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R$1,9 mil por voto

Alagoana do PSD recebeu R$ 450 mil e obteve 233 votos para a Câmara Federal

Tida do Brejinho gastou R$272 mil com material gráfico e R$100 mil com advogado

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Maria Aparecida Lisboa, a Tida do Brejinho, foi candidata do PSD à Câmara Federal em Alagoas. Foto: Divulgação/Facebook

O investimento de quase meio milhão de reais na campanha de uma dona de casa sertaneja que obteve 233 votos para deputada federal em Alagoas integra a lista de histórias de candidatos que receberam grandes volumes de dinheiro e desempenho pífio nas urnas, em 2018. Maria Aparecida Lisboa, conhecida como Tida do Brejinho, foi a única candidata do PSD à Câmara Federal em Alagoas, ao lado do deputado federal reeleito Marx Beltrão, ex-ministro do Turismo.

A candidata natural de São José da Tapera (AL) recebeu R$ 450 mil do Fundo Especial Eleitoral do Diretório do PSD de Alagoas e cada voto custou ao contribuinte mais de R$ 1.900,00. O volume é imenso, se comparado ao custo da eleição de Marx Beltrão, que usou R$ 7,52 dos cofres públicos por voto recebido, com base na prestação de contas oficial da campanha.

A candidata gastou R$ 192,9 mil com a Gráfica Santana, registrados na prestação de contas como investidos na produção de adesivos de vinil e de papel e santinhos e praguinhas, liquidados em 17 de setembro. No mesmo dia pagou R$ 30 mil à Proimagem Comunicação Visual LTDA por adesivos perfurados.

Apenas dez dias depois do investimento, a candidata registrou outro pagamento de mais R$ 50 mil, para comprar mais adesivos, santinhos e praguinhas, expondo indícios de que estaria à frente de uma campanha de dimensão inversamente proporcional ao resultado colhido nas urnas.

A candidata ainda pagou R$ 13,5 mil com aluguel de veículos e R$ 2,5 mil com gasolina e óleo diesel.

O gasto com material gráfico representa quase um terço do valor investido pelo colega de partido Marx Beltrão, que se elegeu com mais de 139 mil votos. Mas os custos da campanha da candidata Tida se igualam aos do parlamentar com a terceira maior votação de Alagoas, quando se trata de assessoria jurídica e contábil. A candidata pagou os mesmos R$ 160 mil custeados pela campanha de Marx com os mesmos fornecedores nessa área: R$ 100 mil para o advogado Claudemir Lins Fonseca e R$ 60 mil para a empresa Controla Contadores Associados LTDA.

A situação se assemelha com a polêmica que abriu uma crise entre o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, no governo de Jair Bolsonaro (PSL), após a revelação de que Maria de Lourdes Paixão, secretária administrativa do PSL de Pernambuco, recebeu R$ 400 mil para a campanha para deputada federal e teve apenas 273 votos. As suspeitas são de que as candidaturas seriam “laranjas”.

O Diário do Poder não obteve respostas à tentativa de contato com Tida do Brejinho, para saber se ela realmente utilizou o material pago na disputa e se teria imagens de sua campanha nas ruas.

‘Legislação obrigou’

O PSD de Alagoas é presidido pelo irmão de Marx, o ex-prefeito de Feliz Deserto Maikon Beltrão. E emitiu a seguinte nota sobre o assunto:

O PSD de Alagoas informa que a distribuição de recursos financeiros obedeceu aos critérios legais, especialmente, neste caso, os referentes à questão de gênero em atendimento aos programas de incentivo à participação política das mulheres, preconizados pela legislação eleitoral vigente.

Neste sentido, 30% dos valores recebidos em Alagoas deveriam ser destinados a candidatas mulheres. E como o partido somente registrou 1 (uma) candidata a deputada federal, 30% do montante repassado pela legenda foi destinado a esta candidata, que é a senhora Maria Aparecida Lisboa (Tida do Brejinho).

Só mais uma

Tida do Brejinho foi citada em levantamento da Folha sobre candidatos com votações inexpressivas que receberam ao menos R$ 15 milhões em dinheiro público dos fundos partidário e eleitoral. Foram listados 53 postulantes de 14 partidos com menos de mil votos nas urnas e mais de R$ 100 mil nas prestações de contas. E os casos mais comuns foram registrados no Pros, PRB, PR, PSD e MDB. E a maioria, 49 são mulheres, reforçando a suspeita da continuidade da prática de ocupar a cota obrigatória de candidaturas femininas como “laranjas”.

Mas também aparecem na lista Débora Ribeiro (Pros-CE), candidata a deputada estadual que recebeu R$ 274 mil para campanha, contratou 122 pessoas, com pagamentos de R$ 300 a R$ 10 mil, e obteve apenas 47 votos. Débora é cunhada do deputado federal Vaidon Oliveira (Pros-CE).