A Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, é uma referência na comunicação pública brasileira. Financiada em grande parte por recursos do Governo do Estado de São Paulo, ela também se apoia em um modelo raro de governança, com um Conselho Curador composto por representantes da sociedade civil. Essa estrutura busca garantir independência editorial, excelência técnica e compromisso com o interesse público.
Nesse contexto, a escolha do novo presidente da Fundação vai muito além de uma nomeação administrativa. Trata-se de uma decisão estratégica, com impacto direto no futuro de uma emissora que presta relevante serviço à população.
Inicialmente, a Secretaria de Cultura do Estado sugeriu um nome para o cargo que não encontrou respaldo entre os conselheiros. O Conselho Curador optou então por contratar uma empresa especializada em recrutamento de executivos para mapear o mercado e apresentar alternativas. Uma iniciativa positiva — se feita com transparência, rigor técnico e abertura.
A empresa contratada disponibilizou um link, em seu site, para interessados no cargo. Preenchi esse formulário no dia de sua abertura, entendendo que se tratava de um processo estruturado e transparente, como se espera de qualquer entidade que lida com recursos públicos. No entanto, não houve sequer uma confirmação de recebimento — nenhum contato, resposta ou retorno, nem mesmo automático.
Não se trata aqui de uma crítica baseada em expectativa pessoal. Trata-se de um questionamento legítimo: qual foi o alcance real dessa busca? A empresa mapeou de fato os profissionais com experiência em gestão de emissoras de TV, com base em critérios técnicos, experiência em gestão, domínio do mercado televisivo e, acima de tudo, sensibilidade editorial e jornalística? O processo seguiu critérios técnicos claros, ou foi apenas uma formalidade para legitimar uma escolha previamente decidida?
No próximo dia 14 de maio, o Conselho sabatinará três nomes indicados pela empresa: Luiz Barreto, Marcos Amazonas e Maria Ângela de Jesus. Todos têm trajetórias respeitáveis, mas é essencial que o processo que os levou até ali seja igualmente respeitável e auditável.
A TV Cultura tem uma história construída com base na credibilidade, na inovação e no compromisso com a formação crítica da sociedade. Seu jornalismo tem raízes profundas, como o legado de Vladimir Herzog, e sua programação educacional e cultural é referência nacional.
É dever da Fundação — e do Conselho Curador — garantir que qualquer decisão sobre sua liderança esteja à altura desse legado. Isso exige transparência, ampla escuta do mercado e critérios rigorosos. A sociedade tem o direito de saber quais foram esses critérios, e quem foram os profissionais considerados ao longo do processo.
Esse debate não diz respeito a nomes, mas a princípios. Em uma instituição financiada por dinheiro público, a transparência não é um diferencial — é uma obrigação.