Cercados. Encurralados.

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Cercados. Dentro e fora de casa. O momento esquisito é geral, bem sei. Mas o pior é também o que acontece bem perto, ao nosso redor, na nossa cidade, rua, vila, bairro. Os perigos e perrengues que enfrentamos e que nos fazem quase paranoicos em cuidados o tempo inteiro.

À esta altura do dia, nem meio da tarde, já contei mais de 30 e-mails com pegadinhas variadas. Umas mensagens tentam que eu pague contas com boletos falsos. Outras me dizem que ganhei prêmios e benefícios, mas já vivi para aprender que bancos, ora, não dão nada para ninguém e que só avisam sinistros como “você entrou no limite” …, via SMS. A propósito, não aguento as novas mensagens que inventaram, verdadeiras, aliás: “Boa Notícia! O pagamento do seu boleto tal foi realizado com sucesso!”. Boa Notícia? Para quem, pessoa? Para isso que você tem banco e agenda os pagamentos, não é mesmo?

Todo mês e há anos recebo cobrança de um IPTU lá de Recife, de um lugar onde nem sei, chamado Bairro Mostardinha, que devia ir para uma pessoa que está com um dívida e tanto, e que obviamente não sou eu, que nada tenho por lá. E uma conta de gás de outra pessoa que também não sou eu. Já tentei avisar que não sou eu, mas claro que não consegui qualquer canal.

Pergunto: quem fornece os nossos dados? De onde vêm? Muitos usam até o nome completo que raramente uso. Quem vende essas listas?

Chega tudo quanto é tipo de jogo, essas tais estranhíssimas bets que invadem o mercado, tigrinhos, oferecendo maravilhas e até dizendo que já tenho um crédito, basta que confirme a conta. Fora os terroristas: seu e-mail foi bloqueado!

Você entrou no limite, clique aqui, de contas em bancos nos quais você não tem qualquer operação. Comprou algo caríssimo que precisa “confirmar”.  Que pontos expiraram. Que pontos? Se você se distrai, pumba, te pegam.

Fora a mais de uma centena de mensagens diárias que precisam ser apagadas, um inferno que contém o que os subsubsub celebridades andam fazendo com suas caras, bundas, bocas, costelas, amores, que cremes usam, que roupas vestiram com seus recebidinhos. E a onda de Sugar BabiesDaddys, os que se dão bem, e os que sustentam? Eu lá quero saber isso?

É muito tenso dar atenção a tudo o tempo inteiro. Não clique ali, não responda, bloqueie. Vai uma energia e tanto. Nunca os golpistas, estelionatários e afins tiveram tanta facilidade para roubar, extorquir, e de longe, de alguma sombra confortável.

Aí você sai de casa para tomar um ar. Por aqui até isso: andei um tempo com medo de pegar o elevador que deu vários chabus deixando vizinhos presos por horas até vir o salvamento por uma empresa que agora, graças, foi trocada. Escadas, lá vou!

Moro num lugar legal, mas por ser legal, digamos, creio que por aqui há muito não há fiscalização. Séria, não. Restaurantes instalam mesas, cadeiras, poltronas, vasos, agora também cavaletes com cardápios, deixando um espaço cada vez menor para os pedestres passarem. Os pés das árvores cercados de lixo (#arvoreNãoÉLixeira!). Pelo menos umas quatro grandes aqui perto morreram – e não foi por falta de denúncias no tal 156. Todas sem qualquer resposta recebida.

Você vai atravessar a rua. Na faixa de pedestres. Cuidado!!! O ciclista maluco quase te atropela, vindo na contramão. Os motoqueiros de aplicativos – será que são todos daltônicos? – não respeitam o farol vermelho e passam zunindo. Se reclama, ainda é xingado. Ah, não são só eles que podem te atropelar. Aparecem sempre desesperados por um segundo a mais que avançam no amarelo avermelhando.

Você anda mais um pouquinho: o cara vem vindo com a fuça enfiada no celular e acha que é você quem tem de desviar. Faltaram naquela aula básica de física: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço e ao mesmo tempo, o princípio da impenetrabilidade da matéria.  Está mesmo bem difícil não arrumar uma treta por aí.

Viram? Nem falei da violência, da tristeza de ver tanta gente pedindo comida ou dormindo nas ruas. Da insanidade do trânsito, das brigas por nada que acabam em mortes, das notícias cada vez mais esquisitas que chegam. Das calçadas além de tudo esburacadas que já me fizeram dar duas estabacadas no chão recentemente.

E olha, como disse, moro num lugar legal. Imagine se não.

Marli Gonçalves – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br marli@brickmann.com.br