Uma Geração Depois

O Brasil conseguiu colocar quase todas as crianças na escola. O problema é que milhões não chegam ao fim da jornada. Enquanto cerca de 85% dos jovens de 15 a 19 anos permanecem estudando nos países da OCDE, no Brasil apenas 69% seguem matriculados, e mais da metade dos adultos não concluiu o Ensino Médio.

Vinte e três anos.

É tempo suficiente para uma criança nascer, aprender a ler, concluir o ensino fundamental, atravessar o ensino médio, ingressar na universidade, formar-se e iniciar sua vida profissional. É tempo suficiente para que uma geração inteira descubra quais oportunidades lhe foram oferecidas e quais lhe foram negadas. É tempo suficiente para que uma sociedade colha os frutos — ou enfrente as consequências — das escolhas que fez.

Por isso, talvez a pergunta mais importante sobre a educação brasileira não seja o que aconteceu no último governo, nem mesmo nos últimos quatro ou oito anos. A verdadeira pergunta é outra: o que aconteceu ao longo de uma geração inteira?

A resposta é desconfortável porque comporta duas verdades simultâneas.

A primeira é que o Brasil avançou. O acesso à escola foi praticamente universalizado. Hoje, cerca de 99,5% das crianças entre seis e quatorze anos frequentam a escola. Milhões de jovens que antes dificilmente chegariam à universidade passaram a frequentar o ensino superior. Programas de inclusão, expansão de vagas e financiamento estudantil abriram oportunidades que permaneceram fechadas para gerações anteriores.

Vista desse ângulo, a história parece um sucesso.

Mas existe uma segunda história.

O Brasil resolveu, em grande medida, o problema do acesso, mas não conseguiu resolver os problemas da permanência, da aprendizagem e da conclusão dos estudos. O sistema educacional brasileiro funciona como um enorme funil. Quase todos entram. Milhões ficam pelo caminho.

Cerca de 7,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não concluíram o Ensino Médio porque abandonaram os estudos ou sequer chegaram a essa etapa. Enquanto aproximadamente 85% dos jovens entre 15 e 19 anos permanecem matriculados em alguma etapa de ensino nos países da OCDE, no Brasil esse percentual é de apenas 69%. O resultado desse processo aparece na população adulta: mais da metade dos brasileiros entre 25 e 64 anos não concluiu o Ensino Médio.

A expansão do ensino superior representa uma das transformações mais importantes das últimas décadas. Milhões de jovens pertencentes à primeira geração de suas famílias a frequentar uma universidade passaram a ocupar espaços que, durante muito tempo, estiveram reservados a uma pequena parcela da população. Esse avanço merece reconhecimento.

Mas a análise não pode terminar na porta de entrada.

A cada ano, aproximadamente um quarto dos universitários brasileiros abandona seus cursos. Quando observamos o ciclo completo da graduação, mais da metade dos estudantes que ingressam no ensino superior não chega à formatura. Nos cursos presenciais, a evasão acumulada supera 50%. Em diversas modalidades de Ensino a Distância, ela ultrapassa 60%.

A comparação internacional ajuda a colocar esses números em perspectiva. Nos países da OCDE, a taxa média de não conclusão dos cursos de graduação costuma situar-se entre 25% e 30%. Em países como Reino Unido, Suíça e Holanda, menos de um em cada cinco estudantes abandona os estudos antes do diploma. O Brasil aproxima-se de uma realidade em que mais da metade dos ingressantes não conclui a graduação.

A pergunta inevitável é: o que aconteceu com essa geração de estudantes?

Parte deles concluiu seus cursos e transformou suas vidas. Mas milhões abandonaram a jornada antes do diploma. E mesmo entre aqueles que conseguem se formar, surge uma segunda questão igualmente importante: quantos conseguem exercer as profissões para as quais foram preparados?

Diversos estudos apontam que uma parcela significativa dos graduados brasileiros acaba trabalhando em ocupações que não exigem formação universitária específica ou possuem baixa relação com a área estudada. O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas assume proporções particularmente preocupantes em uma economia que cresce lentamente e que ainda encontra dificuldades para absorver mão de obra altamente qualificada.

O resultado é um paradoxo. O país ampliou o acesso à universidade de forma extraordinária, mas continua enfrentando dificuldades para transformar matrículas em diplomas, diplomas em competências e competências em produtividade, inovação e desenvolvimento econômico. Essa dificuldade ajuda a explicar por que a discussão sobre educação não pode ser separada da discussão sobre crescimento, competitividade e futuro nacional.

