Pelé

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Muito, ou talvez tudo já se falou sobre Edson Arantes do Nascimento, alter ego de Pelé, provavelmente a pessoa e a marca mais conhecida no mundo todo.

Na China é mais conhecida que MacDonald’s ou CocaCola. No Canadá, quando dos jogos Pan Americanos de Winnipeg, em 1999, perguntaram a um menininho de 7 anos, porque ele havia se inscrito como voluntário para ser pegador de bolas no campeonato de tênis e ele respondeu “que ele queria um dia ser tão bom como Michel Jordan, Cassius Clay e Pelé”, isso num país que não cultivava o futebol e que um dos ídolos ele nunca havia visto em atuação, pois havia parado de jogar em 1977, 22 anos antes e não pertencia ao universo da América do Norte, como Clay e Jordan.

Dono de compleição física próxima da perfeição, de movimentação instintual primitiva, de agilidade felina, com visão periférica eficiente e um extraordinário dom para o esporte, não foi à toa que em 1980, o jornal frances LÉquipe, elegeu Pelé o Atleta do Século, superando lendas como Jesse Owens, Eddy Merckx, Mark Spitz e Muhamad Ali. Essa vitória (mais uma) foi consequência de uma votação realizada entre jornalistas especializados dos vinte maiores jornais esportivos do mundo.

Essas habilidades, entre outras, permitiam a Pelé correr, com chuteiras, 100 metros rasos em menos de 12 segundos e saltar, a partir d a inércia, a própria altura. Uma foto em um jogo entre Santos e Botafogo na década de 60, do século passado, mostra Pelé e o goleiro Manga do Botafogo, ambos em pleno salto. Pelé cabeceando a bola e Manga com as duas mãos em seu peito. O detalhe é que Manga media 1,88 cm e era quase 20 cm mais alto que os controversos 1,70 cm de Pelé (controversos pois algumas medições apontaram 1,68 cm).

Em várias ocasiões estas diferenças de altura se tornaram irrelevantes, como na final de 1970, quando Pelé fez o primeiro gol brasileiro, subindo para cabecear e ganhando no impulso de Giacinto Facchetti, o lateral esquerdo italiano com seus 1,91 cm de altura.

Porém outras diferenças marcaram a vida dessa extraordinária pessoa. Provavelmente a principal foi a que exigia sua participação na vida política e social do país.

“Ö que queriam de mim? Eu sou um homem comum com um dom para jogar futebol”, já disse Pelé. Todos os governos, na ditadura e na democracia, nos espectros da direita ou da esquerda, se aproveitaram de sua presença e carisma. Mas não de sua participação. Nunca se filiou a nenhum partido ou ideologia. Sua participação em governos foi marcante em duas situações: quando fez propagandas em campanhas do Ministério da Saúde – vacinação e contra AIDS, por exemplo, e quando foi, por três anos, Ministro dos Esportes de Fernando Henrique Cardoso e conseguiu aprovar a Lei Pelé, que contra o lobby do Clube dos Treze e da FIFA, garantiu direitos trabalhistas aos jogadores e extinguiu a famigerada e escravagista figura do passe, que prendia indefinidamente os jogadores a seus clubes.

É bom lembrar que dentre suas declarações públicas sobre questões sociais, aquela feita por ocasião do milésimo gol, há 53 anos, permanece atual: “lembrem-se das criancinhas, cuidem delas”. Soa como grito autobiográfico, prospectivo e abrangente no tempo e espaço.

Pelé participou e foi (é, para sempre) ícone da Seleção do Tri, aquela que no dizer de Nick Hornby, no livro Febre de bola “estragou tudo para todos nós” pois alcançou o ideal de vencer com arte, unindo técnica com estética, na mais perfeita concepção de ética concentrada: a reunião da ética da responsabilidade com a ética da convicção. O coletivo e o individual se complementando a tal ponto que numa seleção brasileira estavam os jogadores que portavam os números 10 nas camisas dos respectivos clubes aonde atuavam: Jairzinho, no Botafogo; Gerson, no São Paulo; Tostão. No Cruzeiro e Vasco; Pelé, no Santos e Rivelino, no Corinthians.

Nunca se viu e provavelmente jamais se verá outra concentração de craques num único time, como neste. Rememorando Armando Nogueira: “Bom jogador é aquele que vê a jogada. Craque é o que antevê”. Sempre é interessante lembrar que essa é a única seleção, de qualquer país, em toda história das 22 copas do mundo, que venceu todos os jogos, tanto os fase eliminatória (seis jogos contra Colômbia, Venezuela e Paraguai) como os seis da fase final (Tchecoslováquia, Inglaterra, Romênia, Peru, Uruguai e Itália) .

Pelé foi acusado de ser submisso a brancos e a governos. Nada disso, Pelé é sobreisso. Paira como entidade, sobre tudo e sobre todos.

Um rei une um país, como na Espanha e na Inglaterra. Um deus une nações como no islamismo, cristianismo ou budismo. Uma entidade une gente, pessoas de nações diferentes, raças diversas, religiões distintas e ideologias inconciliáveis.

Alguma duvida sobre o que é Pelé?

Sylvain Levy é Psicanalista, Membro Associado da Sociedade de Psicanálise de Brasília.
Cid Pimentel é pesquisador e consultor da FSP/USP, de Bauru.