A noite

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A noite sempre exerceu fascínio sobre o homem. É nela que se expressam alguns medos ancestrais: escuro/escuridão, desconhecido/desconhecimento, ameaça e morte. Muitas vezes o conceito de infinito abarca esses pensamentos.

Como dizia Manuel Bandeira: “Le silence éternel avec leurs espaces infinis m’effraie »[O silencio eterno com seus espaços infinitos me assusta].

O medo é elemento estruturador da psique animal. É fator de vivência e de sobrevivência. O medo permite o desenvolvimento de sua antítese e complemento: o acreditar. Engana-se quem contrapõe a coragem ao medo. São elementos constituídos por emoções diferentes.

O contraponto do medo é o acreditar. Sem contar os dementes e os tendentes ao suicídio, uma pessoa comum só atravessa uma rua (sem se valer do auxilio de semáforos e faixas para pedestres) se acreditar que vai chegar incólume ao outro lado. Não é preciso coragem para tomar essa atitude, só essa crença.

Assim, podemos pensar que só conseguimos adormecer (e sonhar) se acreditarmos que vamos acordar posteriormente. Ou seja, para dominarmos nosso medo do escuro da noite, do desconhecimento que vamos enfrentar com o desligamento da vigília pelo sono, do desconhecer do que virá nos sonhos e das ameaças irracionais do medo da morte, repetindo, para controlar tudo isso só acreditando que vamos conseguir acordar e tudo vai desaparecer até a próxima noite.

A noite não é uma circunstância qualquer. É um acontecimento aterrador, desde que o homem é …?

A representação da noite tem muitas faces: poética, pictórica, oral e numérica e talvez essa seja a mais expressiva.

Os matemáticos usam para se referir ao conjunto de todos os números naturais. Os números naturais surgiram pela necessidade contar coisas. É um conjunto infinito que começa no zero e que vai aumentando uma unidade sucessivamente sem chegar a nenhum final. A partir dessa concepção é desenvolvida a Teoria dos Conjuntos, que vai representar seus elementos de duas formas principais: quando podemos conta-los, se diz que é um conjunto finito e é representado por uma letra ou símbolo identificador do conjunto de seus elementos. Entretanto, quando não podemos conta-lo, dizemos que é um conjunto infinito, representado pela letra N[ii], numa notação matemática universalmente aceita.

Outra notação matemática universalmente reconhecida é a que simboliza o infinito, representada pelo número 8 deitado, o . Ou lemniscata[iii],figura geométrica em forma de hélice, que tem um significado mais amplo e muito mais antigo.

”Simbolicamente a lemniscata representa o equilíbrio dinâmico e rítmico entre dois polos opostos. Foi largamente usada nos desenhos celtas e insistentemente reproduzida em seus intrincados desenhos de formas. A lemniscata, principalmente em suas representações celtas, nos remete diretamente ao “Ouroborus”, símbolo antiguíssimo, resgatado pela tradição alquímica, onde se vê uma serpente que morde o próprio rabo e devora-se a si mesma”.

“Ainda podemos observar a lemniscata nas curvas do Caduceus (o cetro da dupla serpente), símbolo da Medicina e manifestação de Hermes; nos meridianos do fluir da Energia Vital descritos pelas medicinas tradicionais hindu e chinesa e pela acupuntura. A lemniscata repete-se no próprio movimento das galáxias, das estrelas e dos planetas, na astronomia e na astrofísica. A lemniscata está presente na dupla hélice do DNA componente de todos os seres vivos deste planeta.

“A lemniscata tem significado milenar, representando o equilíbrio dinâmico, perfeito e rítmico entre os polos opostos constitucionais do corpo humano: o polo metabólico e o polo neuro-sensorial. Carl Gustav Jung refere-se a este símbolo como o “Mysterium Conjuctionis” (Mistério da Conjunção), resultado do “Hieroghamos” (Casamento Sagrado), equilíbrio do Masculino e do Feminino Universais, essência fundamental da mente humana e, em uma visão mais ampla, da existência humana em si.” [iv]

Em muitos idiomas do ramo indo-europeu[v], a palavra NOITE é formada pela letra “N” acrescido a seguir com o número 8 na respectiva língua. Não é preciso lembrar, mas o faço assim mesmo, que o 8 ”deitado”, também simboliza infinito.