Talvez por isso os resultados do PISA sejam tão importantes. Eles permitem observar não apenas quantos estudantes permanecem no sistema educacional, mas o que efetivamente aprendem dentro dele. Apesar dos avanços no acesso, os estudantes brasileiros continuam apresentando desempenho muito inferior ao observado nos países mais desenvolvidos e também em diversas nações que, há poucas décadas, possuíam condições semelhantes ou inferiores às nossas.

Na avaliação mais recente, o Brasil obteve 379 pontos em matemática, contra cerca de 472 na média da OCDE. Em leitura, foram 410 pontos contra 476. Em ciências, 403 contra 485. Mais preocupante do que a distância é a persistência dela. Após mais de duas décadas de reformas, programas e expansão do sistema educacional, continuamos avançando lentamente demais para reduzir de forma significativa essa diferença.

E é justamente aqui que a discussão deixa de ser apenas educacional.

Se milhões de jovens passaram pelas escolas e universidades brasileiras ao longo desta geração, por que continuamos apresentando níveis modestos de produtividade, inovação e competitividade? Por que tantas empresas relatam dificuldades para encontrar profissionais qualificados? Por que o crescimento econômico permanece tão baixo? A resposta certamente não está apenas na educação, mas é difícil imaginar que possa ser encontrada sem passar por ela.

Seria fácil transformar esse diagnóstico em uma disputa partidária. Mas a escala do problema sugere algo mais profundo.

Vinte e três anos representam tempo suficiente para que governos se alternem, presidentes sejam eleitos e substituídos, partidos mudem de posição e ideologias disputem o poder. Se os resultados continuam decepcionantes após um período tão longo, talvez o problema não esteja apenas nos governantes. Talvez esteja na incapacidade do país de construir algo que sobreviva a eles.

Os países que conseguiram mudar de patamar raramente o fizeram por causa de um único líder ou de um único governo. Eles construíram projetos nacionais capazes de atravessar décadas. Mudaram presidentes sem mudar prioridades. Alteraram governos sem abandonar objetivos. Trocaram partidos sem destruir políticas consideradas essenciais para o futuro.

A educação ocupou lugar central nesses projetos porque seus resultados não respeitam calendários eleitorais. Uma criança alfabetizada hoje talvez produza seus maiores impactos econômicos e sociais daqui a vinte anos. Um professor bem preparado influenciará milhares de alunos ao longo de sua carreira. Uma escola de qualidade transforma comunidades inteiras, mas raramente dentro do prazo de um mandato presidencial.

Ao observar a trajetória brasileira das últimas décadas, a impressão é que nunca nos faltaram programas, diagnósticos ou discursos. O que parece ter faltado foi continuidade. Cada governo apresentou sua própria reforma, sua própria prioridade e sua própria bandeira. Poucos conseguiram construir consensos capazes de sobreviver à troca de poder.

E sem continuidade não existe transformação educacional duradoura.

A Coreia do Sul não se transformou em uma geração porque encontrou uma fórmula mágica. A Irlanda não mudou de patamar por causa de um único presidente. O mesmo vale para a Polônia, o Vietnã e tantos outros países que utilizaram a educação como instrumento de desenvolvimento nacional. Todos compreenderam que certas políticas precisam ser protegidas das disputas do presente porque pertencem ao futuro.

Talvez seja essa a principal lição que emerge quando observamos a educação brasileira.

O maior problema não é apenas quantas crianças entram na escola, quantos jovens chegam à universidade ou quantos abandonam os estudos pelo caminho. O problema é que continuamos sem um projeto nacional de educação capaz de sobreviver à troca de presidentes, partidos, ideologias e governos.

Uma nação pode mudar de governantes sem perder o rumo. Pode alternar partidos sem abandonar prioridades. Pode debater ideias sem destruir consensos fundamentais. Mas dificilmente mudará de patamar se tratar a educação como uma agenda de governo, e não como um projeto de país.

Sem um projeto de longo prazo para a educação, torna-se difícil construir um projeto de longo prazo para a própria nação.

Essa talvez seja a questão mais importante que uma geração inteira nos obriga a enfrentar.

David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha na conclusão de dois novos livros — A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e As Dimensões do Silêncio e do Tempo — com lançamento previsto para 2026. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com.
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