A confortável arte de diagnosticar — e a urgência de agir

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O brasileiro tornou-se, ao longo do tempo, um especialista em diagnosticar problemas — e um amador crônico quando se trata de resolvê-los. Em rodas domésticas, mesas de bar, na Academia e círculos sociais, discute-se o país com intensidade quase profissional. O resultado, porém, raramente ultrapassa o campo da retórica.

Nessas conversas, quase sempre marcadas por forte viés ideológico, prevalece uma conclusão recorrente: a culpa é de instâncias superiores. Governos, elites ou estruturas abstratas de poder são responsabilizados de forma praticamente exclusiva pelas disfunções sociais. À população resta o papel de espectadora — crítica, indignada, mas inerte.

Não se trata de um acaso. Essa mentalidade encontra raízes em uma tradição histórica centralizadora e, não raro, em uma cultura que naturaliza a transferência de responsabilidade. Quando não se culpa o Estado, culpa-se o destino — ou, em versões mais folclóricas, “São Pedro”, responsável até hoje por chuvas que todos sabem previsíveis, mas poucos se dispõem a enfrentar com planejamento.

O padrão se repete: exaustão no diagnóstico, escassez de ação. Discute-se com eloquência, mas age-se com parcimônia. E essa escolha — sim, escolha — não é neutra. Ela é particularmente confortável para segmentos sociais que, apesar das queixas, ainda vivem em condições suportáveis. Para esses, o debate substitui a ação sem maiores custos.

Enquanto isso, nas camadas mais vulneráveis, a precariedade não admite esse luxo. A ausência de segurança, a infraestrutura deficiente e os serviços precários não são abstrações — são condições permanentes. E a distância entre análise e ação, nesse caso, não é intelectual: é concreta, diária e onerosa.

Mas há um ponto ainda mais incômodo: ao transferir sistematicamente a responsabilidade para o topo, evita-se deliberadamente olhar para aquilo que poderia ser feito na base. Evita-se, em outras palavras, assumir qualquer parcela de responsabilidade prática.

Tomando como exemplo áreas de maior renda de uma grande cidade, como, no Rio de Janeiro, Ipanema, Leblon, Botafogo e Jardim Botânico, a degradação urbana avança. Não por falta de recursos, mas por ausência de organização local minimamente estruturada.

É nesse ponto que surge uma evidência ignorada: os síndicos de edifícios formam uma das poucas estruturas de gestão urbana já existentes — ainda que confinadas aos limites privados. Apenas em Ipanema, são cerca de 2.500 prédios, ou seja, 2.500 síndicos habituados a administrar recursos, coordenar equipes e lidar com prestadores de serviço.

Expandir esse raio de ação não exige revolução — exige decisão e um pequeno acréscimo remuneratório. Iluminação pública complementar, monitoramento integrado, manutenção de calçadas e articulação por quarteirão são medidas simples, financeiramente viáveis e de impacto imediato.

Mais do que isso: a organização progressiva desses síndicos — por meio de reuniões, comitês e representação — pode criar algo raro na vida urbana brasileira: uma voz coletiva com legitimidade fiscal. Afinal, quem paga IPTU paga para receber serviços. E há uma insatisfação evidente com o retorno entregue.

Essa organização teria condições de fazer o que hoje quase ninguém faz: confrontar, com base concreta, políticas urbanísticas impostas de cima para baixo. Políticas que, frequentemente, desfiguram bairros inteiros, alteram suas dinâmicas culturais e transformam espaços vivos em ativos financeiros.

A transferência de potencial construtivo entre regiões, orientada muitas vezes por interesses arrecadatórios ou administrações corruptas, não é um detalhe técnico — é uma intervenção profunda na vida urbana. E, como tal, deveria ser enfrentada por quem vive suas consequências.

Nos bairros menos verticalizados, a solução é ainda mais simples: representantes de quadra ou quarteirão. Há pessoas com tempo, experiência e senso de responsabilidade suficientes para exercer esse papel. Falta, essencialmente, organização — e disposição.

Como ensinava a urbanista Jane Jacobs, cidades não se sustentam por decretos, mas por “olhos sobre a rua” — gente atenta, presente, comprometida.

O que está em jogo, portanto, não é apenas um modelo de gestão urbana, mas uma escolha cltural. Permanecer no conforto do diagnóstico ou assumir o desconforto inevitável da ação.

Porque, no fim, cidades não fracassam por falta de diagnóstico. Fracassam por excesso dele — e pela escassez crônica de quem esteja disposto a fazer algo a respeito.

José Luiz Alquéres é engenheiro e planejador urbano, CREA 13.829-D.

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