Silvia Caetano

Os riscos da União Europeia

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Lisboa – Criada como um projeto de união, defesa dos direitos humanos, paz e prosperidade, a União Europeia poderá sair da crise do coronavírus desfigurada, despedaçada e até mesmo perder a razão de ser. O risco decorre da disputa em curso entre países ricos do Norte e os do Sul, mais afetados pela pandemia. Caso o Sul perca, o ônus deve ser cobrado à Alemanha, Áustria, Finlândia e, principalmente, à Holanda.

Os quatro recusam-se a aceitar que a mutualização da dívida europeia, o chamado eurobonds, faça parte do esforço para mitigar o impacto econômico do vírus. A denominação é utilizada para se referir à possibilidade de existir uma única entidade que administre e emita a dívida pública comum da zona euro, o que assegura que a dívida de cada Estado seja também garantida pelos demais. Eles sugerem outras medidas financeiras as quais,devido à dimensão dos estragos,são consideradas insuficientes.

A falta de sensibilidade destes países chama-se ganância. Eles não aceitam que os Estados membros possam receber o que necessitam para minimizar os efeitos das perdas econômicas na zona euro, sendo solidários nas dívidas de todos. Não é de estranhar. Normalmente,a maioria dos  que acumulam dinheiro e bens materiais costuma pensar primeiro em si própria.

O caldo entornou quando o ministro holandês das Finanças, Wopkke Hoekstra, defendeu que a Comissão Europeia deveria investigar a Espanha e a Itália, ambos com mais de 10 mil mortes causadas pela coronavírus, por não terem acumulado margem orçamental capaz de responder ao impacto econômico da pandemia. O sangue subiu à cabeça do Primeiro Ministro de Portugal, Antonio Costa, que saltou nas tamancas e chamou seu discurso de repugnante.

Foi bem dito. Esta não é a Alemanha, a Finlândia ou a Holanda dos pioneiros da União Europeia. Os alemães Konrad Adenauer,Helmut Kohl e Ursula Hirschmann, a finlandesa Nicole Fontaine,primeira mulher a ocupar a Presidência do Parlamento Europeu,e a cientista holandesa e antifascista Marga Klompé,devem estar aos saltos nos seus túmulos renegando seus compatriotas.

Aliás, esta não é a primeira vez que a Holanda se insurge contra os países mais pobres do Sul. Quando estavam sob o tacão da austeridade imposta pela troika, o então ministro das Finanças holandês, Jeroen Dijsselbloem, acusou os europeus sulistas de gastarem dinheiro com bebidas e mulheres e depois pedirem ajuda aos outros Estados.

Também naquela ocasião, Antonio Costa, dos mais aguerridos da União Europeia, reagiu violentamente, pedindo seu afastamento do Euro grupo, hoje, ironicamente, liderado pelo português Mario Centeno. É preciso também não esquecer o que os ricos do Norte fizeram com a Grécia na época das políticas de austeridade. A Grécia queria o eurobonds para salvar-se e, sem nenhum em caixa, foi colocada de joelhos pela Alemanha e pela Holanda.

Mas nem tudo parece perdido. Alguns banqueiros holandeses ficaram contra Hoekstra. O mesmo fizeram os dois partidos da coligação liderada pelos liberais do Primeiro Ministro, Mark Rutte, que querem ajudar à Itália a Espanha. Para reforçar esta posição, doze importantes políticos italianos publicaram uma carta no diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, apelando aos eurobonds e acusando a Holanda de falta de ética e de egoísmo mesquinho.

São exatamente posições como a da Holanda que tem aberto à porta aos populistas nacionalistas na Europa, sobretudo desde a crise de 2008. Em 2017, o partido de Geert Wilders,da extrema direita,tornou-se o segundo maior no Parlamento dos Países Baixos.Uma das suas expressões, Thierry Baudet, foi eleito para a Câmara Alta em março passado com a bandeira” Dutch First”,contra os imigrantes, a Europa e o euro.Não será surpresa se quiserem fazer Dutchbrexit.

A União Europeia precisa resgatar seus princípios originais, caso contrário será difícil manter no mesmo clube países com posições tão antagônicas. As lideranças mais responsáveis  da Europa atuam para evitar o pior. A questão ultrapassa em muito a disputa entres Estados ricos e pobres. Interessa e reflete-se sobre  um  Continente que vive em paz e com prosperidade desde o final da II Guerra.Espera-se que na próxima reunião do Eurogrupo,no dia 7 de abril,prevaleçam os melhores.