Escritos de viajantes europeus pelo continente asiático, nos séculos XV, XVI e XVII, assinalaram as semelhanças entre os idiomas mais antigos conhecidos – sânscrito, grego, latim e persa. O primeiro relato a mencionar o sânscrito veio de Filippo Sassetti (nascido em 1540), um mercador florentino que viajou ao subcontinente indiano e esteve entre os primeiros observadores europeus a estudar a antiga língua indiana. Escrevendo em 1585, notou diversas semelhanças entre palavras do sânscrito e do italiano (como por exemplodevaḥ / dio, “Deus“, sarpaḥ / serpe, “serpente“, sapta / sette, “sete“, aṣṭa / otto, “oito“, nava / nove, “nove“)[vi]

Em várias das línguas desse ramo, podemos entender a expressão NOITE como a união dos infinitos:
Português: noite = n + oite (o)
Inglês: night =  n + (e) ight

Alemão: nacht =  n + acht
Espanhol: noche = n + ocho (e)

Francês: nuit = n + (h) uit
Italiano: notte = n + otto (e)

Sueco: natt – n + atta (oito)

Dinamarquês: nætter- n + otte (ae tem som de êû))

Norueguês: natt – n + åtte (oito sem e)

Islandês: nótt n + atta (ó tem som de éu)

Iidishe: נאַכט (noite) (se pronuncia NACHT) – אַכט (oito)(se pronuncia ACHT)

Irlandês: noite é oíche e oito é ocht (não tem o n, mas mantem a proximidade com o infinito)

Latim: noctis – n + octo (is)

Letão: nakts- n + akts ( ato) astoņi (oito)

Romeno: noapte – n + opt (oito)

“Musicalmente, o conceito de infinito pode ser encontrado, por exemplo, nas belíssimas fugas de Bach, com notas seguindo notas de forma a gerar uma sensação de verticalidade sonora, a música do homem ascendendo ao firmamento divino. A mesma verticalidade é encontrada na arquitetura das catedrais góticas ou na pintura de El Greco, com suas imagens esticadas de Cristo, novamente ligando o mundo dos homens ao céu de Deus. Aliás, essa também é a interpretação da primeira letra do alfabeto hebreu, o Aleph, que tem uma perna plantada no chão e outra apontando para o céu.

“Nas representações do infinito, encontramos uma belíssima complementaridade entre arte e ciência. Vários exemplos de representação gráfica do infinito aparecem na obra de M. C. Escher, um verdadeiro mestre do absurdo, que, com suas representações de formas geométricas encurvadas repetidas em sequência, mas em proporções cada vez menores (ou maiores, dependendo do ponto de vista), reproduz em papel uma imagem do infinito extremamente convincente e inspiradora.” [vii]

A união dos infinitos pode significar uma das essências da vida, o sincretismo, a nossa tendência à sintetizar os objetos encontrados(sejam reais ou imaginários, externos e internos) ao longo da existência, e a nossa capacidade de racionalizar o conhecimento, aí entendido como a apreensão da realidade, seja ela interna ou externa.

Einstein falava de um universo curvo e isso coloca a possibilidade do infinito estar no início. No início de nossos pensares, o que nos permite imaginar que a mente não tenha limites, assim como o universo. Esses limites são sempre destruídos após a próxima descoberta, que é gerada por outra ilimitada característica animal, a curiosidade.

Curiosidade e temor andam juntos como irmãs siamesas, ligadas pela mesma pulsão de vida. Precisamos do dormir para termos o acordar. Precisamos do sonhar para conhecermos a vigília. Não precisamos da morte para saber da vida e afinal, a vida é um evento finito sem duração definida.

Sylvain Levy é médico e psicanalista.
[i] Membro Associado da Sociedade de Psicanálise de Brasília
[ii]Notação matemática é uma linguagem cuja grafia e semântica se utiliza dos símbolos matemáticos e da lógica matemática, respectivamente. Com base nessa notação são construídas as sentenças matemáticas.
[iii] A lemniscata foi descrita primeiramente por Jakob Bernoulli em 1694 como uma modificação da elipse, que é o lugar geométrico de pontos para qual a soma das distâncias para cada um de dois focos fixos é uma constante1 . A Oval de Cassini, por sua vez, é o lugar de pontos para os quais o produto destas distâncias é constante. No caso onde a curva atravessa o ponto no meio caminho entre os focos, a oval é uma lemniscata de Bernoulli.Bernoulli chamou isto de lemniscus que em latim significa “faixa suspensa”. A lemniscata pode ser obtida como o inverso geométrico de uma hipérbole, com o círculo de inversão centrado no centro da hipérbole (bissetriz de seus dois focos).http://pt.wikipedia.org/wiki/Lemniscata_de_Bernoulli
[iv]http://bruxasdaluz.blogspot.com.br/2010/05/lemniscata-o-simbolo-do-infinito.html
[v]O indo-europeu é uma família (ou filo) composta por diversas centenas de línguas e dialetos que inclui as principais línguas da Europa, Irã e do norte da Índia, além dos idiomas predominantes historicamente na Anatólia e na Ásia Central
[vi]Auroux, Sylvain. History of the Language Sciences.Berlin, New York: Walter de Gruyter, 2000. 1156 p. ISBN 3110167352
[vii]Marcelo Gleiser Folha de São paulo14 de janeiro de 2001

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