A Espanha domina o mundo

A taça da Espanha também pertence um pouco aos imigrantes que construíram o Brasil

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A Espanha confirmou neste domingo (19) aquilo que já vinha demonstrando ao longo de toda a Copa do Mundo: foi a melhor seleção do torneio. Na decisão diante da Argentina, a equipe comandada por Luis de la Fuente dominou praticamente todas as ações, controlou a posse de bola, criou as melhores oportunidades e não permitiu que os atuais campeões do mundo conseguissem impor seu jogo. O título coroou uma campanha quase perfeita e consolidou uma geração que já pode ser considerada uma das maiores da história do futebol espanhol.

O placar de 1 a 0 na prorrogação, construído com o gol de Ferran Torres, foi até modesto diante do que aconteceu em campo. A Espanha terminou a partida com amplo volume ofensivo, acumulando finalizações, obrigando Emiliano Martínez a fazer diversas defesas decisivas e sufocando a Argentina desde o início da decisão. Os argentinos encerraram os 90 minutos sem acertar uma única finalização no gol de Unai Simón, reflexo da superioridade espanhola durante praticamente todo o confronto.

A campanha impressiona também pelos números. Em sete partidas, a Espanha sofreu apenas um gol em toda a Copa do Mundo. Sua defesa foi praticamente intransponível. Rodri voltou a comandar o meio-campo como poucos jogadores no mundo conseguem fazer. À frente dele, Pedri, Dani Olmo, Lamine Yamal, Nico Williams, Ferran Torres e Mikel Oyarzabal formaram um time que alia talento, velocidade, inteligência e uma circulação de bola que lembra os grandes momentos da seleção campeã de 2010, mas com ainda mais intensidade.

O modelo de jogo espanhol é admirável. Pressiona alto, recupera rapidamente a posse, ocupa todos os espaços do campo e transforma a bola em instrumento de domínio. Não é um futebol de enfeites. É um futebol de ideias.

A conquista fecha um ciclo extraordinário. Em pouco mais de dois anos, a Espanha venceu a Liga das Nações, conquistou a Eurocopa e agora levanta a Copa do Mundo. É, sem discussão, a melhor seleção do planeta neste momento.

Mas, para mim, a final nunca foi apenas uma partida de futebol.

Sem o Brasil em campo, torci pela Espanha. Não apenas pela qualidade do time. Torci pela Espanha dos meus avós, *José Maria* e *Marina, e da minha mãe, **Ilda*.

Eles nasceram na Galícia, na província de Pontevedra, uma terra de mar, montanhas, trabalho duro e gente acostumada a enfrentar a vida sem reclamar. Como milhares de espanhóis no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, deixaram a sua terra porque ali já não havia espaço para sonhar.

Cruzaram o Atlântico carregando malas pequenas e uma esperança enorme.

Primeiro chegaram a Minas Gerais, onde enfrentaram a dureza da mineração do ouro. Depois seguiram para o Rio Grande do Sul, para Butiá, onde as minas de carvão substituíram o brilho do ouro pela escuridão das galerias subterrâneas. A vida nunca lhes ofereceu facilidade. Cada conquista foi arrancada do solo com trabalho, coragem e dignidade.

Foi esse esforço silencioso que permitiu que as gerações seguintes estudassem, crescessem e escrevessem uma história diferente.

Meus irmãos e eu herdamos deles não apenas os valores da honestidade, da perseverança e da família. Herdamos também a cidadania espanhola, um reconhecimento que vai muito além de um documento. É a confirmação de uma origem que nunca deixou de existir. Mais tarde, tive a alegria de transmitir essa cidadania aos meus filhos, *Theo* e *Laís*, para que eles também carreguem esse elo entre Brasil e Espanha.

Enquanto via Lamine Yamal encantar o mundo, Rodri controlar cada metro do campo e a Espanha jogar um futebol quase impecável, pensei inúmeras vezes nos meus avós.

Imaginei José Maria e Marina deixando Pontevedra sem saber se um dia voltariam. Imaginei a saudade da Galícia, da língua, dos vizinhos, dos pais, dos irmãos que ficaram para trás. Pensei em quantos imigrantes espanhóis ajudaram a construir este país anonimamente, sem estátuas, sem homenagens, apenas com a força do próprio trabalho.

A taça levantada em Nova Jersey pertence, naturalmente, aos jogadores que a conquistaram.

Mas gosto de pensar que ela pertence um pouquinho também a todos aqueles homens e mulheres que deixaram a Espanha para ajudar a construir o Brasil.

A cada descendente que preserva essa memória, a cada filho e neto que conhece a história de sua família, essa vitória ganha um significado que nenhuma estatística consegue medir.

Comemorei como brasileiro apaixonado por futebol.

Comemorei também como filho, neto e pai.

Porque há títulos que ficam na galeria.

E há títulos que atravessam gerações.