O tema mais frequente das conversas em qualquer ambiente tornou-se a situação geopolítica mundial. Não posso deixar de fazer um paralelo com o recente livro de Ruy Castro sobre o Rio de Janeiro na trincheira da Segunda Guerra Mundial, em que o autor identifica sinais, eventos e movimentos que já prenunciavam o fim de uma era, precipitado por um conflito mundial.
Hoje, também, conflitos sangrentos se desenrolam na Faixa de Gaza, na Síria, na guerra entre Rússia e Ucrânia, apenas para citar alguns. O recente sequestro do presidente da Venezuela pelas forças armadas norte-americanas marca o fim do modelo vigente de ordem mundial.
Há uma inquietação difusa, quase uma percepção coletiva de que o mundo mudou, talvez mais acentuadamente desde a pandemia da COVID-19. O que distingue o cenário atual do passado é o grau de integração econômica global já alcançado.
Até a Segunda Guerra Mundial, os fluxos comerciais eram relativamente compartimentados: antigas metrópoles e colônias, uma Ásia bastante isolada, uma África marginalizada, uma América do Sul restrita a alguns produtos agrícolas e minerais. Hoje, vivemos uma realidade radicalmente distinta. Automóveis são montados com peças provenientes de dezenas de países; aeronaves brasileiras incorporam componentes fabricados em mais de dezenas de nações. As cadeias produtivas tornaram-se globais. Por isso, guerras e crises políticas afetam diretamente o emprego, os preços, o abastecimento e a estabilidade econômica em escala mundial.
Nesse contexto, chama atenção a postura recente dos Estados Unidos, cujo presidente passou a questionar tratados firmados ao longo de décadas, alegando que teriam representado uma espécie de “roubo” contra seu país. A resposta tem sido a combinação de retórica bélica com ameaças comerciais — algo que, embora pareça novo, tem raízes históricas profundas. Basta lembrar que, ao chegar ao Brasil, em 1808, D. João VI abriu os portos às nações amigas, beneficiando amplamente a Inglaterra, cujos produtos passaram a pagar tarifas menores do que os oriundos da própria metrópole portuguesa. A política internacional sempre foi, em grande medida, uma política de interesses comerciais.
Com o tempo, essas práticas se sofisticaram e deram origem a tratados de livre comércio, alianças econômicas e, em alguns casos, projetos políticos mais ambiciosos, como a União Europeia. Ali, o ideal de integração avançou para além da economia, ancorado em valores como paz, direitos humanos e desenvolvimento — ainda que esse projeto esteja longe de se completar plenamente.
Quando se trata de integração plena, com livre circulação de pessoas e mercadorias, o Brasil apresenta uma singularidade preocupante. Apesar de possuir um PIB que se aproxima de 70% da média mundial, o país se apresenta como um dos que exibem maior desigualdade na distribuição da renda. Segundo dados do IBGE, mais de 20% da população — cerca de 40 milhões de pessoas — vivem em condições sub-humanas. Diante disso, é inevitável questionar: o que significaria, para esse contingente, um eventual tratado de livre trânsito de bens, serviços e pessoas com países mais desenvolvidos? Seria o inverso do que ocorreu com os europeus pobres que migraram para a América do Sul há 150 anos, fugindo da miséria, da ausência de serviços públicos e de perspectivas?
A história mostra que aquelas grandes migrações — duras, sofridas e, muitas vezes, desorganizadas — acabaram formando, em poucas décadas, a parte mais expressiva da elite cultural e econômica da América do Sul. Italianos, espanhóis, portugueses, entre outros, chegaram pobres e, em menos de um século, tornaram-se capitães da indústria, inovadores e geradores de emprego. Políticas migratórias devem fazer parte dos acordos comerciais e culturais entre países.
O que vemos hoje, contudo, é um movimento inverso: fechamento de fronteiras, criminalização da migração, tentativa de congelar privilégios como se fossem estáticos. Esquece-se que a mobilidade humana é, historicamente, um dos principais mecanismos de redução das desigualdades. As pessoas se deslocam como em um modelo gravitacional, no qual são atraídas pela riqueza e repelidas pelo quadrado da distância física em relação aos seus objetivos.
Hoje, com maiores facilidades no transporte, começam a proliferar situações antes raras. Recentemente, em visita a Vassouras, cidade revitalizada em seu papel cultural pela liderança do empresário Ronaldo Cezar Coelho e de seu filho, Guilherme Coelho, chamou-me a atenção o fato de farmácias, restaurantes e lojas estarem sob a gestão de imigrantes chineses. A nova geopolítica passa também pelo cotidiano das pequenas cidades.
Essa realidade exige uma resposta que não seja movida pelo medo ou pelo ódio, mas por uma visão fraterna e integradora. O Brasil, nesse sentido, tem uma vocação histórica singular. Estudos recentes mostram que nossa população é majoritariamente de origem ibérica, mas profundamente miscigenada. Aqui, o “melting pot” ocorreu de forma intensa e rápida. Diferentes correntes migratórias, em pouco tempo, tornam-se brasileiras.
Está na hora de o Brasil assumir plenamente essa vocação, promovendo desenvolvimento com justiça social, combatendo de forma rigorosa a corrupção — não apenas a material, mas também a moral, que corrói instituições e desacredita a democracia. Só assim poderemos nos afirmar como uma potência respeitada, integrada e justa, à altura das aspirações de seus bons brasileiros.
Enquanto isso não ocorre, registramos a decepção com o que se passa no mundo e o novo farol de esperança que parece se iluminar a partir da reunião anual em Davos.