A Democracia Escolhe. Mas Como Escolhe?
O voto responde quem exerce o poder. A qualidade da democracia depende de como escolhemos quem o exercerá.
A democracia representa uma das maiores conquistas da civilização. Ao substituir a hereditariedade, a força e o privilégio pelo voto, respondeu a uma pergunta fundamental: quem deve escolher os governantes?
A resposta foi simples e poderosa: o povo.
Mas a democracia jamais respondeu a uma segunda pergunta, talvez ainda mais importante: como o povo escolhe?
Essa distinção parece sutil. Não é.
O direito de votar não produz, automaticamente, boas escolhas. A urna é um instrumento extraordinário para contar votos. Não foi concebida para medir competência, preparo, discernimento, capacidade administrativa ou compromisso com o interesse público.
Supõe-se que o eleitor faça essa avaliação.
Na prática, porém, seres humanos escolhem outros seres humanos utilizando critérios profundamente humanos. Confiamos em quem conhecemos.
Admiramos quem obteve sucesso. Tendemos a acreditar que alguém competente em uma atividade também o será em outra. A psicologia chama esse fenômeno de efeito halo: o prestígio conquistado em um campo acaba irradiando credibilidade para áreas completamente diferentes.
Assim, atletas, artistas, empresários, comunicadores, líderes religiosos, militares, influenciadores e inúmeras outras personalidades frequentemente transformam notoriedade em capital político. Alguns revelam extraordinária vocação para a vida pública. Outros decepcionam. A profissão de origem, por si só, não determina o resultado.
O problema tampouco é a renovação. Democracias saudáveis precisam renovar seus quadros e incorporar pessoas vindas das mais diversas experiências de vida.
A questão é outra.
Governar uma sociedade complexa talvez seja uma das tarefas intelectualmente mais exigentes que existem. Exige compreender economia, direito, administração pública, orçamento, relações internacionais, processo legislativo e, sobretudo, avaliar consequências que muitas vezes só se tornarão visíveis anos depois.
No entanto, raramente perguntamos aos candidatos se dominam essas competências.
Perguntamos se são simpáticos. Se falam bem. Se representam nossas convicções. Se nos emocionam. Ou simplesmente se já conhecemos seus nomes e rostos.
Em poucas atividades delegamos responsabilidades tão complexas utilizando critérios tão informais.
Não embarcaríamos em um avião pilotado por alguém apenas porque é famoso. Não entregaríamos uma cirurgia a um excelente cantor. Nem contrataríamos um engenheiro porque foi um grande jogador de futebol.
Na política, entretanto, frequentemente confundimos reconhecimento público com preparo para governar.
Talvez porque esperemos da democracia algo que ela nunca prometeu oferecer.
A democracia não é um mecanismo destinado a selecionar os mais capazes. É um mecanismo destinado a garantir que o poder permaneça nas mãos dos cidadãos. A qualidade das escolhas depende menos das instituições do que da maturidade com que os eleitores exercem esse poder.
Por isso, o Parlamento costuma refletir menos a qualidade dos candidatos do que os critérios utilizados pelos eleitores.
Costuma-se dizer que cada povo tem o governo que merece. A frase é severa e, muitas vezes, injusta.
Talvez seja mais preciso afirmar que cada democracia produz representantes compatíveis com a maneira pela qual seus cidadãos escolhem.
Enquanto confundirmos popularidade com competência, visibilidade com preparo e fama com capacidade de governar, continuaremos esperando da democracia resultados que ela, sozinha, jamais poderá garantir.
O voto responde admiravelmente à pergunta quem escolhe.
A resposta à pergunta como escolhemos continua sendo, inteiramente, responsabilidade nossa.