Nunc et in hora: Todos os Santos e Finados

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A Eternidade é dimensão fora do tempo e espaço. Santificados na morte e pela morte, os falecidos estão presentes, há milênios, em orações e celebrações judaicas e cristãs.

Sacramentários dos primeiros séculos do Cristianismo atestam missas pelos defuntos. E não para ou aos defuntos, como confundem alguns. Os falecidos seguem presentes até hoje no memento dos mortos, oração de toda missa: Lembrai-vos de nossos irmãos que partiram desta vida…

A liturgia cristã logo se interessou pela lembrança nominal de cada falecido, além desse memento geral. Desde o século VII, na Irlanda e outras regiões, escreviam-se os nomes dos mortos em rolos. Eles circulavam entre mosteiros e comunidades, numa época de limitados meios de comunicação. Assim se inteiravam do falecimento de lideranças religiosas e rezavam por sua intenção, fora da data de suas mortes.

Na época carolíngia (séc. VIII a X), havia longos registros de vivos e mortos lembrados nas missas, próprios a cada comunidade ou ordem religiosa. Eram chamados: livros da vida, libri vitae. E tomaram o lugar dos antigos dípticos, tabuinhas de cera com nomes dos doadores de oferendas.

Logo, os mortos se separaram dos vivos. Surgiram necrologias (lidas nos ofícios) e obituários (menção de serviços ou obras de misericórdia dos defuntos em suas datas). Passou-se claramente das menções globais aos nomes individuais. Os libri memorialis carolíngios contém de 15.000 a 40.000 nomes. A necrologia da Abadia de Cluny (França) mencionava de 40 a 50 nomes por dia. A lembrança litúrgica estava garantida aos mortos ali inscritos nominalmente. O tempo da morte individual se impôs no registro mortuário.

Havia um caráter elitista nessa união de vivos com mortos, pois dizia respeito aos dirigentes. A universalização do cuidado devido aos mortos ocorreu no século XI (entre 1024-33), quando Cluny instituiu a comemoração de Todos os Mortos (2/11), em contato com a de Todos os Santos, na véspera. Estendeu-se à totalidade dos mortos, conhecidos ou não, de forma solene e uma vez ao ano, essa atenção litúrgica.

Com o prestígio da Ordem, a Festa dos Mortos logo passou a ser celebrada em todo o mundo cristão. E estendeu-se ao pagão, ordenando tradições e comemorações dedicadas aos mortos, como no México, por exemplo. Criou-se um vínculo suplementar entre vivos e mortos, além da lembrança individual ou coletiva da data de seu falecimento.

Finados é dia de Iluminação, junto a Todos os Santos. Avós, pais, irmãos, esposos ou amigos falecidos iluminaram muitas vidas. Sua luz não se apagou. Suas obras e exemplos são luzes num mundo de trevas. Os cristãos não estão em comunicação com os mortos e sim em comunhão com os santos. Rezam com eles. Não adoram santos. Os santos são venerados.

Os cristãos lembram suas vidas, exemplos e buscam imitar sua fé. Oram com eles e esperam, um dia, orar como eles, na Eternidade. Está recomendado na Bíblia: Lembrai-vos dos vossos santos, vossos guias… que vos ensinaram a Palavra de Deus. Considerai como viveram. Considerai como morreram e imitai-lhes a fé (Hb 13,7).

Inseridos na cascata de antepassados, no Finados, os descendentes conscientes depositam flores em sepulturas, acendem velas, participam de orações, fazem um instante de silêncio, comprometidos de viver em comunhão, perdoar e construir a paz, agora e na hora da morte. Nunc et in hora. Amém.

Omnium Sanctorum, 1/11/2023