Quando 20 Mortes por 100 Mil Viram Boa Notícia
Mesmo no menor patamar em 11 anos, a taxa de homicídios no Brasil revela uma normalidade que deveria nos escandalizar.
A notícia de que a taxa de homicídios no Brasil caiu para 20,1 mortes por 100 mil habitantes, atingindo o menor patamar em 11 anos, é importante. Em um país acostumado a conviver com tragédias recorrentes, qualquer redução da violência letal deve ser reconhecida. Menos mortes significam menos famílias destruídas, menos mães enterrando filhos, menos vidas interrompidas antes da hora.
Mas há algo profundamente perturbador quando uma sociedade aprende a celebrar 20 homicídios por 100 mil habitantes como boa notícia.
Porque esse número, embora represente melhora, continua descrevendo uma realidade brutal. Nos Estados Unidos, país frequentemente citado por sua violência armada, a taxa de homicídios foi de 5,9 por 100 mil habitantes em 2024. Ou seja: mesmo em seu melhor momento recente, o Brasil ainda mata, proporcionalmente, mais de três vezes o que mata a sociedade americana.
A comparação fica ainda mais dura quando olhamos para países realmente seguros. Em boa parte da Europa Ocidental, no Japão e na Coreia do Sul, as taxas de homicídio ficam próximas ou abaixo de 1 por 100 mil habitantes. Nesses lugares, o homicídio é uma ruptura da normalidade. No Brasil, ainda é parte da paisagem.
O Brasil melhorou. Mas melhorou dentro de um patamar de anormalidade.
O mapa da violência brasileira revela outro dado incômodo: o Brasil não é apenas violento. É desigualmente violento. São Paulo registra 6,6 homicídios por 100 mil habitantes, índice próximo ao dos Estados Unidos. O Rio de Janeiro aparece com 20,4, praticamente a média nacional. A Bahia chega a 40,9 — quase o dobro do Rio e mais de seis vezes a taxa paulista. O Amapá alcança 45,7.
Essa diferença não é apenas estatística. É moral, social, econômica e simbólica.
Rio de Janeiro e Bahia estão entre os destinos mais importantes da imagem turística do Brasil. São vitrines do país para o mundo. Vendem beleza, música, praia, cultura, hospitalidade, história e alegria. Mas, por trás do cartão-postal, há também uma realidade que o visitante talvez não veja, mas o morador conhece: a convivência cotidiana com o medo, a precariedade da segurança e a banalização da morte.
Não se trata de demonizar estados ou cidades. Trata-se de reconhecer que não há projeto sério de país quando alguns territórios vivem próximos a padrões internacionais aceitáveis e outros se aproximam de realidades associadas a regiões em colapso institucional.
Há vários Brasis dentro do Brasil. Um Brasil que se aproxima de sociedades seguras. Outro que vive sob uma guerra não declarada. E um terceiro que observa tudo isso à distância, como se a violência fosse fenômeno natural, inevitável, quase meteorológico.
Não é.
Há ainda um paradoxo mais perturbador. O Brasil não está em guerra. Não vive sob bombardeios, invasão estrangeira ou conflito militar declarado. Ainda assim, alguns de seus estados apresentam taxas de homicídio que se aproximam das de países submetidos a conflitos crônicos, insurgências, colapso institucional ou domínio territorial de grupos armados.
É preciso cuidado na comparação. Mortes em guerra, terrorismo, confrontos civis e homicídios comuns pertencem a categorias diferentes. Ainda assim, o contraste é moralmente inevitável. Quando o Amapá registra 45,7 homicídios por 100 mil habitantes, a Bahia 40,9, Pernambuco 37,3, Alagoas 35,9 e Ceará 34,3, já não estamos falando apenas de criminalidade comum. Estamos falando de uma letalidade que, em tempos de paz institucional, se aproxima de cenários que o mundo costuma associar a países em crise profunda.
Em conflitos crônicos ou de baixa intensidade, regiões afetadas por insurgências, milícias, facções armadas ou colapso parcial do Estado podem registrar mortalidade violenta em faixas próximas de 15 a 30 por 100 mil habitantes. No Brasil, estados como Pará, com 27,4, Roraima, com 27,8, e Rio Grande do Norte, com 23,5, alcançam esse patamar sem que o país reconheça formalmente estar em guerra.
Esse talvez seja um dos aspectos mais graves da violência brasileira: ela produz efeitos de guerra sem exigir que a sociedade pronuncie a palavra guerra.
A redução dos homicídios também precisa ser lida com cautela. Parte da melhora, segundo análises de especialistas em segurança pública, pode estar associada não apenas a políticas públicas, mas também a uma relativa acomodação no mercado criminal depois do período mais sangrento da disputa entre facções, especialmente entre PCC e Comando Vermelho, em 2016 e 2017.
Isso torna o quadro ainda mais inquietante. Quando a queda da violência depende, em parte, do equilíbrio interno entre organizações criminosas, a sociedade não está exatamente mais segura; está apenas menos exposta, naquele momento, à guerra aberta entre grupos armados.
E essas facções já não operam apenas nas sombras tradicionais do crime. Investigações e reportagens têm apontado sua expansão para atividades econômicas formais, lavagem de dinheiro, controle territorial e tentativas de influência sobre estruturas locais de poder. O problema, portanto, deixou de ser apenas policial. Tornou-se institucional.
A violência brasileira não caiu do céu. Ela é produto de décadas de fracasso institucional, desigualdade persistente, impunidade, domínio territorial do crime organizado, ausência do Estado onde ele mais deveria estar presente e presença abusiva do Estado onde ele deveria proteger, não humilhar.
Mas talvez o fracasso mais profundo seja outro: a perda da capacidade de indignação.
Quando uma morte acontece perto de nós, ainda nos comovemos. Quando viram dezenas de milhares de mortes por ano, chamamos de indicador. Quando a curva cai, respiramos aliviados. E, de certo modo, devemos respirar. Mas não deveríamos nos acostumar.
Uma sociedade moralmente saudável não mede apenas se está melhor do que ontem. Mede também se aquilo que chama de melhora ainda é compatível com a dignidade humana.
O Brasil precisa comemorar a queda dos homicídios. Mas precisa fazê-lo com vergonha, não com complacência. Com alívio, não com orgulho. Com a consciência de que ainda há um abismo entre reduzir a barbárie e construir uma civilização segura.
Porque o verdadeiro escândalo talvez não seja apenas o número de mortos.
É o fato de ainda conseguirmos chamá-lo de normalidade.
Um país que, em tempos de paz, convive com taxas de morte comparáveis às de territórios em conflito já não tem apenas um problema de segurança pública. Tem uma crise moral.
E uma sociedade que aprende a contar cadáveres como estatística perde algo antes mesmo de perder suas vítimas: perde a capacidade de se espantar.