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Irmãos Boiadeiro pegam mais de 100 anos por mortes na guerra entre clãs em Alagoas

Baixinho e Pretinho Boiadeiro pegam mais de 100 anos de prisão por 'guerra de clãs'

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Pé de Ferro, Baixinho e Pretinho Boiadeiro, no banco dos réus. Foto: Anderson Bambluck/Ascom MPAL

O Tribunal do Júri da 8ª Vara Criminal de Maceió (AL) condenou na madrugada de hoje (5) os “Irmãos Boiadeiro” a penas que somam mais de 100 anos de prisão pelos assassinatos de Samuel Theomar Bezerra Cavalcante Junior e Edivaldo Joaquim de Matos, além da tentativa de homicídio contra Theobaldo Cavalcante Lins Neto. Os crimes ocorreram em maio de 2006, em uma praça no município de Batalha (AL), após uma discussão em um bar, em um dos principais episódios da guerra entre os clãs Boiadeiro e Dantas, no Sertão de Alagoas.

O juiz titular John Silas da Silva decretou as prisões preventivas dos réus José Anselmo Cavalcanti de Melo, o “Pretinho Boiadeiro”, condenado a 58 anos e 4 meses de reclusão; José Márcio Cavalcanti de Melo, o “Baixinho Boiadeiro”, que pegou pena de 45 anos e 10 meses. Além dos irmãos Boiadeiro, Thiago Ferreira dos Santos, o “Pé de Ferro”, também foi condenado a 58 anos e 4 meses de pena. Todos os réus devem cumprir as penas em regime inicialmente fechado, no Presídio de Segurança Máxima do Estado de Alagoas.

As vítimas dos assassinatos eram mais que aliados da família Dantas, sendo Samuel Theomar Bezerra Cavalcante Júnior, cunhado do então prefeito Paulo Dantas, e o sargento reformado Edivaldo Joaquim de Matos, segurança do político que agora é deputado estadual de Alagoas. O sobrevivente Theobaldo Cavalcante Lins Neto é irmão da prefeita de Batalha, Marina Dantas (MDB), esposa de Paulo Dantas.

José Marcos Silvino dos Santos, vulgo “Tigrão”, e Emanuel Messias de Melo Araújo, o “Manuel Boiadeiro”, também eram acusados de participação desses crimes, mas foram mortos.

Sobrevivente Theobaldo Cavalcante Lins Neto depõe contra irmãos Boiadeiro durante Juri em Maceió. Foto: Dicom TJAL

Periculosidade

Ao fundamentar as prisões, o juiz John Silas destacou que testemunhas afirmaram temer por suas vidas, deixando claro que a família dos Boiadeiros é reconhecida amplamente por ser destemida e intimidadora.

“Mais que isso, Theobaldo Cavalcante Lins Neto, informa em seu depoimento que teme pela sua vida. Aos assombros de ameaças que se concretizaram, as pessoas atingidas pelos crimes cometidos pela Família Boiadeiro vivem amedrontadas e reclusas, como a própria vítima sobrevivente relata”, diz a sentença.

Durante o júri, o advogado dos réus, Raimundo Palmeira, tentou convencer os jurados de que os três acusados não participaram do crime. “O réu responsável pelo homicídio se apresentou, muito posteriormente, e confessou o crime. As testemunhas são praticamente unânimes em dizerem que estes réus não participaram da empreitada”, disse.

Segundo a denúncia do Ministério Público Estadual (MPE), Emanuel Messias de Melo Araújo, o Emanuel Boiadeiro (falecido), teria efetuado os disparos contra as três vítimas. Mas o promotor Antônio Villas Boas sustentou que todos são culpados.

A guerra no Sertão

Até se apresentar ontem para o julgamento, Baixinho Boiadeiro estava foragido desde que teve seu pai e vereador Adelmo Rodrigues de Melo, o “Neguinho Boiadeiro” (PSD), assassinado por pistoleiros em novembro de 2017. Logo após a morte do vereador na saída de uma sessão da Câmara de Batalha, Baixinho trocou tiros com José Emílio Dantas, tentado vingar a morte do pai, matando o integrante da família rival, pensando ter sido este o assassino do vereador Neguinho Boiadeiro.

A rixa entre os Dantas e os Boiadeiros tem origem no trucidamento do ex-prefeito do município José Rodrigues Dantas, conhecido como “Zé Miguel”, assassinado em 1999 com a esposa Matilde Tereza Toscano de Souza. Zé Emílio Dantas, que trocou tiros com Baixinho Boiadeiro, é filho de Zé Miguel.

E, pela morte do ex-prefeito Zé Miguel, a Justiça condenou o agropecuarista José Laelson Rodrigues de Melo, ‘Laércio Boiadeiro’, a 35 anos de prisão. Laércio é irmão de vereador assassinado Neguinho Boiadeiro.

Policiais ocuparam Batalha, após o assassinato de vereador Neguinho Boiadeiro. Foto: Blog do Paulo/Arquivo

Em dezembro de 2017, com Batalha sitiada por policiais, outro crime com características de pistolagem vitimou mais um vereador, Tony Carlos Silva de Medeiros, o “Tony Pretinho” (PR), assassinato do qual Baixinho Boiadeiro foi acusado de cometer e estava foragido.

Após a morte do vereador Neguinho Boiadeiro, Baixinho Boiadeiro e sua família acusaram a família Dantas de matar o rival, pela suposta motivação de abafar a denúncia de ilegalidades cometidas na Assembleia Legislativa de Alagoas, então presidida por Luiz Dantas (MDB-AL), pai de Paulo Dantas. O deputado e ex-prefeito apresentou queixa-crime contra as acusações de Baixinho.

As denúncias dos Boiadeiro não foram reconhecidas pela Polícia Civil como elementos de prova para mudar os rumos da investigação, que isentou a família Dantas do suposto envolvimento nas mortes dos vereadores de Batalha. Mas foram estopim para a Operação Malacafa, que apurou denúncias de Baixinho Boiadeiro sobre funcionários fantasmas ligados aos Dantas na Assembleia Legislativa.

Quem comanda Batalha, atualmente, é a família Dantas, após serem eleitos no pleito de 2016, marcado pelo pedido da Justiça Eleitoral local pela presença do Exército no dia da votação. (Com informações da Dicom TJAL)