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Impunidade

Estado de Alagoas perdeu interesse em elucidar morte de fazendeiro em Murici

Família cita caso Marielle e critica falta de respostas após quase dois anos do crime

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Um crime hediondo ocorrido há quase dois anos no reduto eleitoral do clã Calheiros segue sem respostas no Estado de Alagoas, que perdeu o interesse em elucidar o desaparecimento e morte do agropecuarista Cristóvão Rodrigues da Silva, aos 61 anos de idade, em 03 de agosto de 2017, ao sair de sua propriedade em Murici (AL). A percepção da sociedade alagoana sobre o caso de impunidade é a mesma exposta ontem (9) pelo filho da vítima, Cristiano Cristóvão e pelo advogado Thiago Pinheiro, contratado pela família da vítima para atuar como assistente de acusação no processo.

O fazendeiro foi encontrado carbonizado dentro de um carro, em um canavial do Pilar (AL), com o crânio perfurado a bala, em 27 de dezembro de 2017.A Polícia Civil chegou a anunciar que o caso havia sido elucidado, no início de 2018. Mas o crime já foi investigado por duas comissões especiais de delegados e a compreensão de impunidade e desinteresse do Estado exposta assistente de acusação tem fundamento na total falta de informações que deveriam ser repassadas aos parentes e na demora em se descobrir a autoria do crime de ampla repercussão.

“É um crime cercado de mistério no qual todos os órgãos e cúpulas do Estado anunciaram resolução, porém, não não capazes de concluí-lo até o momento”, lamentou Pinheiro.

A família do fazendeiro provocou os membros do Conselho Estadual de Segurança Pública (Conseg), de maneira oficial, há cerca de dois meses, para cobrar da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP) a conclusão do inquérito o mais breve possível, com a consequente revelação da autoria material e intelectual. No entanto, nenhum retorno foi dado.

“O inquérito policial em aberto indefinidamente é um caixão que não se fecha. Ou se arquiva e se reconhece incapaz de declarar motivo e autores ou se aponta e passa o caso ao Ministério Público e Poder Judiciário. Como nem um nem outro passo foi dado, a situação indefinida só faz realimentar a dor, angústia e desconfiança da família sobre o trabalho das autoridades competentes”, critica o advogado.

O filho da vítima, Cristiano Cristóvão, reforça a tese de que o poder público parece ter perdido o interesse pelo caso e faz uma comparação com os mecanismos que levaram a polícia a encontrar os suspeitos de matar a vereadora pelo Rio de Janeiro, Marielle Franco, e do motorista dela, Anderson Gomes. Com o uso de tecnologia avançada na investigação foi possível rastrear o sinal emitido pelos aparelhos celulares até o histórico de buscas na internet de pessoas que estavam no raio próximo de onde o crime aconteceu.

“A última vez que meu pai foi visto, na saída da fazenda, em Murici, tinha uma quantidade de pessoas no entorno. O município tem 10 mil habitantes, mas próximo do local do desaparecimento transitavam menos pessoas. Com tecnologia, seria possível rastrear os aparelhos celulares, assim como a polícia fez no caso Marielle. O que a gente da família percebe não é falta de mecanismos, mas uma total falta de interesse no caso”, condenou Cristiano.

Ele diz que, com a mudança na comissão de delegados que apura o crime, no ano passado, os parentes de Cristóvão foram chamados duas vezes pela polícia e outras duas oportunidades receberam ligações das autoridades policiais em busca de informações complementares. “Os delegados são cordiais, mas não nos apresentam resultados. O inquérito deve estar sem movimentação há bastante tempo”, acredita Cristiano Cristóvão.

A caminhonete em que a vítima estava foi flagrada por câmeras de segurança na saída de Murici, sentido Maceió. O corpo dele foi localizado com alguns pertences, em um veículo carbonizado que estava em canavial próximo da Usina Terra Nova, no Pilar (AL). Exames periciais confirmaram, posteriormente, que os restos mortais eram da vítima.

A primeira comissão foi designada para apurar o caso ainda quando o fazendeiro estava desaparecido, já em agosto de 2017, e era composta pelos delegados Mário Jorge Barros, Guilherme Iusten e Vinicius Ferrari. A outra comissão de delegados que ainda atua no caso é presidida pelo delegado Thiago Prado, com quem o Diário do Poder não conseguiu contato. (Com informações da assessoria de imprensa da família da vítima)