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Alcoolismo cresce e precisamos agir

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A pandemia não trouxe apenas a perda de entes queridos, restrições econômicas e sociais. Na esteira dos últimos dois anos de tensão e de uma nova rotina forçada, nos deparamos com um problema gravíssimo que foi ganhando proporções assustadoras: o aumento do consumo de álcool no país. Homens e mulheres passaram a beber mais como resultado de quadros de ansiedade que se agravaram na prolongada pandemia. Nesta semana, quando lembramos o dia 20 de fevereiro como Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, nos deparamos com números preocupantes.

Uma pesquisa da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) em 33 países da América Latina e do Caribe apontou que 74% dos brasileiros entrevistados beberam durante a pandemia, e 42% beberam de forma pesada. Os quadros de ansiedade aumentam em mais de 70% as chances de que as pessoas bebam mais e não busquem ajuda.

O alcoolismo sempre foi uma questão de saúde pública a ser enfrentada com firmeza e ação governamental. Não escolhe condição social, raça nem cor. A história nos mostra que o abuso de álcool e drogas tende a crescer substancialmente após catástrofes globais, como guerras e crises sanitárias como a enfrentada hoje. Quem de nós não conhece um caso de alguém próximo envolvendo alcoolismo? E as duras batalhas que os familiares enfrentam para salvar o dependente do vício, o sofrimento, o preconceito, perda do emprego, dos amigos, da dignidade?

Convivemos com os tristes relatos daqueles que concordam em buscar ajuda, após admitir o vício, mas nos deparamos a partir daí com outro obstáculo: a dificuldade do dependente em obter tratamento psiquiátrico e acesso a medicamentos no sistema público. Clínicas especializadas e particulares restringem o atendimento apenas àqueles que têm condições financeiras de arcar com os altos custos de um atendimento contínuo.

Considero urgente que todas as esferas de governo adotem medidas eficazes para ampliar a rede de apoio a essas pessoas no sistema público de saúde. A União, estados e prefeituras precisam reservar parte do orçamento para o financiamento de vagas em comunidades terapêuticas, instituições que acolhem pessoas que buscam voluntariamente se recuperar da dependência química. Elas utilizam como tratamento atividades laborais, esportivas, recreativas, oficinas profissionalizantes e oferecem acolhimento psicológico e espiritual.

Atualmente, o governo Federal está custeando mais 17 mil vagas nessas comunidades, mas o número é ínfimo diante dos 4 milhões de alcóolatras existentes no Brasil, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Ainda mais se levarmos em conta que 85 mil mortes por ano no país são atribuídas ao consumo de álcool.

Investir na prevenção também é essencial. A adolescência é uma fase em que o jovem é muito influenciado pelo grupo no qual está inserido e nesse contexto, o papel da família na prevenção ganha cada vez mais destaque. A prevenção do abuso de bebidas alcóolicas deve começar cedo, por volta dos sete ou oito anos de idade porque nessa faixa etária, as crianças ainda ouvem os pais. Já na fase da pré-adolescência, os amigos são os principais influenciadores e o jovem tende a ignorar os conselhos dos pais.

A família, no entanto, não deve ser a única a assumir tal responsabilidade. Através das escolas, o poder público tem obrigação de reforçar as campanhas de conscientização e alertar os estudantes sobre os riscos para saúde e segurança provocados pelo álcool.

Apenas uma somatória de ações de controle, prevenção e tratamento podem representar um enfrentamento real a esse grave problema. Algumas soluções seriam os internamentos gratuitos para desintoxicação, recursos para políticas públicas de prevenção, redução de impostos sobre medicamentos para diminuir a compulsão pela bebida e o aprimoramento da legislação sobre álcool e tabaco, principalmente no que se refere à regulação de horário, locais de venda, publicidade e consumo.

Precisamos de ações concretas no sentido de mobilizar instituições e entidades federais, estaduais e municipais, Unidades Básicas de Saúde, Ambulatórios, CAPS, comunidades terapêuticas, hospitais gerais, hospitais psiquiátricos, clínicas especializadas, casas de apoio e grupos de mútua ajuda. Alcoolismo é doença e temos o desafio de reduzir o triste cenário que contribui para mais de 300 mil mortes anuais nas Américas. A maioria dessas mortes (64%) atinge pessoas com menos de 60 anos. Já é hora de dar um basta nessas estatísticas.

Milena Câmara é advogada especializada em Direito Criminal e Gestão Pública.

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