Mantega mantém em conselho ex-assessor afastado por corrupção

Mantega mantém em conselho ex-assessor acusado de receber propina

Afastado do cargo há três meses, suspeito de receber propina de uma empresa de comunicação, o ex-chefe de gabinete do ministro Guido Mantega (Fazenda), Marcelo Estrela Fiche, mantém cadeira em conselhos de administração de uma subsidiária do Banco do Brasil, com remuneração mensal de R$ 13,2 mil. A informação é dos repórteres Fábio Fabrini e Adriana Fernandes, do jornal O Estado de S. Paulo.

O ex-chefe de gabinete foi indicado pelo banco estatal para integrar os conselhos de administração da BB & Mapfre – maior empresa de seguros da América Latina, criada pela união do BB com o grupo de origem espanhola. Iniciado em 2012, o mandato dele termina em setembro e poderá ser renovado por mais dois anos.

Na função de conselheiro, Fiche define os planos, monitora o desempenho da empresa e dos seus executivos, além de aprovar balanços. O grupo administra R$ 10 bilhões em prêmios de seguros e tem no comando alguns dos principais nomes do governo.

Em novembro, após as denúncias contra Fiche, a Fazenda abriu sindicância, ainda em curso, para apurar o suposto esquema de cobrança de propina na pasta. A Polícia Federal também investiga o caso em inquérito tocado pela superintendência no Distrito Federal.

Segundo reportagem da revista Época, a secretária Anne Paiva, funcionária da empresa Partners, que prestava serviços de comunicação para a Fazenda, contou ter sacado R$ 20 mil de sua conta e repassado o dinheiro para Fiche na sede do ministério. Conforme o relato, a funcionária teria pago propina em outras ocasiões ao chefe de gabinete e também ao seu substituto no cargo, Humberto Alencar, que era fiscal do contrato. Os dois negam.

Mantega determinou a abertura da investigação interna e pediu à PF que apurasse as denúncias que atingiam o seu assessor direto e colaborador havia sete anos. Fiche e Humberto pediram demissão 15 dias depois. Em carta, o chefe de gabinete disse que a decisão era para que as apurações pudessem ser conduzidas com “celeridade” e “tranquilidade”.

O Planalto, nos bastidores, trabalhou para o pedido de demissão, temendo que o escândalo fustigasse a imagem de Mantega. Após a exoneração, Fiche, que é servidor de carreira, pediu licença para terminar um doutorado na Universidade de Brasília (UnB).

Na subsidiária do BB, Fiche é um dos oito integrantes dos conselhos de administração, ao lado do presidente do banco, Aldemir Bendine. São dois conselhos, de composição idêntica, cada um responsável por uma holding do grupo segurador.

Relatório

Na investigação da PF, várias pessoas já foram ouvidas. O relatório final deve ser apresentado em breve. O Estado apurou, no entanto, que a secretária Anne Paiva negou em depoimento ter sacado dinheiro de sua conta e se encontrado com Fiche.

Procurado, o ex-chefe de gabinete disse que a investigação no Ministério da Fazenda ainda está em fase de sindicância, não havendo processo administrativo contra ele. Segundo Fiche, a PF, tampouco, o indiciou por qualquer irregularidade. Ele reitera não ter envolvimento no suposto esquema.

O ex-chefe de gabinete diz que deixou o cargo na Fazenda porque a corregedoria da pasta, responsável pela sindicância, é ligada ao gabinete de Mantega. Ele argumenta que no Banco do Brasil não há por que alegar possível “interferência”. “Gostaria de terminar meu mandato. Sou inocente e não há razão para me afastar”, afirma, acrescentando ter qualificação para as funções de conselheiro. O BB informou, em nota, que Fiche foi eleito para dois anos e, no momento, “encontra-se efetivamente no exercício de seu mandato”.