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Reação de coronel

Para atingir Collor, Renan Filho ataca honra de jornalista durante entrevista

Perguntado por falhas, governador acusa jornalista de usar rédeas e o convida para sua sala

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Renan Filho atacou o jornalista Arnaldo Ferreira em coletiva sobre segurança pública. Foto: Márcio Ferreira/Agência Alagoas

Depois de exaltar dados de seu governo sobre a redução da violência em Alagoas, o governador Renan Filho (MDB) reagiu de forma truculenta, ao ser surpreendido com a realidade nada animadora da estrutura da segurança pública no estado, exposta pelo jornalista Arnaldo Ferreira, na manhã desta segunda-feira (5), no Salão de Despachos do Palácio República dos Palmares. Em vez de responder sobre os problemas questionados, o governador acusou o entrevistador de usar “esporas na barriga e rédeas na cabeça”, por ser diretor-geral de Jornalismo das empresas de comunicação do senador Fernando Collor (PROS-AL), contra quem Renan Filho antecipa a disputa por uma vaga no Senado em 2022.

O governador havia sido perguntado sobre 141 delegacias sucateadas, falhas em obras milionárias dos “Cisps” e falta de efetivo na Polícia Civil, com dados apurados pelo jornalista e confirmados pelo Sindicato dos Policiais Civis de Alagoas. Mas reduziu o debate à afirmação de que a Alagoas retratada pelo jornalista seria a “do passado, da época de Collor”. E, antes de atacar as empresas de seu adversário político, ainda acusou Arnaldo Ferreira de usar informações falsas em seu questionamento, alegando que “os números [de redução de violência] o desmentem”.

“Você não conhece os números e está editorialmente tutelado por um coronel que colocou esporas em sua barriga e rédeas na sua cabeça. É assim mesmo”, atacou Renan Filho, citando a greve recente nas empresas de Collor contra a proposta de redução do piso salarial, sem dar respostas sobre os problemas citados pelo jornalista.

“O senhor já visitou o Cisp de Murici?”, insistiu o jornalista, sobre as falhas estruturais que já atingem o Centro Integrado de Segurança Pública construído no primeiro mandato na terra natal de Renan Filho ao custo de R$ 1,8 milhão. “O Cisp de Murici, se você quiser, eu te mostro ali. Vou te convidar para ir aqui na minha sala, depois disso”, reagiu Renan Filho.

Na coletiva transmitida por algumas rádios, o governador cita que sabe onde o jornalista mora. “Tu morou na [cita o bairro], era meu vizinho. […] Tu mora lá. Te conheço na origem. Está feio para caramba para você esse papel, cara. Tu é um professor de universidade e está jogando ao ralo tua história, depois de cabelos brancos e da queda de cabelo chegar”, disse o governador, citando características físicas do jornalista com mais de 40 anos de profissão.

Ataque reforçado
Procurado pelo Diário do Poder, Arnaldo Ferreira disse que assessores de Renan Filho insistiram para a tal “conversa reservada” que o governador lhe propôs. E, diante da sua negativa, foi surpreendido por um telefonema, já quando retornava à redação, em que o governador reforçou os ataques.

“Ele atacou minha honra e ainda ficou fazendo bulling com a minha idade, citando que estou ficando velho e careca. Depois disso, ele ficou me cercando. Agradeci pela entrevista e fui saindo. Aí veio a secretária, um coronel, e um assessor, dizendo que o governador queria conversar numa sala reservada. E eu disse que já tinha tratado de tudo na coletiva, sendo educado, apesar do tratamento. Então recebi a ligação e ele continuou me atacando e atacando o Collor”, relatou Arnaldo Ferreira, sobre a ligação recebida de uma assessora que o transferiu para o governador.

“Eu disse que não iria desrespeitá-lo. E ele quis que eu mandasse recado para o senador Collor. Eu disse: ‘Governador, já estou grandinho para dar recado para alguém, né? Não tem cabimento isso’. E, no final, ainda mandou abraço para minha família. Mas não teve nada de pedido de desculpas. Ele ligou para atacar de novo. Reafirmou que estou sozinho e que todos os sites estão com ele”, completou o jornalista, contrariando uma versão divulgada sobre uma suposta ligação com pedido de desculpas de Renan Filho.

Teme por ‘covardia’
Arnaldo Ferreira disse que por sua segurança, após o ataque do governador e sua insistência em telefonar para ele. “Só fico com medo de uma covardia. Moro aqui, não tenho segurança. Minha casa é aberta, livre, tenho muitos amigos e não tenho como me proteger. Faço feira, vou no supermercado… Já escapei de duas [de dois deputados no passado]. Agora, não vou poder sair mais com minha mulher para fazer feira. Vou sozinho, porque não vou colocar a vida dela em risco. Nem vou andar com filhos, nem parentes. Já vou tomar essas medidas pelos próximos dias. Mudar algumas rotinas. Porque foi público. Não tomo como ameaça, mas tenho que ficar ligado”, disse o jornalista ao Diário do Poder.

