Entrevista

Vitória de Milei: analista aposta em ‘profissionalismo diplomático’

Durante a campanha eleitoral, Milei propôs mudanças um tanto quanto radicais, como a desativação do Banco Central, a dolarização no país e romper os laços com o Brasil e o bloco econômico Mercosul

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Javier Milei, presidente da da Argentina - Foto: Reprodução/redes sociais).

O ultraliberalista Javier Milei venceu as eleições da Argentina, neste domingo (19), com cerca de 55,78% dos votos, se tornando o presidente do país até 2027. Em seu primeiro discurso após assumir a presidência, Milei afirmou: “Hoje começa a reconstrução da Argentina”.

Durante a campanha eleitoral, Milei propôs mudanças radicais, sobretudo na área econômica do país, como a desativação do Banco Central, a dolarização no país e romper os laços com o Brasil e o bloco econômico Mercosul. No entanto, eram apenas ideias do economista e candidato a chefe de estado, agora, eleito, analistas apostam em um Milei mais moderado.

Rompimento com o Brasil

A relação do Brasil com a Argentina iniciou ainda no período de monarquia, quando o governo de D. João reconheceu a independência da Argentina, em 1818, após a guerra da independência da Argentina. Em alguns discursos de Milei, era visível a divergência com o presidente Lula, ao ponto de Milei dizer que não queria dialogar com o governo brasileiro e que poderia romper laços com o Brasil.

O analista político Volgane Carvalho, acredita que é improvável que aconteça esse rompimento entre os países. “Me parece que esses eram discursos muito mais eleitorais do que uma plataforma política em si. É muito improvável que aconteça um rompimento entre nações que estão em paz, especialmente porque são parceiros comerciais importantíssimos bilateralmente. A Argentina é essencial para a balança comercial brasileira e o Brasil também para Argentina, não só sobre o aspecto puramente econômico`, destaca o analista.

Além disso, no ambiente diplomático o analista acredita que as relações de paz devem se manter.

Após a vitória de Milei, o presidente  Lula, foi um dos primeiros a parabenizar a Argentina pelas eleições limpas e desejar “boa sorte aos argentinos”, no entanto, não citou o nome de Milei. Para Carvalho, existe um profissionalismo diplomático que vai ser predominante na relação entre ambos os países. “É o profissionalismo diplomático, digamos assim, que vai continuar sendo o preponderante na regência das relações entre Brasil e Argentina e que vai assumir o destaque nesse tipo de relação bilateral e vai deixar esse discurso político eleitoral como uma coisa do passado e de menor importância” .

Essa rixa eleitoral ficará no passado, visto que Milei precisa se preocupar em reerguer a Argentina e o fortalecimento da sua relação com o Brasil e com o Mercosul.  “Acredito que não haverá nenhum problema mais relevante daqui por diante o que  ficou no passado lá vai ficar”.


Maiores desafios de Milei

Segundo o analista, Javier Milei terá grandes desafios principalmente com a inflação, mas que ainda está cedo para saber quais medidas serão tomadas no país. “A partir de dezembro, quando efetivamente começar o governo, nós vamos verificar. Quais são as medidas reais que você tomou e sem dúvida nenhuma todas elas devem convergir para esse controle inflacionário que é o grande drama argentino e que é o que custou a eleição do Sérgio Massa”.

Milei terá grandes desafios para restabelecer a Argentina. O país se encontra em uma intensa crise de inflação, escassez de dólares, aumento da dívida externa, subsídios para preços públicos e a fraca industrialização.

Atualmente, a Argentina apresenta uma inflação acumulada  de cerca de 120%, com mais de 40% da população dentro da linha da pobreza, segundo os dados mais recentes do governo. A inflação está relacionada ao poder de compra das pessoas. Se ela aumenta, o poder de compra diminui. Esse impacto é maior para quem recebe salários menores, já que os preços dos produtos e serviços aumentam sem que o salário acompanhe o crescimento.

Outro obstáculo para Milei será acabar com a escassez de dólares, isso provoca uma desvalorização cambial descontrolada, o que pode elevar drasticamente a inflação. Uma das promessas do libertário foi a dolarização econômica no país, no entanto um país não pode decidir que vai ter como moeda o dólar sem ter a divisão estrangeira em casa.

Com a dolarização, Milei corre risco de ter uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) e a recessão.

Com uma população empobrecida e dependente de subsídios estatais, Milei terá que raciocinar um reequilíbrio das contas públicas e que a Argentina terá que passar pelo corte de subsídios, principalmente para os preços de energia e combustíveis.

Ainda é cedo para saber quais serão as primeiras medidas de Milei, que criou um personagem de herói e que teria capacidade especial de resolver todos os problemas por ser o anti-sistema. Milei se autointitulava “anti-castas”, e assim conseguiu vencer Sergio Massa. No entanto, para que as medidas de Milei sejam colocadas em prática, o novo presidente precisará ampliar a base no congresso sob pena de não conseguir realizar nenhuma grande reforma e ter muita dificuldade para governar.

Gás para a direita

A vitória de Milei injetou ânimo extra na direita brasileira. Milei tem uma amizade com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que o apoiou desde do início da campanha. Após a vitória, Bolsonaro felicitou Milei por chamada de vídeo e confirmou presença no dia da posse, em dezembro.

Volgane Carvalho analisa essa amizade é benéfica para ambos. “Bolsonaro realmente vai demonstrar essa proximidade e se isso lhe trouxer algum benefício político tanto melhor para ele. Mas a gente não pode dizer que é uma atitude meramente interesseira. Porque, de fato, ele acompanhou e apoiou o Milei desde bem antes da vitória”, ressalta. 

Essa relação gerou um movimento de esperança da direita para as eleições de 2024. “A vitória de Milei reanima o movimento de extrema direita e apresenta uma nuance que até então não era muito conhecida nem destacada que seria uma extrema direita mais anárquica”, destacou o analista. Ainda vale ressaltar que a vitória de Milei “não deixa de dar um estímulo para manter vivo e engajar cada vez mais seguidores do movimento”.