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Crime organizado

Paulo Preto deu R$ 740 mil a grupo ligado a facção criminosa por obra no Rodoanel

Dinheiro teria sido cobrado pelos integrantes da quadrilha para deixar os engenheiros e operários da obra trabalhar nos bairros dominados pelo crime organizado

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O ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza ordenou o pagamento de pelo menos R$ 740 mil em dinheiro da empresa a integrantes de grupo ligado a uma de São Paulo em 2009. É o que aponta investigação iniciada no Ministério Público de São Paulo em 2016 e nunca inteiramente concluída.

Paulo Preto, como é conhecido o ex-diretor, é apontado como operador de propinas do PSDB durante o governo José Serra (PSDB-SP) em São Paulo (2007-2010).

De acordo com os autos do processo que correu no Tribunal de Justiça de São Paulo a que o UOL teve acesso, pelo menos 37 pessoas ligadas à criminalidade na região do Jardim São Francisco e do Jardim Oratório, na zona Sul de São Paulo, e da Vila Iracema, em Barueri, na região metropolitana da capital, foram indenizadas indevidamente. As irregularidades teriam ocorrido em meio a desapropriações para as obras do trecho Sul do Rodoanel Mário Covas e prolongamento da avenida Jacu-Pêssego. A obra foi entregue em 2010.

Destes 37, 13 possuem passagem pela cadeia por crimes como homicídio, tráfico de drogas e roubo, entre outros. Ao menos um preso entrou na lista das indenizações enquanto estava na cadeia, e outro foi indenizado mesmo sendo foragido da Justiça. Nenhum deles teria direito aos cerca de R$ 20 mil que receberam cada, em um total de R$ 740 mil, em valores atualizados, de acordo com investigações feitas na época pelo promotor Cássio Roberto Conserino.

O dinheiro teria sido cobrado pelos integrantes da quadrilha para deixar os engenheiros e operários da obra trabalhar nos bairros dominados pelo crime organizado e por onde passa o traçado do Rodoanel, assim como para permitir a demolição de imóveis desapropriados para a obra nas comunidades dominadas pelo tráfico de drogas.

Além das indenizações irregulares para os integrantes da facção criminosa, ex-funcionária de Paulo Preto Mércia Ferreira Gomes contou que havia sido ameaçada de morte por Paulo Preto caso colaborasse com as investigações. Pressionada pela denúncia do Ministério Público, ela firmou uma colaboração premiada com o MP-SP em maio de 2016 e contou para o promotor Conserino sobre as irregularidades de que tinha conhecimento nas obras do Rodoanel. Ela disse que foi abordada duas vezes na rua por estranhos, supostamente ligados ao PCC, com ameaças à sua vida.

Contou também que pelo menos 1.700 pessoas que não tinham direito à indenização das desapropriações foram pagas mesmo assim.

O MP-SP chegou a apresentar uma denúncia na 20ª Vara Criminal de São Paulo, mas em março de 2017 a juíza Carla de Oliveira Pinto Ferrari declinou a condução do caso e repassou a apuração para o MPF e à Justiça Federal em São Paulo.

A mudança de foro aconteceu porque alguns dos fatos investigados no caso das desapropriações do Rodoanel foram alvos de delações de executivos de empreiteiras na Operação Lava Jato.

Na Justiça Federal, o caso foi conduzido pela força-tarefa da Lava Jato em São Paulo. A linha de investigação que pormenorizava os pagamentos para os integrantes de facção criminosa, porém, não foi aprofundada — a Procuradoria concentrou-se na desapropriação de maneira geral e no fato de funcionários da família de Paulo Preto terem ganhado apartamentos em conjuntos habitacionais como se fossem desapropriados do Rodoanel.

Nenhum suposto integrante do PCC ou outras pessoas que receberam as indenizações indevidas nas desapropriações do Rodoanel foram punidas até hoje, e o dinheiro não foi devolvido aos cofres públicos.

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do MPF em São Paulo diz que não investiga a relação entre Paulo Preto e PCC. A Lava Jato de Curitiba diz que tampouco possui aberta uma investigação sobre essa relação e não possui informações sobre o assunto.

No início deste ano, Paulo Preto foi condenado a 145 anos de prisão nesse processo pela Justiça Federal em São Paulo, na primeira instância.

Também neste ano, ele foi condenado em outra ação do Rodoanel, sobre o cartel das empreiteiras, a 27 anos de prisão. Paulo Preto está preso e responde a outros processos na Lava Jato em Curitiba e em São Paulo. (Com informações da FolhaPress)