Arnaldo Ferreira disse que, ao contrário do alerta do governador sobre seu futuro como professor de Jornalismo, utilizará a experiência em sala de aula, para mostrar que em determinados momentos, é necessário ir para o enfrentamento.

“Agora, toda coletiva do governo, eu vou! Se a imprensa é livre, é livre. Não é livre só para um lado. Se eu tiver errado, ele tem direito de me interpelar judicialmente. Mas não me atacar. Tive minha honra atacada, minha idade atacada. Sofri bulling, pela minha idade. E tenho só a agradecer à imprensa alagoana, pelas ligações recebidas. E vou continuar fazendo o que faço ao longo de 40 anos. Sobre eu servir ao Collor, como ele falou, ele só esqueceu de citar que eu aderi à greve, mesmo sendo diretor de Jornalismo de todas as empresas da organização. Até hoje, nunca consegui agradar nem aos meus patrões, porque não é esse o meu papel. Não sou parte da assessoria de ninguém”, concluiu Arnaldo Ferreira.

A assessoria de imprensa do governador Renan Filho não respondeu aos seguintes questionamentos enviados pelo Diário do Poder: “O governador se arrepende de ter atacado um profissional da imprensa para atingir seu adversário político, o Collor? O governador pode tranquilizá-lo de alguma forma? Comenta esse temor do jornalista pela sua segurança?”.

Veja o momento em que o jornalista faz a pergunta e a reação do governador:

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Posted by Renan Filho on Monday, August 5, 2019

Manifestação de apoio
Enquanto o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas espera por uma reunião de sua diretoria para se posicionar sobre o ataque ao integrante da imprensa, apesar de procurado pela reportagem, a Organização Arnon de Mello (OAM) e o Sindicato dos Policiais Civis de Alagoas (Sindpol)  manifestaram apoio ao jornalista Arnaldo Ferreira, após a tentativa de desqualificar seu trabalho.

Veja as notas:

Miniatura de um governo
Sob pretexto de tratar da Segurança Pública de Alagoas, Renan Filho conseguiu converter numa miniatura o seu papel de governador do Estado. 

Sem respostas objetivas às perguntas feitas, lançou mão da pequena e velha prática da intimidação. Buscou desqualificar o jornalismo dos veículos da OAM e, ao mesmo tempo, atacar o jornalista Arnaldo Ferreira, que possui quarenta anos de jornalismo e respeitável passagem pela imprensa brasileira. 

Na democracia, a imprensa fiscaliza e exercita a crítica a quem controla o erário. Ao governante, resta explicar – sem álibi franzino. A sociedade sabe que, na vida real, os problemas na Educação, Saúde e Segurança, por exemplo, se avolumam cada vez mais e estão bem distantes do universo digital palaciano, já miniaturizado.

A OAM presta solidariedade ao seu profissional e vai prosseguir em sua jornada, defendendo o interesse público e prestando serviço ao cidadão.

Sindpol manifesta apoio ao jornalista, que foi ofendido pelo governador por questionar as precárias condições de trabalho dos PCs
O Sindicato dos Policiais Civis de Alagoas (Sindpol) manifesta apoio ao jornalista Arnaldo Ferreira, que foi ofendido pelo governador Renan Filho após questionar a situação precária de trabalho das delegacias, os problemas estruturais dos Centros Integrados de Segurança Pública (CISP) e o baixo efetivo da Polícia Civil. Ao invés de responder as perguntas, o governador preferiu atacar o jornalista, fazendo comparação com o governo passado.

O jornalista Arnaldo Ferreira apenas questionou o governador com a verdade, utilizando-se das denúncias do Sindpol, ao informar que o CISP precisava de reforma, que os policiais civis estão se aposentando e o efetivo é de 1600 profissionais. “Como resolver tantos problemas com pouco dinheiro”, perguntou o jornalista.

A diretoria do Sindpol informa que o trabalho da Polícia Civil reduziu os homicídios e os assaltos, mas o governador continua sem valorizar a categoria, devendo 16% de reposição salarial, colocando os policiais civis em delegacias com estrutura precária e insalubre.

Os números da redução da violência foram apresentados, na manhã desta segunda-feira (05), pelo governador Renan Filho e o secretário de Segurança Pública, Lima Júnior, durante entrevista coletiva realizada no Salão de Despachos do Palácio República dos Palmares.