começa a se tornar problemática. Sob uma lógica racional, mentiras, exageros ou afirmações facilmente desmentidas deveriam representar riscos elevados para a reputação. No entanto, quando a atenção se transforma na principal recompensa, os incentivos mudam. A controvérsia gera cobertura. O escândalo produz engajamento. A indignação amplia a circulação da mensagem. A lógica da visibilidade passa a competir com a lógica da verdade.
Não é difícil encontrar exemplos desse comportamento em diversas partes do mundo. Alguns líderes parecem viver em campanha permanente, incapazes de permitir que qualquer acontecimento relevante ocorra sem sua participação. A necessidade de permanecer no centro da narrativa pública torna-se tão intensa que a exposição passa a competir com os próprios objetivos da liderança. Em situações extremas, a busca por atenção deixa de servir ao exercício do poder e passa a orientar seu exercício.
Talvez essa seja uma das patologias mais características do nosso tempo. Durante séculos, o poder esteve associado ao controle de recursos, instituições, leis ou territórios. Hoje, cada vez mais, ele está associado à capacidade de monopolizar a atenção coletiva. O problema é que a atenção possui uma característica que a torna particularmente perigosa: ela raramente se satisfaz. Quanto mais é obtida, mais parece necessária.
Em uma sociedade dominada pela economia da atenção, a capacidade de permanecer visível passou a ser confundida com relevância, popularidade com autoridade e notoriedade com mérito. No entanto, continuam sendo coisas diferentes. A visibilidade pode ser conquistada por quase qualquer meio. A autoridade, não. Ela continua dependendo de competência, caráter, credibilidade e confiança.
Talvez por isso uma das virtudes mais raras da vida pública contemporânea seja justamente a capacidade de não ocupar todos os espaços disponíveis. Saber quando falar continua importante. Saber quando permanecer em silêncio talvez tenha se tornado ainda mais. Afinal, a atenção pode produzir fama, influência e poder. Mas somente a autoridade produz confiança. E quando uma sociedade perde a capacidade de distinguir uma da outra, corre o risco de entregar seu destino não aos mais preparados para liderar, mas aos mais habilidosos em capturar olhares.