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Especialista em levar crianças para escola

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Acho que sou mãe desde os sete anos de idade. Minha mãe sempre trabalhou fora e quando minha irmã nasceu, não tínhamos dinheiro para pagar uma babá. Então, adivinhem quem cuidava da criança? A irmã mais velha. Não vou dizer que era fácil, mas me sentia parte daquela família, nada normal.

Trocar fraldas passa depressa, mas logo começou a labuta de levar e buscar na escola. Morávamos na periferia de Brasília e minha mãe resolveu nos colocar em uma escola no Núcleo Bandeirante, que tinha uma estrutura um pouco melhor. Saímos de casa de madrugada, pegávamos o ônibus lotado para chegarmos ao colégio. Primeiro deixava minha irmã na escola e depois caminhava até o Sapão (apelido do meu colégio). Não era muito perto, mas sempre encontrava umas amigas no caminho e uns meninos bonitinhos que já começavam a trocar olhares com as jovens adolescentes.

A saga da escola começou quando minha irmã tinha uns cinco anos. A nossa diferença é de sete anos. Então, eu deveria ter uns 12 anos na época. Se o caso fosse hoje, teria virado matéria de tv ou uma denúncia no conselho tutelar, mas ainda bem que na época era bem comum e deu tudo certo. Essa novela durou até os meus 17 anos, quando terminei o ensino médio. Nunca tive tempo de ficar na porta da escola batendo papo. Tinha que buscar a “magrela”. Confesso que a coitada sofreu, tinha dias que atrasava até uma hora. Ficava de papo com as amigas na porta do colégio. Tempo bom!

Quando fui para a faculdade, ela já estava maior e mudamos para mais perto. O que facilitou muito a vida. Tive um breve tempo, sem ter que levar ninguém para escola, afinal, aos 21 anos, me tornei mãe e, aos 22 anos, retomei a saga de levar uma criatura para escola.  Leva menino para escola, vai para faculdade, pega na escola, deixa em casa, vai para o estágio, busca em casa, leva para o judô.

Depois que o Rapha terminou o ensino infantil, inventei de colocar em uma escola longe de casa, várias amigas matriculou os filhos e mãe acredita em opinião de mãe. E lá vamos nós para mais uma luta: acorda de madrugada, leva para escola, vai para trabalho, busca na hora do almoço.

E logo a madame Ester chegou e na escola do Rapha não aceitava a pequena. Começou o pinga-pinga. Detalhe: um entravava mais cedo. Alguém sempre reclamava que estava sendo prejudicado, mas ninguém lembra da mãe que leva menino na escola há séculos.

Finalmente, chegou os 18 anos do meu garoto, mas alegria de pobre dura pouco. Rapha falou que não queria dirigir, que carro é trabalhoso, polui o meio ambiente, gasolina é caro. Quase tive um infarto. Como assim não vai dirigir? Depois de muito luta, resolveu tirar a bendita habilitação, mas a pandemia estava no auge e o Detran com os processos enrolados. Afinal, tudo tinha mudado.  Depois de escutar dezenas de vezes que ele estava sendo obrigado a tirar carteira de motorista, passou na prova. Estava habilitado.

Agora só preciso levar a Ester para a escola por mais uns 10 anos e finalmente a saga de levar crianças para escola termina. Bem, um dia serei avó e a saga deve ser retomada. Sabe por que estou contando isso? Dia desses, me perguntaram se quero ter mais filhos, expliquei que não queria porque a única coisa que vou ter feito na vida é levar menino para escola. Faço isso há mais de 30 anos. Acho que sou especialista em levar crianças para escola! Feliz dia das mães para todas doutoras em levar “menino” para escola.

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